Antônio Vicente Pietroforte

Professor Titular da USP (Universidade de São Paulo). Possui graduação em Letras pela Universidade de São Paulo (1989), mestrado em Linguística pela Universidade de São Paulo (1997) e doutorado em Linguística pela Universidade de São Paulo (2001).

Literatura

Cirino e o guia

A musa na multidão

Para incentivar os companheiros a publicarem contos e crônicas, resolvi divulgar minha prosa. Todo conto sempre remete a outro; inspirado no romance “Inocência”, do Visconde de Taunay, escrevi o conto “Cirino e o guia – a sobrevivência de Cirino à morte de Inocência”:

– Prove dessa erva, meu caro médico, tenho certeza de que vai ajudar na sua coleção de remédios – sugeriu o guia ao lado do moço do cavalo escuro, passando ao companheiro o cigarro de palha, o perfume doce e a paisagem seria outra.

Quem segue pelos morros de Minas Gerais está quase sempre fora do tempo; no espaço curvo, cada onda hesita se mostra uma passagem cavada no chão, cercada de mato, ou vales imensos. De manhã cedo, a neblina transforma o verde em cor de prata, faz o inverno e o frio, as estações do ano ao correr do dia, ao meio-dia o Sol a pino esquenta; as trilhas desdobram-se vagarosamente, impossível errar nas voltas em S, T, em A… todas as letras.

No vale descoberto diante dos rostos, Cirino observa, hesita temeroso, ainda sente as pontadas do tiro levado à queima roupa, a simulação da morte o deixaria em paz… “não, obrigado”, mas aceita; encontrou os olhos do homem, quem deveria lhe obedecer, avia receitas e conselhos sabendo curar. Respondeu com a voz grave, presa no peito machucado, mistura dos animais guardados no plexo solar… os ás e os ós dentro do peito para atormentar Cirino mais que o tiro, mais que o próprio guia. A fumaça sufocaria as feras, mostrou para Cirino o horizonte ameno, perdido, não sabia os nomes das coisas vistas, precisaria deles na travessia as serras.

O odor almiscarado diante da capela lembrava do mel e da mirra… Cirino, malgrado vontade do homem, parou para respirar e tossiu… ele e o guia haviam descido o morro quando ouviram o barulho da água nas nascentes minutos atrás, o rapaz lembrou-se da sede, parou, não desmonta, permanece a cavalo para ver melhor a estrada terminando no horizonte, linha quase reta sobre terra batida e lama, no canto fundo, a água jorra respingando nas pedras e no musgo, uma casinha miúda exposta pelo vale.

– T de aTravés e vamos embora – explica o guia para Cirino sua situação… queria estar ali, pois ficasse, estátua de madeira, duro, fácil de quebrar.

O guia resolveu escutar os pássaros, os grilos, divisar o capim ainda úmido, atento se haveria vacas, pois chovera na noite anterior; remédios mais fortes para cabeças duras, mais antigos que as ervas escondidas nos bolsos do casaco preto, agora, fumando fumo de rolo, descansa e prepara seu apetite de guia.

Os dois não são amigos; Cirino de cabeça baixa perde o horizonte cinza e o calor em ondas fracas espalha-se refratado das nuvens. Procura pelos sinais, as marcas feito aspas, ) parênteses assim ( , o hálux é ponto e vírgula e vestígios em fios de lama, em poças miúdas, prontas para evaporar e secar. O rasgo de tecido vermelho preso no espinheiro ele não viu, símile da borboleta, Cirino, e você nem sequer se lembra por quê.

Um significante estranho… a natureza sorri aos viajantes, enquanto Cirino enfoca o chão insistentemente; perante o guia, observador astuto, a mente do rapaz trabalha, há pensamentos densos acima de sua cabeça, a imaginação faz nuvens lá… o guia fez menção de virar o cavalo na direção do médico, mas foi detido no gesto:

– Alguém passou por aqui faz pouco tempo… – deduzia Cirino, fixado nas marcas.

O guia prestou atenção no zumbido das abelhas, havia mel e leite por perto, bastava ouvir o mugido das vacas… a casinha não estava em ruínas ou abandonada, quem deixara as pegadas ali, ia e vinha em sua direção.

– Já considerou a possibilidade de ela não ser tão bonita quanto você pensa?

