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Violão brasileiro

Baden Powell e a reinvenção do violão brasileiro

Em tempos nefastos de ataques à cultura brasileira, vale insistir que o maior violonista do mundo é brasileiro e filho de trabalhadores

Baden e Vinicius

Qual instrumento musical é mais difícil de tocar? Talvez, a melhor resposta seria afirmar todos eles, afinal se trata, antes de tudo, de fazer música, e fazer música digna de respeito é sempre bastante difícil. Não estou me valendo de pontos de vista acadêmicos ao mencionar tal dificuldade, vale a pena escutar Helena Meirelles tocando viola, Jimi Hendrix, guitarra elétrica, Sivuca, acordão, Zé Eduardo Nazário, bateria, Airto Moreira, percussão, Paulo Moura, clarinete e saxofone alto, Camarón de la Isla e Ivone Lara cantando ou Bezerra da Silva compondo, todos músicos de formação popular, e verificar o quanto eles estão à altura de músicos eruditos tais quais Artur Moreira Lima, Maria Lúcia Godoy, Gustavo Dudamel Ramírez, Jessye Norman… embora todos sejam músicos distintos, com variados pontos de vista musicais, estão unidos pelo respeito e o amor à música.

É com esse espírito plural, portanto, que convido meus leitores a escutar o saudoso Baden Powell tocando violão; em especial, detenho-me na versão da canção “Canto de Ossanha”, dele e de Vinícius de Moraes, do álbum “O grande show gravado ao vivo”, 1979, gravadora Atlantic. A obra de Baden gira em torno de 173 álbuns em seus 63 anos de vida e 53 de violonista; a primeira vez que escutei seus trabalhos foi nos LPs “Ao vivo no teatro Santa Rosa”, 1966, a segunda, “27 horas de estúdio”, 1969, ambos pela gravadora Elenco; do primeiro álbum, fiquei impressionado com a faixa “Consolação”, do segundo, com “Lótus” e “Cego Aderaldo”.

Baden e Banda
Baden e Banda

Diferentemente da guitarra elétrica, o violão não é propriamente um instrumento típico do jazz; comumente, quando aparece violão no jazz, são guitarristas tocando violão feito se toca guitarra; exceto Django Reinhardt e Ralph Towner, não me lembro de outros violonistas de jazz. Ao inserir-se entre músicos da bossa nova, portanto próximos do jazz com suas formações de piano, contrabaixo e bateria, Baden concebeu uma maneira própria de tocar violão dentro das coerções da linguagem musical jazzística baseada nas articulações entre tema e improviso; foi justamente isso a me surpreender quando escutei aquelas versões de “Consolação”, Lótus” e “Cego Aderaldo”; na última, a referência musical não se aproxima tanto do jazz quanto nas duas primeiras composições, mas da música brasileira, especificamente na tradição de nossos violeiros com seus temas e ponteios.

Entretanto, quando escutei a versão de “Canto de Ossanha” do álbum “O grande show gravado ao vivo”, de 1979, foi escutar a epifania da própria música se manifestando no homem, transformando Baden Powell em algo sobre humano. A gravação é ao vivo, não há truques, ele toca em apenas um canal, isto é, ele não colocou a base e depois solou em cima, tal qual se procede comumente em estúdios; no show, apresentando-se acompanhado por Lilian Carmona na bateria, Saulo Bezerra de Mello no contrabaixo, Don Bira e Jorginho Cebion na percussão, não havendo pianista, portanto, para fazer as bases harmônicas dos solos de violão, coube a Baden fazer ambas simultaneamente.

Baden Powell

É impossível explicar o que se passou lá, naquele momento do passado em 1979, felizmente, por haver registro, ele pode ser alcançado até os dias de hoje e projeta-se no futuro. Apenas para fazer algumas comparações, Baden com seu violão foi além do célebre trio de violões formado por Paco de Lucia, John Mac Laughlin e Al Di Meola em 1981… dito de outro modo, pode parecer exagero meu, mas Baden faz sozinho coisas que sequer aquele trio, com três virtuosos do instrumento tocando juntos, foi capaz de fazer. Ademais, tocar bases harmônicas com a mão esquerda e solar, com a direita, algo trivial para tecladistas, assume outras proporções no violão, cuja técnica, em princípio, implicaria um violão fazendo base e outro solando, feito é costume entre os guitarristas de rock, exceto monstros semelhantes a Baden, tais quais Jimi Hendrix ou Tony Iommi – outro guitarrista sem alguns dedos da mão, semelhantemente a Django Reinhardt –.

A versão referida de “Canto de Ossanha” tem início com a exposição do tema, bem mais complexo que os temas de jazz mais recorrentes, pressupondo riqueza de campo musical para os improvisos, mas também aumento da dificuldade em tocar. A letra é uma reza, eis os versos da canção dedicada ao orixá cujo domínios, no candomblé, são as folhas sagradas e as ervas medicinais e litúrgicas:

O homem que diz dou (não dá)
Porque quem dá mesmo (não diz)
O homem que diz vou (não vai)
Porque quando foi, já não quis
O homem que diz sou (não é)
Porque quem é mesmo é (não sou)
O homem que diz tô (não ‘tá)
Porque ninguém tá, quando quer

Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha traidor
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor

Vai, vai, vai (não vou)
Vai, vai, vai (não vou)
Vai, vai, vai (não vou)

Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pr’a ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor


Amigo sinhô Saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha não vá
Que muito vai se arrepender
Pergunte pr’o seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pr’o seu Orixá
O amor só é bom se doer

Vai vai vai vai (amar)
Vai vai vai vai (sofrer)
Vai vai vai vai (chorar)
Vai vai vai vai (dizer)

Em seu filme “Ensaio de orquestra”, Federico Fellini abre os trabalhos com o lema “toda música é sagrada, todo concerto é uma missa”. Pois bem, imerso nessa liturgia sagrada, Baden torna-se cavalo de Ossanha e faz milagres no violão. Logo após a exposição do tema, os demais músicos se recolhem, mantendo as bases rítmicas para o improviso do violonista, quem, no princípio, faz apenas uma linha de solo; em seguida, dialoga consigo mesmo alternando as frequências mais graves com as agudas, parecem dois violonistas tocando juntos; por fim, o assombro, Baden se multiplica em meio a técnicas absurdas, mas não apenas isso, a energia é singular, a massa sonora desencadeada no ar é brutal.

Baden Capa do Disco
Capa do disco

Baden Powell nasceu em 6 de agosto de 1937 e veio a falecer em 26 de setembro do ano 2000, no estado do Rio de Janeiro. Quando me lembro dele, pois tive o prazer e escutá-lo ao vivo algumas vezes, lembro-me também de brasileiros tais quais Edson Arantes do Nascimento, outro brasileiro quem fez no futebol arte semelhante ao violão de Baden; em tempos nefastos de ataques à cultura brasileira, vale insistir que o maior jogador de futebol e o maior violonista do mundo são dois brasileiros, nenhum deles oriundo da burguesia, mas filhos de trabalhadores, eles trabalhadores também.

A versão mencionada do “Canto de Ossanha” está reproduzida integralmente no seguinte endereço do Youtube; desejo aos companheiros uma excelente audição!


COTV

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