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Marilia Garcia

Membro da Direção Nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR).

Livro em construção

Capítulo 1 – A primeira vista

A vida de alguém qualquer

Hoje o dia é quente e as ideias fluem devagar. O ritmo próprio indica seu caminho singular. Minhas mãos foram desamarradas pela manhã. E as paredes de pedras abriram-se no verdejante arvoredo de um caminho desconhecido.

Havia dois homens a frente do veículo. Minha mente, ainda confusa, misturava suas faces as de meus sacerdotes. Eu não poderia prever o caminho a ser seguido. Mas foi esse o momento em que o segundo homem se aproximou e indicou o caminho da esquerda.

Segui como se anda pela vontade dos pés. Um breve alinhar de passos sobrepostos as pedras do longo caminho.

Não me lembro ao certo da paisagem. Eram brumas leves que definiam o caminho. Por vezes, as árvores me lembraram rostos conhecidos. O meu tio por parte de mãe, aquele que não teve filhos, e que ficava o dia inteiro sentado em uma cadeira de balanço, fumando as nuvens que preenchiam seus olhos. A imagem azul, contudo, apagou-se por um laranja desgastado de uma velha contenda que tive com a minha enteada. Ela era ruiva com sardas marcadas, e seus dentes tortos me irritavam profundamente. Não eram pouco comum as nossas brigas. Discutíamos como um joguete que só pode ser feito a duas pessoas que gostam da contenda. Era como os jogos de xadrez que tinha com seu pai. Jogávamos como quem move as peças a espera obter uma vitória.

Nesse momento da estrada, recebi mais uma visita inesperada. Era o amante esquecido dos tempos de escassez. Nunca suportei a falta de afeto. Na guerra, contudo, tudo o que resta é o vazio. Procurei preencher o meu com Marcelo. Mas ele tinha pouco a me oferecer: sua mente limitada preenchia nossos encontros de sexo. Eramos dois cachorros no cio. A humanidade foi a pedra de toque do fim da nossa relação.

Jamais contive meus desejos. Isso foi um grande problema nos meus dias de casada. Tive dois maridos, quatro amantes e uma relação séria com a solidão. Jamais fui preenchida pelas histórias alheias. Apesar de tantas, elas não completavam a necessidade pelo desconhecido.

Foi essa a descoberta do século.

Na esquina de um supermercado, era quinta-feira. Nessa esquina eu encontrei o que tanto procurava. Havia uma pequena moeda de prata puída pelo tempo, que me fez lembrar do período da infância ha muito esquecida. A viagem durou segundos, mas transformou certos processos na minha mente, os quais me fizeram embarcar nessa nova viagem de vida.

Quando nova, costumava declamar algumas canções misteriosas e secretas. Era obrigada a cantar baixinho, para que ninguém ouvisse. O som tornou-se tão pequeno que se entranhou na garganta de uma jovem idealista. Esse foi o ano em que meus pais desapareceram, deixando-me na companhia dos meus avós e das memórias vagas daquela longínqua infância.

Escrevia como forma de apaziguar a solidão. As palavras transcorridas nas linhas preenchendo o branco das páginas.

Meus cadernos se perderam com a vida. Assim como o resto dela. Meus avós faleceram aos meus quinze anos. Idade em que o trabalha já era rotina. O sustento rareava nos meses de inverno, nos quais as roupas caras alternavam-se aos alimentos. O quarto alugado, contudo, permitia a companhia dos outros membros da casa coletiva. Éramos sete.

Carla, Maga, Joaquina, João, Fernando e Miguel. Uma equipe pequena para enfrentar certos problemas improváveis para a idade. A pensão no subúrbio da cidade permitia um aluguel barato como alternativa para um grupo de órfãos sociais.

Um de meus guias espirituais era o velho Miguel. Um pedreiro de cinquenta anos que agrupava os sete com suas anedotas. Já fora de tudo. Certa vez roubara um carro abandonado na rua de baixo. Vendeu as peças e serviu uma farta ceia em um dia triste de natal. Três dias depois, foi denunciado, e ficou três anos preso. Ainda hoje ele não se arrepende. O problema era o esquema. Deveríamos fazer parte do esquema organizado para nos safarmos do juiz.

— Os homens me pegaram na parada escura do terminal 32 – disse Miguel – O pior foi que eu conheci Messias no colo da mãe. E lá estava ele: no banco da frente do camburão.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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