Matéria do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) publicada no Esquerda Diário, no dia 6 de dezembro, que deveria tratar do processo fraudulento contra Cristina Kirchner, começa falando de “um processo que já vem se desenvolvendo no cenário político argentino há meses, o kirchnerismo – em cujos governos houve corrupção assim como em todos os governos capitalistas”. Qual o propósito de se dizer que houve corrupção como em todos os governos capitalistas? (grifo nosso).
A questão não pode ser essa. Vivemos em um mundo capitalista. Nem meia dúzia de países têm governos “socialistas”. Se os governos argentinos são “capitalistas”, quem vai acreditar que o Estado, capitalista, combaterá a corrupção? Começa aí a contradição do MRT.
O que está em jogo é uma política de golpes judiciários que estão sendo dados na América Latina contra governos minimamente nacionalistas. Basta ver o que houve em Honduras, Paraguai, Peru, Equador, Brasil, Bolívia e, agora, Argentina. Apenas governos que estão no bolso do imperialismo, como Colômbia e Chile, não são incomodados.
O final do primeiro parágrafo termina dizendo que [o governo] “usa essa perseguição para criar um discurso político que opta por falar em “lawfare” para silenciar o debate sobre o ajuste neoliberal aplicado pelo próprio Governo da Frente de Todos”. Em 2016, no Brasil, parte da esquerda usou a política econômica para atacar Dilma, em meio ao golpe que se desenrolava, vemos aqui repetição dessa mesma política.
Não se trata de que o governo “opta por falar em perseguição”, isso é um fato. É um procedimento persecutório que vem se repetindo. Cristina Kirchner, nas últimas eleições, se contentou em sair como vice na chapa de Alberto Fernández porque estava sendo ameaçada de prisão. No Equador, Rafael Correa teve de fugir do país para não ser preso. Lula ficou quase dois anos encarcerado sem que houvesse uma única prova contra ele. No caso de Dilma, ficaram procurando algum crime, como não acharam nada, resolveram apelar para a tal “pedalada fiscal”.
Como vemos, há uma parte da esquerda que tem dificuldade em combater a direita. O governo vem implementando uma política da qual a própria Cristina Kirchner já demonstrou ser contra. A denúncia dessa perseguição não tem nada a ver com a tentativa de ocultar a política fiscal, tanto que a população está com a Kirchner, ao contrário de certos esquerdistas que ficam relutantes em enxergar o óbvio.
A esquerda anticorrupção
A matéria do Esquerda Diário não se aguenta e gasta longos parágrafos descrevendo a corrupção no governo:
“A cartelização de obras públicas, o enriquecimento duvidoso de empresários e suas relações com funcionários públicos foram comuns em todos os governos e fazem parte da corrupção que existe nas muitas negociações entre o Estado e os grandes capitalistas. No entanto, este julgamento não buscou investigar profundamente as redes de corrupção que evidentemente existiram nos governos Kirchner e Macri”. (grifo nosso). E mais adiante: “o que ficou sem explicação no longo julgamento por parte da defesa da vice-presidenta foi a relação entre o enriquecimento de Lázaro Báez e sua ligação com a família Kirchner”.
A história se repete. Todos se lembram quando boa parte da esquerda apoiou o Mensalão, apoiou o golpe e depois apoiou a Lava Jato. Trata-se de uma esquerda pequeno-burguesa e moralista que acredita nas instituições do Estado burguês. Se todo governo capitalista é corrupto, e a atual gestão é capitalista, só pode ser corrupta, o que justificaria a perseguição. Por mais que tentem esconder essa conclusão, é esse o raciocínio da política do MRT.
A matéria, ainda que diga que “a direita, a pedido de Washington, retoma o tema da corrupção para empoderar o judiciário e perseguir seus adversários políticos”, não tira as conclusões necessárias e até ataca novamente o atual governo, como no parágrafo final:
“Embora o julgamento tenha revelado elementos incontestáveis de parcialidade e perseguição política, a denúncia por parte da Frente de Todos serve para compor um discurso político que é cego ao ajuste brutal e a crise econômica argentina, que atravessou o ano e se aprofundará no futuro. Para efetivar esses ataques, também escondem que não estavam sozinhos, já que na hora de votar o acordo com o FMI e o orçamento de 2023, contaram com a enorme ajuda da direita dentro do Congresso”. (grifo nosso)
O MRT tenta mostrar uma certa “isenção” criticando os dois lados, não cabe dúvida de que se trata de uma capitulação. O correto seria denunciar mais essa ação golpista do imperialismo em vez de ficar entrando no mérito de que tenha havido corrupção.
A esquerda tem que denunciar mais esta tentativa de golpe, pois é disso que se trata. É preciso mobilizar as massas trabalhadoras para lutar contra o imperialismo, é assim que se evoluirá politicamente. Todo o resto, o centrismo, só poderá favorecer a direita e os golpistas.





