Em sua coluna semanal no jornal golpista Folha de S.Paulo, Guilherme Boulos, ex-candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo, procura, de maneira muito ensaboada, traçar uma linha divisória entre a política da direita e a sua política no que diz respeito à educação durante a pandemia. Sem sucesso, Boulos acaba, na verdade, expondo as semelhanças entre a sua política e a do conjunto da direita golpista.
O texto, assinado com o título de “Volta às aulas”, procura apresentar Guilherme Boulos como um defensor da política de fechamento das escolas durante a pandemia, coisa que está em completa contradição com o Guilherme Boulos de uns tempos atrás…
O texto em si não apresenta um programa, nem argumentos para a sua política. Trata-se apenas de uma mistura de relatos pessoais, com dados apresentados acriticamente e o depoimento trágico da morte de uma professora. As posições políticas de Boulos só aparecem claramente no final do artigo:
“Para reduzir as desigualdades, o governo deveria ter assegurado equipamentos e pacotes de internet a todos os estudantes que necessitam, como feito em outros países. Deveria ter entregado cestas básicas às famílias, compensando a falta da merenda. Para oferecer retorno seguro, deveria adaptar as escolas, garantindo mais ventilação, salas com menos alunos e condições de higiene adequadas. Difícil acreditar, mas 26% das escolas do país não têm nem água encanada. E, acima de tudo, não há retorno possível sem a vacinação dos profissionais da educação [grifo nosso].
É evidente que a culpa pelo desastre absoluto que foi a volta às aulas é das autoridades públicas. O País hoje registra milhares de mortes por dia e é o principal foco da pandemia no mundo. No entanto, criticar o Estado não é suficiente. É papel da esquerda e de suas lideranças apresentar um programa que se contraponha aos ataques das autoridades à população. E qual é o programa que Boulos defende?
Segundo o psolista, o problema central seria, por um lado, permitir que os estudantes tivessem acesso ao ensino à distância e, por outro, garantir que a volta às aulas acontecesse em segurança. Esse programa, contudo, não tem coisa alguma de progressista: é apenas o programa dos capitalistas encoberto por uma demagogia. No fim das contas, essas constatações servem apenas para que Boulos peça aos eleitores que não votem nos governantes por serem incompetentes — para resolver o problema, não têm utilidade.
Suponhamos que os estudantes tivessem acesso a um material de ponta para poderem estudar em casa. Estaria, portanto, resolvido o problema da educação durante a pandemia? É evidente que não. Esse seria apenas um aspecto do problema: os estudantes mais pobres não conseguiriam estudar porque as condições econômicas lhes obrigariam a trabalhar para ajudar a família, ficariam doentes por causa da pandemia descontrolada etc. Afinal de contas, não se trata de um problema puramente técnico: sem resolver os problemas sociais mais essenciais, não é possível ter educação.
E a política de Boulos, a todo momento durante a pandemia, sempre ignorou essas questões. O psolista assinou embaixo de todas as medidas restritivas tomadas durante a crise sanitária, apresentou o auxílio-esmola de R$600 como um grande benefício para o povo e não denunciou as falcatruas da direita contra os trabalhadores. Não denunciou porque, seguindo a tendência da intelectualidade pequeno-burguesa, adotou a tese de que o único responsável pelo genocídio na pandemia era o fascista Jair Bolsonaro.
Em seu texto, Boulos critica a ação do “governo”. É preciso destacar, portanto, que se trata tão somente do governo federal, o que é absolutamente ridículo. Em todos os seus discursos anteriores, Boulos nunca criticou um único governador. E, neste texto, nada indica que sua análise mudou. Os governadores, no entanto, são todos cúmplices da política genocida de Bolsonaro: não construíram hospitais, não testaram a população, não deram qualquer amparo e ainda usaram da força policial para aterrorizar o povo.
Boulos não critica os governadores porque está junto da parcela da esquerda nacional que considera que uma “frente ampla” com a burguesia como solução para combater a pandemia. O próprio psolista já admitiu, em vídeo, que gostaria de repetir a experiência fracassada e reacionária das “Diretas Já”, quando a burguesia, por meio do MDB, impediu que o movimento operário derrubasse a ditadura militar de maneira violenta e, portanto, revolucionária. Depois, Boulos apareceu assinando manifestos com Fernando Henrique Cardoso, Armínio Fraga e todos os bandidos da direita golpista.
Em sua ilusão, Boulos acredita que apoiando esses picaretas, inimigos do povo, conseguirá manter seus privilégios no regime — um espaço na imprensa burguesa, um cargo no parlamento, aplausos da academia etc. Não é garantido que de fato consiga, mas, mesmo se conseguir, trata-se de uma enorme traição à sua base. Em troca de um cargo, está disposto a colocar no poder os seus maiores inimigos, aqueles que tramaram o golpe de Estado e que estão tão desmoralizados que acabaram perdendo espaço para a extrema-direita.
E é justamente por essa relação tão umbilical com os golpistas que Boulos é incapaz de dizer “não” à volta às aulas. No trecho destacado acima, Boulos fala em “retorno seguro”. Seguro ou não, o “retorno seguro” é a defesa do retorno das aulas. Boulos critica que “o governo” não promoveu a reabertura das escolas com a segurança devida, mas, na prática, está apenas defendendo a reabertura das escolas. Afinal de contas, se é para ser apenas “seguro”, então não faria sentido fechar absolutamente nada. Boulos deveria mudar sua palavra de ordem de “lockdown” para abertura total do comércio “de forma segura”. Não custa lembrar que quando os professores decretaram greve contra a volta às aulas em São Paulo, o PSOL votou contra e Boulos teve o cinismo de ir às redes sociais dizer que era uma greve por um “retorno seguro”…
Trata-se de um verdadeiro escárnio. Boulos chega a falar em que “o debate sobre educação na pandemia” seria “polêmico” e que “as consequências pedagógicas e psicológicas para as crianças são reais”, mas o fato é que defende a volta às aulas simplesmente porque é isso o que os bancos defendem. E como até os bancos recomendaram a suspensão das aulas por uma ou duas semanas, quando a situação da pandemia explodiu em três mil mortes diárias, Boulos agora tenta, embora sem conseguir de fato, esconder que apoiou a abertura da escolas e que continua apoiando, desde que haja as condições não de segurança, mas as condições estabelecidas pelos capitalistas.




