Desde o primeiro turno das eleições deste ano, com a declaração de um segundo turno entre Lula e Bolsonaro, viu-se uma mudança significativa no que diz respeito à política adotada pela burguesia. Os capitalistas, de maneira geral, agora migravam do apoio à terceira via, que fracassou, para apoiar Bolsonaro e garantir a sua vitória sobre Lula, o candidato dos trabalhadores brasileiros.
Para tal, alteraram a linha editorial de seus jornais e pararam de caracterizar Bolsonaro como o verdadeiro anticristo na Terra, dividindo suas críticas entre os dois candidatos. Ao mesmo tempo, mudaram o tom em relação a Lula, voltando a atacá-lo com a velha campanha da corrupção, além de criticar a sua relação com os governos nacionalistas da Nicarágua, Cuba etc.
Além disso, e mais significativo, começou a crescer de maneira exponencial o número de denúncias do que foi caracterizado como “assédio eleitoral”, um eufemismo que procura descrever uma grande operação de coação eleitoral dos patrões contra seus funcionários. Em outras palavras, estão forçando os trabalhadores a votarem em Bolsonaro.
As denúncias, que já ultrapassam a casa dos milhares, mostram que existe uma mobilização de classe, por parte da burguesia, em prol de Bolsonaro. Um golpe eleitoral escancarado contra Lula que utiliza o poder financeiro dos capitalistas para impor a sua vontade nas urnas, algo que pode, ao lado de toda a máquina da burguesia, efetivamente derrotar o petista neste segundo turno.
Com isso, diversos setores da esquerda, alguns que, inclusive, se colocam como revolucionários, caíram na campanha demagógica do judiciário contra o chamado “assédio eleitoral”. Passaram a defender que a lei fosse cumprida contra os patrões, para impedir que atacassem os direitos políticos dos trabalhadores. É o caso de Aderson Bussinger que, em artigo publicado no jornal Esquerda Online, redigiu um extenso dossiê jurídico acerca da questão.
Como não apresenta argumentos políticos, não é possível “rebater” o seu artigo. Mas, fundamentalmente, sua tese consiste na afirmação de que, para combater os ataques dos patrões, deve-se recorrer à lei. Mais uma demonstração de que a esquerda pequeno-burguesa não possui uma alternativa concreta às investidas da burguesia.
Fato é que a lei é feita por e para os patrões. Existe, aqui, uma incompreensão no que diz respeito ao papel do Estado que nada mais é do que um instrumento de força da burguesia contra os trabalhadores. Ou seja, um aparato que serve para garantir que os interesses dos capitalistas sejam efetivados, interesses que, por definição, são completamente contrários à classe operária.
Como se apoiar na lei para garantir os direitos dos trabalhadores? Trata-se de uma ingenuidade política muito prejudicial à luta dos oprimidos que, com isso, são ensinados a confiar em seus inimigos. Caso tivesse fundamento, a classe operária simplesmente não precisaria fazer greves, por exemplo, já que bastaria recorrer ao Estado para que seus direitos trabalhistas fossem assegurados.
Vejamos o golpe. Dilma foi expulsa da presidência por meio de um dos processos mais fraudulentos, no que diz respeito à lei, de toda a história, a mesma coisa para a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro. Como esperar que essa mesma lei esteja do lado do povo?
É o mesmo aparato que, nos últimos anos, considerou centenas de movimentos grevistas como “abusivos”, atacando de maneira direta o direito constitucional de greve dos trabalhadores. É o mesmo sistema que permite, diariamente, que a polícia massacre o povo brasileiro em operações absurdamente sanguinolentas. A lei não funciona para a classe operária, mas sim, para os patrões.
Antes, os trabalhadores devem lutar contra os patrões com as suas próprias armas. A única forma de combater esse tipo de coação, nesse sentido, é por meio de uma ampla mobilização dos funcionários que estão sendo atacados, mobilização que deve, inevitavelmente, resultar em um movimento grevista em prol da eleição de Lula.
Essa deve ser a principal diretriz para eleger Lula. O Estado nada fará para o povo caso não exista uma ampla mobilização que o pressione e, consequentemente, obrigue a burguesia a adotar as reivindicações dos trabalhadores, e isso vale, principalmente, para o período eleitoral.
Por fim, o principal papel da esquerda deve ser o de elevar a consciência dos trabalhadores enquanto classe e, para isso, deve mostrar a eles que a classe operária tem todas as condições que precisa para lutar contra a burguesia de maneira independente. Apelar para o Estado burguês é precisamente o contrário desse princípio, algo que desmoraliza o trabalhador deixando-o à mercê da boa vontade dos capitalistas que, finalmente, nunca virá.