Cirino levantou a face, indignado entre o horror e a raiva, o olho no lugar do murro… quanto mais cólera, mais calma por parte do outro. Traído pela desconfiança do guia, a vez da desconfiança sua… amigo maquinando uma artimanha ou bufão, traidor ou tonto… Cirino pensou no segmento áureo para se justificar, encantado com a simetria projetada nas pegadas deixadas na lama, o médico reconstruía quem passou por lá. As marcas dos dedos são notas de rodapé, ela seria leve pelas poças rasas, a delicadeza no fazer das linhas ligando os pontos espalhados, parecia dançar, a moça passava pela sua cabeça; em instantes, estariam prontas as pernas, as curvas dos calcanhares e dos tornozelos traçadas com esmero, a saia só permitiria ver abaixo das canelas, imaginará joelhos, ombros, os cabelos.

Parado sobre o cavalo escuro, Cirino era alegoria do corpo, da alma, mas não tinha espírito… repetir para se acostumar, dessa vez será mais preciso em seus erros.

– Que mulher você espera encontrar por aqui? – e antes das réplicas, adiantou-se de encontro ao moço – vamos embora, não queremos estar nessas regiões quando anoitecer…

Cirino livrou-se do casaco, precisava respirar melhor; seguiu obedientemente, virou-se diversas vezes para examinar o lugar e a casa, cada vez menores.

– Nosso trato vale? – relembrou, sem encarar o guia.

– Tem o valor da minha palavra.

– Pois então, eu quero aquela moça.

Encolhido na manta, sem Sol do meio-dia, a febre voltaria com a tarde; dependeu do guia na hora do almoço e agora o vê mergulhar na lagoa cercada de pedras, em direção à queda d’água, viu o tamanho do homem ao desmontar da égua, não esperava pela força e a corpulência do velho. Debaixo do chapéu, a cabeleira grisalha, fios ainda pretos, assim na barba e nas sobrancelhas… o bigode vasto cobrindo-lhe a boca, os dentes amarelados de fumo, peludo feito macaco no peito, nas pernas, ao redor do umbigo… entrou na água gelada sem recuar, foi devagar para recolher o frio e mergulha. No tempo moroso da tarde, o médico poderia ler as figuras do livro calmamente, uma tatuagem dá início à outra, nenhuma cor, todas em nanquim preto sobre a pele vermelha, cor de bronze, escritos exóticos, não reconheceu nada fora do latim, perderia o grego, o árabe e o devanagari, entre o hebraico e os ideogramas, pentagramas, círculos, cruzes e quadrados no meio do bestiário formado por carpas, serpentes, aves de rapina, olhos nas articulações dos braços, as curvas ao redor dos olhos seriam picos espalhando-se através das veias para ver na escuridão da morte… e o livro sumiu debaixo d’água lentamente, quando reapareceu, saído da corredeira com os braços levantados acima da cabeça, segurava o cabelo pronto para a cruz e o pássaro, marcados em espelhamento, a simetria dos contrários pelo corpo do guia tão bizarro.

O guia voltou dos pastos satisfeito, o pasto amigo; sentados ao redor da chama e da caneca de ferro, aspiravam o espírito do vinho apto para ferver, antes da infusão, o velho tirou da bagagem o caderno de notas:

Para cantar de Amor tenros cuidados,

Tomo entre vós, ó montes, o instrumento,

Ouvi pois o meu fúnebre lamento;

Se é, que de compaixão sois animados:

– Depois, o país fica sem borboletas… – retrucou Cirino, despeitado.

– Você é ouvinte ligeiro – contestou o guia – há palavras sob as palavras, mas você ainda não percebe. Amor ressoa em montes e prolonga-se em instrumento, somente depois há rima com lamento; todos os versos são heroicos, igual você gosta de parecer, montado em seu cavalo.

– Assim você demonstra tudo!

– Amor, montes de lamentos…

O riso sardônico, na boca do moço, surgiu com as dores no diafragma.

– É só um truque, Cirino, não se irrite.

A lira é instrumento solar, a viola e a corneta curva de cor preta, não… tambor ou sistro ou mandorla, alaúde ou cornamusa… ressonâncias entre os instrumentos e as obras. Cirino provou o gosto amargo da bebida, comerá agora o alimento dos centauros escutando a conferência dos pássaros e sonetos de Cláudio Manoel da Costa.

– Amor, montes de instrumentos… – comentou Cirino; o guia, sorvendo seus goles, acendeu o fumo no fundo da caneca.

