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Rafael Dantas

Membro da Direção Nacional do PCO e diretor de redação do Jornal Causa Operária.

Cobertura ao vivo no Twitter

Eu “delatei” o oportunismo

Quem são os oportunistas na luta pelo "fora Bolsonaro"? Ora, o PCdoB. Por que publiquei o que disseram em reuniões? Ora, porque, como disse Lênin, “a verdade é revolucionária”


O PCO foi acusado de “vazar” falas de organizadores dos protestos contra Bolsonaro. Admito: fui eu quem divulguei, por meio de postagens no Twitter, o conteúdo de reuniões da Frente Brasil Popular (FBP) e da Campanha Fora Bolsonaro. Elas aconteceram, respectivamente, nos dias 6 e 13 de julho, por videoconferência. Na primeira ocasião, quem me “denunciou” foi um membro do PCdoB que participou da reunião. Na segunda, uma colunista do reacionário jornal O Estado de S. Paulo.

Como membro da direção nacional do PCO e diretor de redação do nosso semanário impresso, acompanhei o representante do partido nas reuniões, o companheiro Antônio Carlos Silva, e à medida que os oradores de diversas organizações tomaram a palavra, reproduzi o que disseram entre aspas, tanto quanto pude, ou por meio de paráfrases, quando foi necessário sintetizar o que foi dito por limitações de espaço. 

Mário Fonseca, um membro do PCdoB que participou da reunião da FBP, acusou-me de ter pinçado trechos de cada fala e distorcê-los “segundo os interesses do seu [meu] grupelho”.

Desafio ele e qualquer orador a provar que distorci o conteúdo ou o sentido de seus discursos confrontando sua gravação em vídeo – que foi feita na reunião da FBP da qual ele participou – com o que eu publiquei. Não fui “imparcial”, como jamais poderia ser, na qualidade de jornalista de um partido revolucionário. Acrescentei comentários ao que disseram e sublinhei ou tornei evidente o conteúdo de suas falas quando deixaram implícito algo que revela uma determinada política.

Sonia Racy, jornalista d’O Estado de S. Paulo, que assina a coluna “Direto da fonte”, citou o coordenador da Central de Movimentos Populares (CMP), Raimundo Bonfim, como fonte. “Não precisamos de Abin. O PCO cumpre esse papel”, disse. Eu seria então uma espécie de espião, uma espécie de delator da esquerda. 

Meu partido, no entanto, não foi convidado a participar de uma reunião secreta ou, se preferirem, de um conventículo. Pelo contrário. Reuniram-se porta-vozes de partidos e organizações do movimento de massas legais, que representam, no conjunto, milhões de pessoas em uma luta política nacional contra o governo. Ademais, não reproduzi nada do que disseram a respeito da organização prática das manifestações. Tratei apenas da política exposta e defendida nessas reuniões.

Por que o fiz? Porque meu partido e eu acreditamos que as pessoas que dirigem a luta pelo “fora Bolsonaro” não devem esconder o que pensam detrás do que dizem. As reuniões “de cúpula” desse movimento não devem ser palco para conspiratas e jogo duplo. Pelo contrário, devem traçar a política, definir as ações e orientar as centenas de milhares de pessoas que estão saindo às ruas para lutar contra o governo. As reuniões devem ser públicas para que as pessoas que participam do movimento possam cobrar a política e a conduta de seus dirigentes.

Um movimento de massas não é, nem pode ser, um movimento clandestino. A mais ampla divulgação do que é discutido e deliberado pelos dirigentes desse movimento é uma condição essencial para que os que dele participam possam intervir e atuar politicamente. A publicidade de reuniões como essas é o que permite que militantes e ativistas de todo o País saibam quem são e o que defendem seus representantes. 

Um movimento conduzido por pessoas que não se sabe quem são nem o que pensam é, numa só palavra, antidemocrático. Se essas pessoas falam em nome de milhões de pessoas, nada mais justo que milhões de pessoas saibam o que falam.

Quão hipócritas seriam os dirigentes das organizações populares que exigissem que deputados e senadores expusessem suas opiniões e seus votos e, ao mesmo tempo, conduzissem negociatas a portas fechadas,  com parlamentares, patrões e inimigos do povo!

