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A nova inquisição

O cancelamento é a volta à barbárie

Colunista da Folha acredita que a história depende do poder das palavras


No dia 9 de fevereiro, uma coluna na Folha de S. Paulo, assinada por Dodô Azevedo, defendeu que a chamada “cultura do cancelamento” é o que pode salvar a humanidade da barbárie. Para que ninguém diga que estamos exagerando a posição do autor, o artigo é intitulado “Só a ‘cultura do cancelamento’ pode nos salvar da barbárie”. Ou seja, para ele, a histeria coletiva contra pessoas que têm opinião diferente é a salvação.

O autor do artigo defende de maneira entusiástica o cancelamento e se aventura a fazer especulações históricas para provar a sua tese.

Vejamos os argumentos do autor: em primeiro lugar, para o autor, “cultura do cancelamento” é apenas um nome vitimista dado por pessoas que não estão acostumadas a receber críticas, mas que agora estão submetidas a elas. Seria um termo usado por uma “classe média, alta e ricos em geral. Gente que faz bobagem, ou comete crimes, passa por um momento de execração social, mas não passa disso”.

Se o termo é inventado ou não, a discussão é secundária. É preciso discutir o conteúdo que está contido nessa questão. Podemos chamar de cancelamento ou de execração social, mas o que está em jogo é uma política que procura calar uma pessoa que fale ou faça coisas que desagradem os “canceladores”.

O autor afirma que essas pessoas “cometem crimes” ou “fazem bobagens”, duas coisas bastante diferentes, mas que são tratadas como a mesma coisa. Sabemos pela experiência que os canceladores não estão atrás de punir crimes, mas de coagir determinados comportamentos com os quais eles discordam. Por isso, para o autor, fazer bobagens e cometer crimes é a mesma coisa. Essa ideia torna qualquer coisa passível de ser crime, como emitir uma opinião. Falaremos sobre isso mais abaixo. 

Não tem nem como definir, nem o autor faz questão de explicar, o que significa “fazer bobagens”. Provavelmente significa fazer alguma coisa que desagrade o autor. Mas se esse for o critério, estaremos diante de um mundo guiado pelas arbitrariedades de cada um.

Apenas a título de exemplo, podemos achar, e de fato achamos, que o que escreveu Dodô Azevedo em sua coluna na Folha é um amontoado de bobagens. Nem por isso defendemos o cancelamento dele.

Os canceladores querem transformar tudo em crime para justificar a sua ação. Trocam um debate público pela histeria. Diferente do que está afirmado no artigo, o problema não é a aversão à crítica. O problema é justamente que a atitude dos canceladores impede o debate aberto, a discussão e o esclarecimento.

Diz o autor sobre os críticos da cultura do cancelamento: “Textos que vilanizam ‘a cultura do cancelamento’ confortam os que querem ter, por exemplo, a liberdade de dizer e fazer o que quiser”. Fica claro onde está o problema, as pessoas não podem ter o direito de falar o que quiser, é preciso censurar, é preciso limitar a liberdade de expressão. E se juntarmos essa ideia com a ideia anterior de que o cancelamento serve contra as pessoas que cometem crimes, chegamos à óbvia conclusão de que estamos diante da defesa do crime de opinião.

Diferente do que afirma o título da coluna, a cultura do cancelamento é a própria volta da barbárie. É a volta da caça às bruxas da Inquisição. Não há discussão de ideias, mas acusações de crimes, censura e perseguição.

Outro absurdo é a ideia de que as vítimas do cancelamento são pessoas de classe média e ricas. Se fosse assim, por que a Folha de S. Paulo, porta-voz da burguesia paulista, está dando espaço para que o autor defenda o cancelamento em suas páginas? É exatamente o oposto do que ele diz. Os canceladores são típicos representantes de setores de classe média que se acham superiores intelectualmente a todos. Por isso se sentem no direito de cancelar.

É uma ideologia difundida amplamente na classe média universitária, extremamente moralista, que não gosta de “bobagens”. É uma ideologia promovida pela Folha, pela Globo, ou seja, pela burguesia pró-imperialista, que impulsiona essa política.

O autor vai mais longe na sua defesa do cancelamento e se aventura a dar exemplos históricos, mostrando não ser amigo nem da lógica, nem da interpretação dos fatos históricos.

“Se houvesse a tal ‘cultura do cancelamento’ nos séculos XVI e XVII, gente preta não teria sido escravizada no continente africano. E os milhões de indígenas mortos por conta dos vírus que os colonos trouxeram da Europa teriam escandalizado o mundo e refletido, antes que mal fosse feito: Talvez a colonização não seja uma boa ideia.”

É bastante constrangedor ler esse argumento. Na mente de Dodô Azevedo, a colonização do continente americano dependia da escolha das pessoas. Se ao menos a história fosse outra e os europeus decidissem não vir até aqui, não existiriam mortes de indígenas e escravização de africanos e todos seriam felizes. Tudo bem que nós nem existiríamos, nem Dodô Azvedo existiria e portanto não poderia estar escrevendo sua coluna na Folha. A ignorância é inimiga do bom senso.

O colunista raciocina de forma absurdamente anacrônica: como um fato ocorrido em um país recém-descoberto, longe da Europa, no século XVI, poderia “escandalizar o mundo”? Dodô não entende absolutamente nada de história. Por ser alguém que pensa como um pequeno-burguês, identitário e idealista, não percebe que as condições materiais, ou seja, econômicas, da sociedade, são as que determinaram que as coisas fossem do jeito que foram. A evolução econômica da humanidade obrigou a passagem para a escravidão como regime de acumulação que depois propiciou o desenvolvimento da própria humanidade e a chegada ao capitalismo industrial.

Hoje, só somos o que somos, uma sociedade com seus defeitos e virtudes, mas muito mais desenvolvida do que todas as anteriores, por causa da evolução material, econômica, que se deu em todos esses séculos e milênios. Os identitários não aceitam isso, querem fazer tabula rasa da história da humanidade porque ela não foi como eles gostariam que tivesse sido. É uma ideia religiosa e, portanto, reacionária.

Outro fato histórico que, segundo o autor, seria impedido se houvesse cancelamento, é o nazismo: “Hitler não teria se viabilizado hoje. O cancelamento viria com os primeiros discursos”. Assim que Hitler fizesse os primeiros discursos, os Dodô Azevedo da época iriam cancelá-lo, impedindo sua chegada ao poder. Que conto de fadas maravilhoso!

É apenas um problema de discurso, para o autor. Por exemplo, hoje, Jair Bolsonaro, que acumula discurso fascista em cima de discurso fascista, está no poder. Hoje existe a cultura do cancelamento, então por que os canceladores não impediram Bolsonaro de chegar ao poder? Que mistério!

Demonstrando séria defasagem em seu conhecimento político e histórico, o autor ignora, por exemplo, que Hitler foi preso antes de chegar ao poder. Quer cancelamento mais enfático do que ser preso?

A coluna de Dodô Azevedo ao menos nos é muito útil. Não apenas para mostrar o nível de ignorância dos identitários. É útil porque revela bem o que pensam eles.

Para eles, não existe luta de classes, interesses econômicos, em jogo. Existem palavras apenas. O mundo seria diferente se as palavras fossem medidas. É exatamente como pensam os religiosos que queimavam as pessoas na fogueira da Inquisição contra aqueles que ofendiam a moralidade da igreja.

A cultura do cancelamento é a inquisição, não é democrática; é a barbárie, não a civilização.

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