Antônio Vicente Pietroforte

Professor Titular da USP (Universidade de São Paulo). Possui graduação em Letras pela Universidade de São Paulo (1989), mestrado em Linguística pela Universidade de São Paulo (1997) e doutorado em Linguística pela Universidade de São Paulo (2001).

Coluna

A música de Egberto Gismonti

Egberto Gismonti combina sintetizadores com piano acústico, violão, viola, percussão e ritmos brasileiros

O primeiro álbum que escutei do pianista, violonista e compositor Egberto Gismonti foi “Dança das cabeça”, gravado em parceria com o saudoso percussionista Nana Vasconcelos, lançado em 1977 e seu primeiro trabalho na gravadora europeia ECM. Isso foi no início dos anos 1980; quem está acostumado a escutar música instrumental brasileira, especialmente chorinho e o samba jazz da bossa-nova, certamente se surpreenderá com as concepções musicais de Egberto Gismonti, bastante singulares no repertório brasileiro. Cada álbum gravado por Egberto, seja solo, seja em parceria com outros músicos, é o resultado de propostas inovadoras; não sendo possível me deter em todos eles, pois são mais de 35 álbuns, escolho apenas 3: “Água e vinho”, 1972; “Corações futuristas”, 1976; “Nó caipira”, 1978. Por que esses três? Porque, segundo espero justificar em seguida, eles representam melhor três projetos, dos vários em sua carreira, levados adiante pelo compositor: (1) as parcerias de melodia e letra com o poeta Geraldo Eduardo Carneiro; (2) a articulação entre banda, teclados eletrônicos e orquestra de cordas; (3) quartetos de contrabaixo, bateria, saxofone e piano ou violão.

Via de regra, a canções da música popular brasileira têm duas características básicas ditadas pela indústria cultural e, consequentemente, pelo capitalismo: (1) a poesia das letras, centrada em jogos de palavras ou de versos próximos da fala coloquial, está excessivamente subordinada às linhas melódicas das canções; (2) os instrumentistas, os verdadeiros proletários da música, têm o papel minimizado em detrimento do ego dos cantores, muitas vezes de talento e formação musical aquém das bandas acompanhantes. No álbum “Água e vinho”, porém, com vocação contrária, destacam-se a poesia das letras, bastante complexas, e a presença dos músicos; em todas as 10 faixas há diálogos entre canto e improviso, seja de piano e violão, instrumentos tocados virtuosamente por Egberto, ou dos demais participantes dos arranjos. As letras são do poeta carioca Geraldo Eduardo Carneiro, quem participou ativamente da poesia marginal da década de 1970 e 1980 ao lado de Chacal, Ana Cristina Cesar, Cacaso e outros; o fato de ser poeta e não apenas, cancionista, provavelmente influiu em letras distantes dos refrões repetitivos de sempre; semelhantemente, a sólida formação musical de Gismonti determinou a participação destacada dos instrumentistas. Infelizmente, tal combinação de poesia e música são raras no repertório da MPB, fazendo da concepção musical de “Água e vinho” algo bastante singular, repetida por Gismonti nos demais álbuns de sua carreira, nos quais, embora majoritariamente instrumentais, há espaço para algumas canções.

O próximo tópico diz respeito às articulações entre banda, teclados eletrônicos e orquestra de cordas. Gismonti gravou seus primeiros trabalhos contemporaneamente a bandas de rock progressivo, tais quais Emerson, Lake e Palmer – Tarkus é de 1971 e Trilogy, 1972 –; influenciado pelo teclado eletrônico, cujos recursos poucos souberam utilizar tão bem como ele na música brasileira, Gismonti combinou sintetizadores, teclado Moog, piano Rhodes e órgão Hammond, próprios do rock progressivo, com piano acústico, contrabaixo, bateria e saxofone, próximos do jazz, tudo isso conjugado com violão, viola, percussão e ritmos brasileiros. Acrescentando às músicas orquestra de cordas, em cujos temas notam-se influências de Villa-Lobos e Penderecki, o resultado são as faixas dos álbuns “Academia de danças”, 1974, e “Corações futuristas”, 1976; o último é bastante equilibrado, metade dele é centrado no violão, metade no piano.

No final da década de 1970, Egberto passou a gravar na ECM, gravadora europeia de jazz, dedicada a reunir músicos de diversos países; lá, além da parceria com o brasileiro Naná Vasconcelos, Gismonti trabalhou com Ralph Towner, Collin Walcott, Jan Garbarek e Charlie Haden. Influenciado pela música predominantemente acústica e centrada nos improvisos praticada na ECM, e em especial pelo pianista Keith Jarrett, Egberto aprimorou-se em quartetos formados por contrabaixo, bateria, saxofone e violão ou piano; “Nó caipira”, embora haja presença de orquestra de cordas, está centrado naquela formação. Gismonti gravou outros trabalhos com tal concepção musical, “Em família” e “Sanfona”, ambos de 1981, contudo, a presença de Zé Eduardo Nazário em “Nó caipira”, talvez o melhor baterista brasileiro de sua geração, dá tonalidades e timbres especiais aos arranjos.

Por fim, cabe destacar duas parcerias suas, a primeira, o álbum “Identity”, de 1975, com o percussionista brasileiro Airto Moreira, e a segunda, “Altitude of the sun”, de 1976, com o flautista estadunidense Paul Horn. Embora Airto e Egberto sejam brasileiros, as propostas musicais de cada um deles são bem distantes, enquanto Airto prioriza o swing e os compassos ímpares, tais quais 3/4, 5/4, 7/4, Egberto prefere o virtuosismo e a inspiração sensível ao compor e improvisar, por isso o encontro é bastante original. Com Paul Horn algo semelhante acontece, Horn é músico tomado por motivações místicas, são dele os improvisos registrados no álbum “Inside the great pyramid”, 1977, realizados dentro da pirâmide de Gizé, no Egito; vale a pena escutar seus improvisos tocando os sambas e baiões de Egberto Gismonti, acompanhado pelo pianista-violonista e sua banda.

O álbum “Água e vinho” está completo no YouTube neste endereço:

Deixo aqui ainda o endereço de uma antologia do artista, também no YouTube:

Artigo publicado, originalmente, em 12 de novembro de 2022.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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