Naturalmente, alguns aspectos práticos das manifestações – quem vai alugar o carro de som, quantas bandeiras cada organização vai levar, quantas máscaras serão distribuídas, que medidas serão tomadas para proteger as manifestações do assédio da polícia, da direita etc. – não merecem a atenção de centenas de milhares de pessoas. Mas nenhuma das reuniões em questão tratava disso. O que estava em questão é justamente a política.

Na reunião da FBP, o membro do PCdoB já citado aqui disse, e outros corroboraram de diversas maneiras, por exemplo, que é “público e notório” que seu partido “defende uma aliança com o PSDB contra Bolsonaro” (assim mesmo, literalmente, por isso as aspas). Afirmar isso com todas as letras para todos os interessados não pode, de maneira nenhuma, ser considerado algo como “fazer o jogo do inimigo” ou “prestar um serviço ao fascismo” tal como me acusaram de fazer. Mas não se pode “delatar” ou “vazar” algo que é público e notório. 

Talvez tenha incomodado representantes de outros partidos de esquerda verem suas falas, feitas no mesmo sentido (“o movimento tem que ser o mais amplo possível”, “fazer uma aliança com todos os partidos que estão contra Bolsonaro” e até mesmo “com bolsonaristas arrependidos que se desgarraram do governo”) acompanhadas de indagações irônicas como as que fiz: “ele está falando do PSDB?” Se é assim, só posso dizer que delatei, sim. 

Delatei o oportunismo dos dirigentes que se dizem grandes defensores das causas populares, mas pregam uma aliança com partidos inimigos do povo como o PSDB; que pretendem condenar “a violência em geral”, quando tudo que lhes interessa é censurar “o PCO” por ter enfrentado os tucanos na Av. Paulista no dia 3 de julho etc.

“Estratégias” como essas não foram traçadas nas reuniões da FBP ou da Campanha Fora Bolsonaro. Foram elaboradas por um partido (o PCdoB, no caso), que tem todo o direito de fazê-lo e de fazê-lo a portas fechadas. Apenas denunciei, como é natural para um partido operário e revolucionário, o que setores da esquerda pequeno-burguesa realmente pensam e pretendem fazer. Fazê-lo seria incitar as pessoas contra os que praticam essa política baixa, feita nos bastidores.

Os que nos acusam de “vazar” as reuniões, no entanto, escondem mais um detalhe importante: quem dá à imprensa burguesa informações cruciais? Quem é que permite que a Folha de S.Paulo saiba e divulgue antes de todos a data de uma manifestação? Quem alimenta colunas como a “Direto da fonte” d’O Estado de S. Paulo? Quem se reúne com o PSDB e a Força Sindical a portas fechadas e “prepara” a próxima manifestação? Quem fala à imprensa em nome movimento, mas sequer participa das reuniões que tudo discutem e decidem?

Se eu e meu partido não divulgássemos que dizem os “dirigentes” do movimento de milhares de pessoas estaríamos omitindo informações sobre um perigo, a má conduta e a política desses dirigentes. Somente com essa denúncia, é possível que o movimento seja alertado desse perigo e possa corrigir os rumos que essas “direções” querem lhe impor. Apenas expondo o que acontece “nas cúpulas” é que se pode debater amplamente e entender o que está em jogo. É necessário divulgar amplamente o que pensam os que falam em nome do povo (mas até ontem estavam defendendo – junto com os governos do PSDB e de outros partidos burgueses – a política de “fique em casa”) para que seja possível mobilizar amplamente milhares de pessoas para lutar pelos objetivos que se propuseram, sem se desviar, sem vacilar, sem esmorecer. 

“Delatei” os oportunistas que querem entregar as manifestações nas mãos do PSDB, defendem a repressão da ala esquerda do movimento e querem levar milhões de pessoas a acreditar que tudo vai se resolver em um impeachment articulado pelos que colocaram Bolsonaro no poder. Farei isso quantas vezes for possível e necessário e os oportunistas que tanto se incomodaram sabem o porquê: a verdade é revolucionária.

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