Lula não pode resolver sozinho

Quais devem ser as prioridades do movimento sindical?

É preciso se opor à política de paralisia, típica do sindicalismo pelego que apoiou toda a investida da direita nos últimos anos

Foto: CTB

No fim de semana em que Lula se reuniu com sindicalistas, reconheceu a importância decisiva do apoio recebido das organizações de luta dos trabalhadores para a sua vitória, reafirmou seus compromissos com reivindicações apresentadas pelas entidades sindicais. Vale a pena destacar o posicionamento de um dos sindicalistas indicados para integrar o Grupo Técnico de transição do governo Lula (PT) na área do Trabalho, o presidente nacional da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e membro da direção nacional do PCdoB, Adilson Araújo (foto).

Uma resposta popular…

Em matéria publicada no sítio eletrônico oficial do PCdoB, destinada a destacar o que seriam as “prioridades dos trabalhadores no novo governo”, o sindicalista corretamente assinala que “a vitória de Lula foi a resposta das camadas populares da sociedade para enfrentar este momento”  de fome, desemprego, alta inflacionária etc.

Ele acrescenta que “Lula é o único capaz de dar voz a um projeto nacional de desenvolvimento com centralidade de atenção à valorização do trabalho e do trabalhador”. E ao analisar o trabalho do grupo do qual faz parte, destinado a apurar a situação do Ministério do Trabalho e Previdência ele critica que  “Não temos dúvida de que o Ministério do Trabalho reflete todo o processo de desmonte, de desnacionalização e de desregulamentação do Direito do Trabalho”.

…que precisa ser complementada pela mobilização

Apesar de ser presidente de uma “central”  que, formalmente, agrupa centenas de sindicatos de diversas regiões do País não apresenta uma única proposta de mobilização concreta da sua entidade e das demais em torno de problemas concretos dos trabalhadores, se limitando a atuar como um analista limitado da situação de devastação deixada pelos governos Bolsonaro e de seu antecessor, Michel Temer, no Ministério do Trabalho e Previdência.

O sindicalista expressa claramente a atitude passiva e conciliatória não só da CTB e PCdoB diante da crise, mas de toda a esquerda parlamentar que procuram alimentar a ilusão de que os graves problemas da classe trabalhadora serão resolvidos simplesmente pela iniciativa do governo Lula, sem uma mobilização real dos trabalhadores e sem que suas organizações de luta, apresente uma proposta própria diante da crise e se mobilizem para enfrentar e derrotar as gigantescas pressões que da burguesia golpista que o novo governo de Lula já enfrenta mesmo antes de tomar posse e que tendem a se intensificar.

Isso quando próprio presidente anunciou diretamente aos sindicalistas que  “apoia e se compromete com as prioridades da pauta da classe trabalhadora” que lhe foi entregue ainda durante a campanha eleitoral. E quando, portanto, um fator decisivo para garantir um avanço em direção ao atendimento das “prioridades dos trabalhadores” é a questão da luta por reivindicações concretas diante da crise.

Em seguida à própria reunião de Lula com os sindicalistas, o próprio presidente nacional da CUT, Sérgio Nobre, também membro da equipe de transição e que participou da reunião, uma das questões presentes e a necessidade do movimento sindical pressionar o Congresso Nacional, pois segundo ele  “será necessária muita lula para recuperar os direitos que foram arrancados da classe trabalhadora desde o golpe de 2016, primeiro com a Reforma Trabalhista de Michel Temer, depois com as perdas impostas por Bolsonaro”.

Lula, como parte de sua política de governo, conciliatória, afirmou que  vai “criar a mesa de negociação” com a participação de representantes dos trabalhadores, empresários e governo, mas é claro que para garantir conquistas reais para os trabalhadores, será necessária uma ampla mobilização em favor de reivindicações concretas que vão muito além de lamentar o caos dos governos do regime golpista.O presidente eleito falou em “convencer” os parlamentares. Nem precisa ser sindicalista ou militante politico. Qualquer trabalhador com o mínimo de discernimento sabe que o único caminho que torna possível fazer com que um Congresso amplamente dominado pela direita que apoiou o golpe de Estado (2016) e todas as medidas contra os trabalhadores dos últimos anos, como as “reformas” trabalhista e da Previdência é o da mobilização popular nas ruas. Não haverá conquistas efetivas e duradouras sem a mobilização da classe trabalhadora que derrote as armações da burguesia golpista e dos seus lacaios no Congresso Nacional.

Lula não vai resolver sozinho

Segundo Adilson Araújo, “o presidente eleito assumiu o compromisso de tratar sobre o “entulho autoritário” que ganhou voz com a Reforma Trabalhista“. Mas é claro, que não se trata de deixar a “bomba” para ser desarmada simplesmente pelas iniciativas do governo que além do congresso reacionário está cercado de elementos de direita que procuram pressionar Lula no sentido de um estelionato: sendo eleito para “governar para os mais humildes” como reconhece Lula, querem que ele governe seguindo a “cartilha” dos banqueiros e neoliberais que apoiaram o golpe, a prisão de Lula e todo o retrocesso do último período.É preciso se opor a essa política de paralisia, típica do sindicalismo pelego (como da Força Sindical, UGT etc.) que apoiou toda a investida da direita nos últimos anos. A CUT e os sindicatos classistas precisam convocar os trabalhadores a saírem às ruas na defesa de suas reivindicações, contra as tentativas da direita de cortar ou limitar as propostas de Lula que vão no sentido de atender – ainda que parcialmente – os interesses dos trabalhadores.

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