Guia, na fogueira acesa, lançará centelhas na fogueira acesa com a abertura do punho brasa, livre das botas e dos capotes, mergulha na escuridão livre do chapéu… começa cavalo, cor de ouro, sem arreio e sem prata, depois vira cachorro, volta a ser macaco, surge no descampado boi, no meio dos charcos, sapos, voava de galho em galho feito ave… pavão noturno, o leque tem as pontas cor da Lua, o fogo do punho vaga-lume, loucura sua, Cirino, o homem não pode ser coiote, corvo, pantera… mirra misturada com almíscar, perfume na orla da fogueira, olor da erva desbragada, o guia permanece ali parado e vaga… asa atrás da orelha, vespa, favo de mel no fim da ceia, guia torna-se contador da fábula das abelhas. A legião das criaturas cisca, o chão parece mover-se mansamente, a luz parte do olho para nivelar espaço e tempo e Cirino pode ver a mata escura mesmo na penumbra, mesmo no escuro, mudo, foi atormentado pelo eco dos morcegos, cada onda batendo à sua volta reverbera no mancebo besta, o sorriso V de aVesso na boca B de Baleado… o tigre e Cirino cabra, vou matar uns bodes, vou comer as cabras, vou fazer a festa nesses bichos fracos. Cirino lê no ar todos os avisos, capim santo e erva doce no galho verde repleto de bolinhas… uma cai na terra, som de passo seco como tapa, salpica aqui e ali o som das ervas lembrando se passos molhados… são quatro olhos pelas quatro faces do guia mergulhado nos rochedos, a cabeleira faz a mata do planeta, onça negra, Cirino encontra a fuga, o guia e a presa. Contracanto de sapos e cigarras, o cachorro negro e a raposa esperta; a realização dos desejos.

De dentro da casinha, uma capela, Cirino viu quando ele assomou na curva da estrada, iluminado de velas, a noite lá fora ficava ainda mais negra… vinha devagar, marchava resoluto, a ave moça garça pousada no seu ombro esquerdo. A moça dos passos, contrafeita, agitadora, difícil de comover… a saia feita de retalhos, o cabelo ondulado em desalinho… falava numa língua estranha, desconhecida do médico.

O guia entra, a onça lança-se no ar enquanto a moça assume o centro da sala, cada braço, sua arma; a saia desmancha-se colorida, as coxas, as canelas e os tornozelos sob a luz da saia. A ideia no lugar serenamente, o guia constrói-se, o vergalho enorme despontou das calças; o membro enorme, parecia Y o guia de pau duro dentro da capela. Agora apenas homem, abraço para florescer, os muitos braços dela ao encontro dos pelos do peito e dos desenhos… suas pernas de cabra sobem pelas pernas torres… boquiaberta, sorveria no ar os urros, a mirra, todos os incensos.

Ela pousou nos dedos de Cirino e logo se foi deixando um bocado de pó negro, colocou Cirino imerso na literatura negra. Solta do alfinete, saltou por cima do médico doente, cravou as unhas dos pés, os dedos curvos símiles das aves, abriu os braços, duas asas. A pele escura, muito azul escuro à cor da noite, viraria sombra na capela negra, a dama negra sobre o médico machucado beijava-lhe a boca, os olhos, os cabelos… pisou com força no peito, na ferida, zona entre fomes e afetos, aquela entre parênteses sobre duas aspas… deixou montes de marcas, pois que vissem o médico, ardoroso e reto.

Na manhã seguinte, a cavalo, Cirino e o guia seguiam tranquilamente; impossível descrever a percepção na extensão do verde, a palha seca transforma-se em ouro enganando a vista, algumas árvores perdem as folhas verdes e tornam-se troncos-flores de outras cores, feito folhas. Encantando, somente a fruição dos fenômenos exprimindo-se em todos os insetos, em meio aos sapos, as cigarras e os tigres, a flauta, o fole, o órgão falado nos templos. A dama negra ainda te acompanha, fruto do desejo, dispersa sobre a lama visgo, fóssil, encontra-te dispersa no vento e nos aromas da floresta; sem se deslocar na cela, Cirino, lado a lado com o parceiro guia, persegue, na marcha dos cavalos, a escansão das sílabas, por pouco fala, a marca dos cascos pelo chão de terra e de barro, o rumor da língua nos ouvidos:

– Se os poucos dias, que vivi contente,

Foram bastantes para meu cuidado,

Que pode vir a um pobre desgraçado,

Que a ideia de seu mal não acrescente!

Aquele mesmo bem, que me consente,

Talvez propício, meu tirano fado,

Esse mesmo me diz, que o meu estado

Se há de mudar em outro diferente

– Sussurrava o guia distraído, entre um planeta e o próximo.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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