Roberto França

Militante do Partido da Causa Operária. Professor de Geografia da Unila. Redator e colunista do Diário Causa Operária e membro do Blog Internacionalismo.

Imperialismo e o Iraque

Os 100 anos de Kissinger e os 20 anos da Guerra do Iraque 

A destruição do Iraque passou pelas mãos de Kissinger. Em 2023 completou 20 anos de invasão do país babilônico e o que já foi o mais rico país do Oriente Médio, passa fome.

Em reportagem da Reuters (25), Priced Out of Healthcare, Some Iraqis Turn to Natural Remedies, Umm Mohammed, afirmou que uma receita para tratamento de uma doença de pele custa cerca de 800.000 dinares (611 dólares), por isso recorreu a remédios naturais. De acordo Mohammed, mãe de dois filhos (foto), “As farmácias são um desastre no momento, as pessoas pobres recorrem às ervas medicinais por causa dos preços”, disse ela. “Quem pode pagar isso? Deve-se morrer? Então você recorre às ervas medicinais”.

Trágico para uma das maiores economias do Oriente Médio até a década de 1980, que agora convive com mortes diárias pela guerra e com os saques ao petróleo nacional. Enquanto os iraquianos passam necessidades farmacêuticas (entre outras), seu petróleo, que está na composição dos medicamentos, é saqueado. Mais de 90% da economia é baseada no petróleo, sem que se reverta para o país, mas para as grandes petroleiras internacionais.

Fonte: The Observatory of Economic Complexity

A invasão arquitetada por Henry Kissinger (que completou 100 anos de idade e 50 de carreira diplomática), forma juntamente com Nicolas Spykman [1], Zbigniew Brzezinski [2], o triunvirato da Geopolítica dos Estados Unidos. A mando da banca internacional, das petroleiras e do lobby sionista, atuaram como arquitetos da política externa norte-americana.

Kissinger e o Iraque

Kissinger concordou com um pedido do Xá do Irã para fornecer ajuda militar aos curdos no Iraque que objetivavam criar um Estado. O objetivo do Irã era pressionar o regime iraquiano controlado por Saddam Hussein, enquanto Kissinger buscava manter os soviéticos (FOREIGN RELATIONS OF THE UNITED STATES, 1969–1976, VOLUME XXVII, IRAN; IRAQ, 1973–1976. Memorandum of Conversation. Washington, July 23, 1973. https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1969-76v27/d24).

Kissinger, diplomata do Partido Republicano, esteve com todos os presidentes durante as campanhas de intervenção. Enquanto Brzezinski estava levando a “democracia” com bombas com as cores verdes e arco-íris, Kissinger intervia na lingua da moralidade, sendo assim no projeto “Guerra nas Estrelas”, na “Glasnost” e, principalmente, na “guerra ao terror” após os episódios de bandeira falsa do 11 de setembro, o que justificou a criação do “Ato Patriótico”.

Kissinger organizou a justificativa de tipo “moral conservadora”, com a “sofisticação” da diplomacia dos Estados Unidos, que apelou a todo lobby sionista da imprensa capitalista, para empreender uma das mais sujas campanhas, a de “libertar o Oriente Médio” do islão. Kissinger cantava aos ouvidos ao redator dos discursos de Bush ‘filho’ com todo o roteiro da invasão ao Iraque e tomada do poder. Articulou com o Instituto para Informações e Operações Especiais (Mossad – “Instituto”) de Israel, juntamente com a CIA e as forças de segurança da Síria para prender Abdullah Öcalan, líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), condená-lo à prisão perpétua e controlar uma guerrilha para aterrorizar o governo iraquiano, sírio e turco ao mesmo tempo.

Kissinger sabia que o controle da região passava pelo controle do Iraque (e a execução de Saddam Hussein), o que permitiria domínio (considerando o anteriormente invadido Afeganistão) de amplo território para empreender forças que pudessem ter o controle do petróleo e o controle das informações, além do estabelecimento de bases que pressionasse posteriormente o território chinês. Enquanto isso, a estratégia de Kissinger mantinha a China crescendo pensando no futuro:

A estratégia de equilibrar os bárbaros funcionara até certo grau. Nenhum deles se tornara totalmente predominante na China e, com essa margem, o governo de Pequim conseguiria operar. Mas a astuciosa manobra de preservar a essência chinesa trazendo as potências estrangeiras para conduzir suas maquinações de balança de poder em território chinês só funcionaria a longo prazo se a China permanecesse forte o suficiente para ser levada a sério. E a pretensão chinesa de um controle central estava se desintegrando [3].

Com pretensões de grande envergadura, Bush com seu diplomata, precisava de justificativas para avançar um nível tão elevado para o imperialismo. O que estava nos bastidores da invasão, em sua raiz? Impor a doutrina do medo como sempre, criando um enredo fantasioso. Após a primeira Guerra do Golfo, empreendida pelo Bush “pai”, aproveitaram que cientistas iraquianos desenvolviam pesquisas para lidar com o Antraz (Anthrax), doença ocorrida em rebanhos bovinos e ovinos, com rara contaminação em seres humanos, para fomentar o medo nos Estados Unidos. Após crise na aviação do 11 de setembro e que supostos terroristas contaminariam aviões com Antraz, já tinham a justificativa sanitária, que o Iraque tinha armas de destruição em massa. Kissinger então impulsionou a realpolitik, na forma do “interesse vital” de garantir o abastecimento de petróleo do mundo industrial.

