Sacudida por uma onda de protestos radicalizados e ininterruptos desde o dia 28 de abril, a Colômbia viu uma nova demonstração da radicalização popular na noite desta terça-feira (25), quando manifestantes atearam fogo no Palácio da Justiça da cidade de Tuluá, a 369,7 km da capital Bogotá, no sudoeste do país. A ação foi amplamente criticada pela burocracia da ditadura colombiana, destacando-se a declaração do ministro da Justiça, Wilson Ruiz Orejuela, que nas redes sociais, declarou:
“Os atos contra o Palácio de Justiça de Tuluá hoje [25 de maio] à noite só podem ser classificados como terroristas, querem semear o caos e o medo. Isso deixa o cenário de vandalismo e afeta a tranquilidade dos colombianos. Encontraremos os responsáveis por esta situação.”
A caracterização não deixa de ser curiosa, dado que o governo colombiano notabilizou-se por usar um sistema de foguetes para atacar a própria população. Supostamente armado com munição não-letal, o lança-foguetes Venom é composto por 30 tubos de lançamento e cada cartucho, que pode produzir ruídos, flashes ou efeitos lacrimogêneos. Em Popayán, um estudante de 23 faleceu após ser atingido no pescoço por estilhaços de granada “não-letal”.
Trocando “terroristas” por “vândalos”, o ministro da Defesa, Diego Molano, também manifestou-se nas redes sociais, mantendo o tom pouco amistoso dado pelo seu colega aos manifestantes:
“Aconteceu em uma URI [Unidade de Reação Imediata] em Popayán, também no tribunal de La Plata. Agora acontece em Tuluá. Os vândalos querem obstruir a justiça com fogo como a desta noite [25 de maio] no Palácio da Justiça em Tuluá. Infame para comemorar. Os responsáveis saberão o peso da Lei.”
Os protestos de Tuluá começaram pacificamente quando homens uniformizados atacaram os manifestantes. Um estudante de 18 anos, Camilo Andrés Arango, morreu durante o protesto, segundo o general Jorge Vargas, diretor da Polícia Nacional, por “arma de fogo”. Além do jovem, dois civis foram baleados.
Segundo as estatísticas oficiais, de credibilidade nula, 43 pessoas morreram desde o início dos protestos. A ONG Human Rights Watch aponta um número maior, 61 vítimas fatais, dos quais apenas dois seriam policiais.
O dia 25 foi marcado também por uma grande greve nacional, que paralisou os trabalhadores do país. Além de Tuluá, confrontos entre manifestantes e a polícia colombiana ocorreram em Cali, Barranquilla e Bogotá.
Bloqueios versus hipocrisia
Tendo como propulsor uma proposta de reforma tributária que tributava até alimentos e aumentava o peso dos impostos sobre a população, pobre e trabalhadora, mesmo após ter sido tirada de pauta pelo governo genocida de Iván Duque, os protestos mantiveram uma radicalidade crescente, demonstrando que a insatisfação social é muito mais profunda. Desconectado dos interesses populares, o Comité Nacional del Paro (Comitê Nacional de Greve em português), exige que o presidente reconheça os abusos contra os direitos políticos da população realizados pelas forças de repressão durante os protestos, enquanto o governo pede a suspensão dos 73 bloqueios que afetam o abastecimento de várias cidades.
O tema dos bloqueios ganhou força nos últimos dias. O jornal imperialista El País repercutiu a história de bebês mortos, supostamente devido aos bloqueios rodoviários feitos pelos manifestantes. A matéria “Morte de dois bebês aumenta as críticas aos bloqueios das estradas na Colômbia”(24/5/2021) relata histórias estranhas, de ambulâncias que mesmo ciente dos bloqueios, tentaram atravessá-los ao invés de usar caminhos ou meios de transporte alternativos. A matéria do periódico imperialista encerra-se reproduzindo a caracterização dada pelo reacionário jornal colombiano El Espectador: “Um bloqueio desumano”.
Sem surpresa, a mesma opinião é defendida por Iván Duque, cujo aparelho de repressão desapareceu com centenas de manifestantes: “Em entrevista com @RedMasNoticias, reiterei que os bloqueios são uma sabotagem contra a nação. Os colombianos devem se unir no propósito de rejeitá-los, no marco da Constituição e da Lei e com uma Força Pública atuando no pleno respeito aos direitos humanos”, publicou o fascista em suas redes sociais.
Acirramento
Enfrentando a propaganda demagógica do governo e seus apoiadores por um lado, e a inépcia latente das organizações de esquerda por outro, é espantoso que a população colombiana tenha não apenas se mantido em mobilização há mais de um mês, mas também em nível de radicalização crescente. Longe disso, uma sucessão de reuniões entre o governo e as direções capituladoras da esquerda colombiana mostraram-se infrutíferas.
Em entrevista à Rádio Mundo Real, a líder camponesa em Cauca, Marylen Serna, porta-voz do Congresso dos Povos, dá uma ideia do tamanho da crise entre as direções. Lembrando o papel capitulador do Comité Nacional del Paro, que chamara uma mobilização virtual mas acabou ultrapassado pela mobilização popular, que foi às ruas, Serna diz que “se eles [governo Duque]chegam a fazer um acordo [com o Comité Nacional del Paro], é certo que alguns setores voltarão para casa, mas muitos vão permanecer na mobilização.”
Sobre a motivação das massas em permanecer nas ruas, a líder camponesa destaca:
“A reforma tributária era um dos temas mais fortes e conseguiu articular muita gente.Mas é preciso dizer que a reforma tributária não caiu totalmente.”
Lembrando o papel da brutal repressão policial, que vai muito além do mero reconhecimento por parte do governo, ela questiona “o que aconteceu com as pessoas desaparecidas? São mais de 500 pessoas desaparecidas durante a greve. Tem muita gente no hospital, feridas, com acusações legais. São muitas mortes.”
Em tempos de pandemia, lembra Serna, “outra bandeira é a reforma da saúde. O Projeto de Lei 010 está no Senado, é uma reforma profundamente retrógrada, para entregar a gestão da saúde às multinacionais, aos grandes empresários colombianos, e privatiza ainda mais a saúde.”
Finalmente, há também a luta política, fundamental para o avanço de qualquer pauta em que “a renúncia imediata do presidente Duque e de seu governo” é destacada. “”É uma bandeira iminente”, continua, “sabemos que é complexa e difícil, mas que está colocada para as pessoas de forma definitiva, através da palavra de ordem ‘Que caia o mal governo’, colocada neste momento nacionalmente.”
Do outro lado, o presidente capacho do imperialismo mostrou-se indisposto a qualquer acordo:
“Em reunião com @Asocapitales, reiteramos o respeito pelos protestos pacíficos, porém devemos entender que os bloqueios afetam os cidadãos e, acima de tudo, devemos preservar os direitos à vida, à liberdade, à saúde, além de repudiar qualquer expressão de violência”, publicou Duque em suas redes sociais no último dia 26.
É preciso clareza de que o Congresso dos Povos tampouco mostrou-se mais orientado politicamente. Ainda assim, a população mostrou-se muito decidida, a ponto de ultrapassar as direções existentes. Não se sabe até quando tal situação perdurará mas temos na Colômbia um indicativo de que as experiências nos países vizinhos, onde grandes explosões acabaram refluindo, gerou experiências à população colombiana, há décadas esmagada por uma ditadura brutal e submetida diretamente ao imperialismo americano. É preciso acompanhar a situação no país vizinho com muita atenção.





