O ex-jogador Kaká, pentacampeão do mundo em 2002, fez um comentário num programa de mesa redonda da rede de televisão inglesa BeIN Sports, sobre como o brasileiro vê a Seleção.
“É muito estranho dizer isso, mas no Brasil, muitas pessoas não torcem pelo Brasil. Neste momento, muitas pessoas estão falando sobre o Neymar, mas de uma maneira ruim. Talvez seja algo relacionado à política, mas nós, como brasileiros, às vezes não reconhecemos nossos talentos”
Mais do que expressar o sentimento do povo brasileiro, esse comentário expressa o que a imprensa e alguns setores de classe média falam sobre a Seleção. Embora haja uma confusão entre o que é o povo brasileiro e o que é a opinião de um setor colonizado do País, a fala de Kaká é correta.
Quando ele diz que “não reconhecemos nossos talentos”, ele expressa um problema crônico no Brasil. Por ser um País atrasado, sua burguesia é subserviente à burguesia imperialista. Esse atraso econômico acaba gerando uma relação de atraso cultural e dependência cultural. Tudo se resume assim: o que vem dos países imperialistas é bom, o que é feito aqui é ruim.
Essa relação, naturalmente, acaba sendo transmitida ao povo. Mais precisamente, a burguesia transfere isso para a classe média – de esquerda e de direita – por meio dos jornais, revistas, universidades, e a classe média chega até os trabalhadores, que acabam influenciados por essa ideologia colonial.
O futebol é um caso muito extremado disso porque é justamente o setor onde o brasileiro é infinitamente superior ao resto do mundo. A mentalidade de que o futebol brasileiro é ruim mostra o poder dessa ideologia, que tem origem no imperialismo, nos países europeus.
Mas não é apenas no futebol. Muitos gênios de nossa literatura, por exemplo, também são tratados dessa maneira. Sempre se encontra algum motivo para depreciá-los, para mostrar seus supostos defeitos ao invés das qualidades. Até mesmo Santos Dumont, inventor inconteste do avião, portanto, um dos mais importantes inventores do século XX, é tratado com leviandade no Brasil.
A música também é um caso extremado dessa mentalidade. A música popular brasileira, apesar de reconhecida no mundo todo como uma das mais ricas, é constantemente rebaixada, perde espaço para a grande indústria da música norte-americana e britânica.
Essa é a mentalidade provinciana da burguesia nacional. Uma burguesia que vê os europeus e os norte-americanos como superiores.
Kaká está certo em sua observação. Não vamos exigir do ex-jogador uma análise profunda sobre o tema, mas sua impressão é correta. Isso mostra também como a propaganda ideológica feita pela imprensa afeta os jogadores.
O imperialismo propaga essa ideologia, pois precisa lucrar com o futebol. Não pode tolerar que um País pobre e negro como o Brasil seja superior no esporte mais lucrativo do mundo.
É preciso deixar muito claro que a ideia de torcer contra o Brasil ou depreciar a Seleção e o futebol brasileiro é uma ideologia com origem nos países imperialistas, transmitida para a burguesia nacional provinciana que, por sua vez, a transmite para a classe média. O povo, quase 200 milhões de pessoas, não tem nada com isso. O povo torce para a Seleção, como vimos nas ruas cheias das cidades nos dias de jogos, apesar de ser vítima dessa campanha anti-nacional.