Henry Kissinger, confidente de Bush, quando questionado pelo redator do discurso de Bush porque ele havia apoiado a guerra do Iraque, respondeu: “Porque o Afeganistão não era suficiente”. Os “radicais”, segundo Kissinger, queriam humilhar os Estados Unidos, por isso “precisamos humilhá-los”. Existiam enormes interesses em avançar e ocupar o Iraque. Deste modo, Saddam Hussein, outrora fantoche de Kissinger, passou ser alvo preferencial. Justin Raimondo do Partido Libertário de Illinois, afirmou no dia da invasão “Estamos travando uma guerra por Israel. Quando os sacos do corpo chegam em casa, e os mortos estão sepultados, que isto seja inscrito em suas lápides: Eles morreram por Ariel Sharon” [4].

Os norte-americanos estavam desarmando o Iraque desde 1991, e era notório que todos os discursos da dupla Bush-Rumsfeld (Donald Rumsfeld – Secretário de Defesa) era falacioso. Enquanto o governo iraquiano reafirmava que não tinha armas de destruição em massa, recorreram ao lobby sionista da imprensa para mencionar documentos falsificados pela CIA e Pentágono, tubos de Antraz, desenhos animados de laboratórios móveis de armas biológicas e o totalmente inventada ameaça de nuvens de cogumelos sobre cidades americanas para convencer americanos a apoiar a guerra.

O lobby sionista com os chamados “neoconservadores” [5] foram além da própria CIA. Como donos da Disney, os neocons escreveram um roteiro fantasioso, falsificando o islamismo, o Oriente Médio, e pervertendo até mesmo as normas das relações internacionais, que já o favoreciam. Colin Powell, secretário de Estado chegou a afirmar cinicamente que existia um “governo paralelo” dentro do governo dos EUA para avançar ainda mais além da CIA, e concediam entrevistas desmedidas. Resultado foi a morte de cerca de 5 mil militares entre soldados, fuzileiros navais, marinheiros, aviadores e guardas americanos. Centenas de outros empreiteiros, incluindo mercenários e outros agentes pró-imperialistas. 

Mas conseguiram destruir o Iraque, ao aprofundar a conflagração entre xiitas, sunitas e o PKK, dizimando seitas religiosas minoritárias locais e etnias. Destruíram os cristãos caldeus, Judeus, turcomenos, árabes do pântano e outros. A economia está completamente destruída. As forças dos EUA foram retiradas em 2011, após sucesso das Primaveras Árabes, que foram golpes baseados em revoluções coloridas. A guerra então se espalhou para o Marrocos, Tunísia, região do Sahel, Síria e Iêmen. Centenas de milhares de pessoas morreram nas mãos do imperialismo, com cerca de 40 milhões de refugiados forçados a deixar suas casas.

A retirada das tropas de guerra não retirou todos os militares do país. Grupos de assalto, de inteligência e bases estão sob monitoramento permanente dos Estados Unidos. Recentemente, Qassem Soleimani, um dos principais dirigentes iranianos, morreu a caminho de encontro com líderes do Iraque para uma solução ao país. 

A esquerda pequeno-burguesa não toca no assunto, e caso os iraquianos expulsassem os Estados Unidos definitivamente, provavelmente atacariam os iraquianos, assim como fizeram com o Talibã. A esquerda não se manifesta sobre a tragédia da invasão do Iraque, pois preferem atuar em favor dos Estados Unidos. No fim, lerão a obra do Kissinger e aplaudirão seu legado de crimes contra a humanidade, especialmente contra o Oriente Médio em favor do lobby sionista.

Notas

[1] Spykman escreveu sobre a política de intervenção dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, com todo planejamento necessário para se tornar a potência condutora do imperialismo, através das obras America’s Strategy in World Politics: The United States and the Balance of Power (1942) e The Geography of the Peace, (1944). Questões sobre o poder aéreo, poder marítimo e poder terrestre foram estabelecidos nesses tratados, além de conter a persuasão como instrumento de dominação imperialista. Spykman inspirou o também acadêmico Brzezinski. Morreu jovem, com apenas 49 anos, vítima de câncer. Se vivesse até os 100 anos, poderia ter sido mentor de barbáries gigantescas, além daquelas promovidas pelos Estados Unidos na década de 1980 (quando atingiria a idade de Brzezinski), mas a disseminação do terror acabou ficando por conta de seu sucessor intelectual, homem de confiança dos mais ricos do mundo, foi Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos durante a presidência de Jimmy Carter, entre 1977 e 1981.

[2] O polonês, fundador do National Endowment for Democracy (NED), faleceu em 2017, com 89 anos. Se estivesse vivo teria 5 anos a menos que Kissinger. Embora Kissinger seja o diplomata do Partido Republicano, na prática, trata-se da mesma geopolítica proposta por Spykman: sair do “isolacionismo” da Doutrina Monroe e avançar para além do poder marítimo e do cordão sanitário da região euroasiática, o incremento da intervenção na região do indo-pacífico e ingressar no Oriente Médio por meio da guerra ao terror.

[3] Sobre a China [recurso eletrônico] / Henry Kissinger; tradução Cássio de Arantes Leite – Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

[4] Libertarianism in the Age of Empire. The following is the text of a speech delivered to the Libertarian Party of Illinois state convention, March 1, 2003. http://www.antiwar.com/justin/j030303.html

[5] De acordo com os Neocons são os principais formuladores da política externa norte-americana da década de 1970 até 2010. É uma ala do Partido Republicano que se opõe ao pacifismo, ao moralismo, à social-democracia e à Nova Esquerda dos anos 1960.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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