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A Verdade

O antimarxismo de Enver Hoxha e seus seguidores

Se a referência ideológica e política de um grupo que se pretende marxista é a Albânia, então é melhor rever os conceitos


O jornal A Verdade, órgão do Partido Comunista Revolucionário (PCR) e da Unidade Popular (UP), homenageou o 114° aniversário de Enver Hoxha, líder da revolução albanesa que libertou o país balcânico do fascismo e do imperialismo italiano e alemão e levou à expropriação do capitalismo.

Thales Caramante, em seu artigo, deixa explícita a ideologia antimarxista do agrupamento stalinista, que endeusa Hoxha e Stálin como continuadores da doutrina marxista.

Segundo ele, Hoxha “foi um ardente internacionalista da causa pelo socialismo em todo o mundo, jamais se limitando às fronteiras da Albânia”. Onde A Verdade encontrou o internacionalismo de Enver Hoxha, não sabemos. Na verdade, muito embora ele tenha liderado uma revolução autêntica e, portanto, a Albânia fosse relativamente independente da União Soviética até a derrocada do estado operário, Hoxha está longe de ter sido marxista e tampouco internacionalista.

A imposição stalinista

Após a libertação da Albânia pelo partido comunista, sem a participação do Exército Vermelho para implantar as marionetes da burocracia moscovita como ocorreu em praticamente todo o leste europeu, Enver Hoxha se beneficiou do amplo prestígio diante das massas e liderou a construção do estado operário albanês.

Porém, submeteu-se a Stálin e à sua política contrarrevolucionária. O líder da camarilha soviética fez com que o partido comunista integrasse elementos nacionalistas e pequeno-burgueses que participaram da libertação e mudasse seu nome para Partido do Trabalho da Albânia. Mas o pior veio com a crise da URSS com a Iugoslávia, uma vez que Tito ─ que também derrotara os ocupantes fascistas sem a ajuda soviética ─ não se dobrava às imposições de Stálin. Assim, foi renegado pela URSS e seus satélites e, uma vez que a Albânia fazia fronteira com a Iugoslávia, a burocracia stalinista manipulou os instintos nacionalistas de Hoxha para transformá-los em chauvinismo contra os iugoslavos.

Tanto foi assim que Tirana rompeu relações com Belgrado e passou a hostilizar frequentemente os iugoslavos, que deveriam ter sido tratados como camaradas e não como inimigos. Hoxha serviu, assim, como uma marionete de Stálin contra os rebeldes que não se curvaram à ditadura da burocracia soviética e buscavam uma independência.

Revisionismo e chauvinismo

É natural que Enver Hoxha não tenha sido o revolucionário marxista que A Verdade pensa que foi. Afinal de contas, a luta revolucionária na Albânia não foi travada por um partido com a experiência prática e teórica necessárias, ao contrário do que foram os bolcheviques na Rússia.

A Albânia sempre foi o país mais pobre da Europa, extremamente atrasado em todos os sentidos. A classe operária era minúscula em um país quase totalmente agrário e sua vanguarda era pouco desenvolvida. Os dirigentes da revolução, ademais, contemporâneos da contrarrevolução stalinista na URSS e na III Internacional, não tinham condições de levar adiante uma política marxista. Ficaram no meio do caminho entre o nacionalismo burguês radical e o marxismo, o que se revelou na construção do estado operário albanês e de sua liderança.

Após a morte de Stálin e a ascensão de Nikita Khrushchev como secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, com sua política de “desestalinização”, as relações com a Albânia esfriaram e finalmente romperam. A liderança albanesa aproveitou-se de Stálin para tentar se livrar da própria imposição stalinista a ela. Isso porque Khrushchev nada mais era do que a continuação da burocracia fundada por Stálin, apenas que tinha de “limpar a casa” e colocar toda a culpa da ditadura brutal que tomou conta da URSS em uma só pessoa, quando na verdade Stálin era apenas a cabeça do aparato grotesco de dominação dos trabalhadores.

Daí advêm todos os ataques albaneses contra o “revisionismo” de Khrushchev. Essa origem se mesclou com a ideologia pseudomarxista, na verdade nacionalista burguesa, da burocracia albanesa, gerando uma política esdrúxula de total isolamento com relação a todos os outros estados operários ─ incluindo com a própria China, que em um primeiro momento era aliada da Albânia contra a URSS.

Só a Albânia era socialista, na propaganda da burocracia albanesa. Todos os outros eram lacaios do imperialismo e a URSS era “social-imperialista”. Não é coincidência que hoje a UP chame a Rússia de “imperialista”. Isso comprova que Hoxha não entendeu absolutamente nada do que Lênin escreveu em O imperialismo, fase superior do capitalismo (se é que o leu).

Essa política de auto-isolamento e chauvinismo contra os iugoslavos é uma realidade que refuta o mito difundido por A Verdade de Hoxha como “ardente internacionalista da causa pelo socialismo em todo o mundo, jamais se limitando às fronteiras da Albânia”.

Também contradiz totalmente a afirmação do jornal de que ele era um “inimigo voraz” do dogmatismo e do esquerdismo, bem como da xenofobia.

Culto a uma personalidade imaginária

Como bons stalinistas, os “revolucionários” de A Verdade chamam Enver Hoxha de “grande teórico e guia”.

“Enver era um grande agitador político, estatista, professor, teórico, diplomata, político, escritor, linguista, cientista e, além disso, um grande e leal amigo e camarada de todos os trabalhadores e trabalhadoras do mundo – qualidades essas essencialmente raras de se encontrar em um único ser humano”, louva Thales Caramante.

São concepções abertamente idealistas e antimarxistas, criadas na década de 1930 por Stálin e incentivadas por Hoxha, o “farol do socialismo” internacional. Não se faz uma análise materialista, das contradições políticas do militante e do posterior burocrata Enver Hoxha. É um discurso religioso, mitológico, tipicamente nacionalista, e não marxista nem mesmo operário.

“Essas qualidades se demostram [sic.] pelo seu profundo amor pelo povo e pela classe trabalhadora”, diz o artigo. “Não existe morte para Enver Hoxha”, continua.

A Verdade, o PCR e a UP, ao elevarem Enver Hoxha e sua política ao status da perfeição, estão, na verdade, indicando mais uma vez que sua política atual baseia-se na experiência catastrófica para a classe operária que foi o stalinismo ─ Enver Hoxha é louvado por ser um stalinista fiel ideologicamente, embora na prática tenha entrado em contradição com o verdadeiro stalinismo, que não é uma ideologia e sim um sistema que existiu até o final da União Soviética.

É a justificativa ideológica para seguir as piores práticas do stalinismo, com sua intensa colaboração de classes com a burguesia e o imperialismo, uma política reformista e contrarrevolucionária. A justificativa para se passar por um agrupamento pretensamente socialista mas propor uma política rebaixada de conciliação de classes e reforma do capitalismo, revisando o marxismo com tolices como “social-imperialismo” enquanto o imperialismo está em uma intensa contradição com os países atrasados ou “poder popular” sem caráter de classe mas sim identitário enquanto a luta de classes e a polarização política se acirra a cada dia.


COTV

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