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Antônio Vicente Pietroforte

Professor Titular da USP (Universidade de São Paulo). Possui graduação em Letras pela Universidade de São Paulo (1989), mestrado em Linguística pela Universidade de São Paulo (1997) e doutorado em Linguística pela Universidade de São Paulo (2001).

História em quadrinhos

“A Comadre do Zé”, de Luciano Irrthum

Em seus quadrinhos, L. Irrthum revela talento singular para o humor, articulando o sublime e o grotesco por meio dos traços.


A edição número 3 da Coleção 100%, edições Graffiti, 2009, e a HQ A comadre do Zé, de Luciano Irrthum; logo na capa, chama a atenção o traço, próximo da xilogravura feita no nordeste brasileiro. Seria A comadre do Zé uma HQ regional? Há vários indícios de ser isso, pois, além do já mencionado desenho com alusões à xilogravura nordestina, típica das capas dos folhetos de cordel, os temas e as personagens da história remetem a contos populares, tratando-se do tema de enganar a morte, vivido por habitantes de certa vila cuja energia elétrica chegara recentemente.

Na história, o Zé tem muitos filhos com Maria; quando nasce o próximo, porque todos na vila já são comadres ou compadres do Zé, não há como batizá-lo. Sem solução, o Zé pensa em se matar, mas é impedido pela Morte, quem lhe oferece bebida; uma vez bêbados, Zé convida a Morte para ser madrinha do filho recém-nascido. A Morte aceita, presenteando o Zé com o dom de vê-la sempre sentada ao lado dos doentes; se ela estiver aos pés da cama, o doente vive, se estiver na cabeceira, ele morre. Dessa maneira, o Zé, malandramente, passa-se por médico, sempre acertando o destino dos pacientes.

O Zé enriquece com suas trapaças; certo dia, porém, ele precisa trapacear a própria Morte para salvar a vida do filho de um coronel – a cena da capa mostra, justamente, quando o coronel recebe Zé para cuidar do filho –. Depois do ocorrido, a Morte e o Zé se desentendem; mesmo assim, o Zé continua trapaceando a comadre para impedir sua própria morte. No final, depois de algumas peripécias, cujos temas também aludem a contos populares, o Zé, tornado imortal, vê o futuro passar diante dos olhos, terminando, ironicamente, triste e pasmado diante dele.

Os desenhos do Luciano Irrthum podem ser bem debochados, aproximando-se dos quadrinhos de Robert Crumb ou Marcatti, por exemplo, quando há cenas de sexo na HQ; em várias passagens, o autor revela talento singular para o humor, articulando o sublime e o grotesco por meio dos traços, seja nas expressões do Zé em seus orgasmos, seja quando está bêbado, seja em suas tristezas. 

Na trama da HQ, Zé, ao se lançar no futuro, vive em meio a personagens próximos da ficção científica, distanciando-se do regionalismo; além disso, a derrota da Morte, em regra, é motivo de felicidade nos contos populares, entretanto, em A comadre do Zé, contrariamente, o herói, embora vencedor da Morte, termina, em seu desalento, revelando-se perdedor. Seria Zé inapto para lidar com a multiplicidade dos mundos do futuro? Seria Zé o apocalipse da malandragem?

Em meio às muitas leituras sugeridas pelas boas histórias, A comadre do Zé encaminha, no mínimo, duas discussões importantes: (1) por quais modos tematizar o Brasil no quadrinho brasileiro; (2) quais seriam os alcances do regionalismo e as possibilidades de renová-lo em outras perspectivas.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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