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Carla Dórea Bartz

Jornalista, com 30 anos de experiência (boa parte deles em comunicação corporativa). Graduada em Letras e doutora pela USP. Filiou-se ao PCO em 2022.

Cinema

Blade Runner: uma distopia anticapitalista faz 40 anos

Ficção científica lançada em 1982 aborda o capitalismo a partir do olhar de trabalhadores dissidentes, máquinas, que são caçados como párias.


Blade Runner, o caçador de androides (Blade Runner, 1982), dirigido pelo cineasta britânico Ridley Scott, está celebrando 40 anos de seu lançamento nos cinemas mundiais.

Com uma narrativa que contém uma premissa anticapitalista, o filme é um marco no gênero ficção científica e teve uma sequência lançada em 2017, intitulada Blade Runner 2049.

A reflexão que proponho neste artigo busca entender a representação que o filme faz do futuro – seu enredo é situado em 2019 – como uma leitura sobre o momento histórico de lançamento.

Baseado no romance Androides sonham com ovelhas elétricas?, que o escritor estadunidense Philip K. Dick publicou em 1968, a película também é resultado de uma tradição cinematográfica sobre a cidade distópica que vai de Metrópolis (1927), de Fritz Lang, a Alphaville (1965), de Jean-Luc Godard.

Ao mesmo tempo, ele inaugura uma nova abordagem na ficção científica que podemos ver em muitos filmes realizados nos últimos 40 anos, como Matrix (1999) e tantos outros, que misturam temas da cultura cyberpunk, mangás japoneses e futuro apocalíptico.

Com a distância que nos separa do seu momento de chegada aos cinemas, podemos entender Blade Runner também como uma expressão artística que é resultado de um processo histórico que mostra sepultado o espírito revolucionário da juventude da década de 1960.

Se Godard e Philip K. Dick já apontavam as contradições enquanto elas aconteciam, Blade Runner mostra que, poucos anos depois, estávamos diante de algo muito sombrio, como se, na verdade, o nazismo tivesse perdido a guerra, mas ganho a batalha política e criado um mundo à sua semelhança.

No enredo, o detetive Rick Deckard (Harrison Ford) tem como profissão ser um caçador de androides (o blade runner do título), ou seja, ele é aquilo que, no Brasil, chamamos de capitão do mato. Já os androides são seres de aparência humana, produzidos por uma empresa chamada Tyrell Corporation, que os vende como escravos para exploração de colônias em outros planetas. Nada mais metafórico com a situação da classe trabalhadora. Lembremos que a Guerra do Vietnã terminou em 1975.

As versões mais novas dos replicantes, como são chamados, são cada vez mais sofisticadas e se rebelam contra seus opressores, tornando-se dissidentes. Para impedir seu avanço, o poder central ordena o extermínio desses indivíduos, que considera perigosos terroristas.

Essa ação do poder central, no entanto, recebe o nome irônico e relativista de “aposentadoria”. Em contraste, as cenas mais memoráveis do filme são justamente o assassinato da replicante Zhora (Joanna Cassidy) e a morte de Roy Batty (Rutger Hauer), apesar do subtexto cristão.

Em Alphaville, um detetive tem a função de destruir um computador que escraviza seres humanos, tornando-os insensíveis e incapazes de entender contradições devido ao controle rígido da linguagem. Ele vai à cidade de Alphaville para tentar exterminar a máquina, contudo, não consegue lutar contra a lógica reacionária imposta aos cidadãos, cujo comportamento está próximo de autômatos.

Em ambos os filmes, o tema do detetive é uma citação ao film noir, gênero do cinema americano que teve seu auge justamente durante a ascensão das forças nazistas na II Guerra Mundial, nos anos 1930 e 1940, tendo a cidade de Los Angeles como o principal cenário.

Isso ajuda a explicar a incrível cinematografia desta Los Angeles contraditoriamente chuvosa e noturna de Blade Runner, que mistura objetos de épocas diferentes em meio a uma iluminação de sombras e o cigarro na mão da replicante e femme fatale Rachel (Sean Young), a representação mais icônica desse gênero.

Este cenário é um ambiente ou uma natureza capitalista, onde seres humanos ou seres artificiais se misturam com uma única função: todos são mercadorias no infindável círculo de compra e venda de coisas. Tal como os replicantes, a cidade capitalista também é a imagem de seus criadores que, no filme, são representados pelo burguês Eldon Tyrell (Joe Turkel).

Se em Alphaville, nos anos 1960, temos seres humanos controlados e se tornando replicantes, em Blade Runner, os seres humanos já perderam toda a sua humanidade, que tentam encontrar de maneira desesperada.

Essa jornada se dá na busca por memórias que sejam autênticas, não implantes artificialmente ali colocados pela classe dominante, para resgatar o significado de suas vidas, de seu passado e de possibilidades de futuro.

Neste ponto, o filme de Ridley Scott aponta para o nosso momento histórico ao encenar uma das principais características do que convencionamos chamar de pós-modernidade, período histórico do capitalismo tardio, assim nomeada pelo filósofo e crítico marxista estadunidense Fredric Jameson.

Uma das principais características da pós-modernidade é justamente o encolhimento do tempo a um presente contínuo, que apaga qualquer referência ao passado e à História propriamente dita. No filme de 1982, a tragédia dos replicantes dissidentes revela a amarga alienação à qual estamos expostos como força de trabalho no capitalismo que, cada vez mais, avança sobre nossa própria subjetividade, moldando nossa humanidade à sua semelhança. Vivemos ainda mergulhados nesse terror.

Em 1982, a versão neoliberal do capitalismo estava em plena marcha nos Estados Unidos e na Inglaterra, com os governos de Ronald Reagan e Margareth Thatcher. O Chile, com a ditadura de Augusto Pinochet, era o laboratório do inferno neoliberal. O Brasil vivia sob o governo do último general da ditadura, João Figueiredo. A perda da soberania das nações em nome da globalização financeira já se fazia presente.

A década viu transformações profundas, inclusive a capitulação total da União Soviética e uma mudança no comunismo chinês que foi fundamental para a China se tornar o país que conhecemos hoje. Entender a década de 1980 é importante para a compreensão do nosso atual momento histórico. Filmes como Blade Runner são representações metafóricas que ajudam nessa tarefa.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário


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