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Sem trégua

Colômbia já conta com mais de dois meses de protestos

Apesar da repressão policial e das tentativas de enfraquecer o movimento, a população colombiana continua resistindo nas ruas


A Colômbia já conta com mais de dois meses de protesto. São cerca de 70 dias de confrontos com a polícia, organização popular, greves e manifestações que exigem a queda do governo de extrema-direita de Iván Duque.

Os órgãos de repressão estatal não olham essas ações de braços cruzados. Já são cerca de 74 mortos, 28 casos de estupro, 1.832 detenções e 82 lesões oculares ocorridas durante a repressão policial nas manifestações. Os números, entretanto, podem ser muito maiores. Ainda há cerca de 572 denúncias de desaparecimentos, muitas das quais foram ignoradas pelo governo.

Tendo começado em 28 de abril, as mobilizações passaram de um protesto contra a reforma tributária de Iván Duque para um protesto contra o governo como um todo. Com atos e greves crescentes, a população pobre em geral, sobretudo a juventude, marca uma forte presença — o resultado disso foi a criação de grupos de autodefesa que, com equipamentos improvisados, protegem a manifestação da repressão policial, sobretudo contra o Esmad (Escuadrón Móvil Antidisturbios) — uma observação importante é que essa mesma polícia é financiada pelo governo Biden nos EUA, evidenciando o caráter imperialista do governo Duque.

Em meio a tudo isso, surgiram tentativas de conciliação e de denúncia das atitudes do governo colombiano para organizações internacionais, como a Organização Interamericana de Direitos Humanos e a ONG Humans Rights Watch. Nenhuma das ações ou “represálias” tiveram algum efeito e a população continua nas ruas.

Em meados de junho, os sindicatos que compunham o Comitê Nacional de Greve na Colômbia decidiram paralisar suas atividades nas mobilizações. O ato causou indignação na população, que, por sua vez, formou assembleias populares para continuar seguindo com os protestos. Os sindicatos decidiram que voltariam a atuar em 20 de julho (Dia da Independência da Colômbia) e, até lá, reuniriam as reivindicações populares para uma “grande mobilização no Congresso para entregar projetos de lei”.

O dia “20 de julho”, entretanto, promete ser agitado. O ministro da defesa colombiano, Diego Molano, afirmou que “tem informações” sobre grupos financiados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e pelo Exército de Libertação Nacional (ELN) para promover “o vandalismo, a destruição e os bloqueios [de ruas]” nas cidades de Bogotá e Cali durante as manifestações no dia da independência — praticamente um passe-livre para justificar um aumento da violência policial. Além de tudo isso, por recomendação de Iván Duque, o Congresso irá discutir, neste mesmo dia, um projeto de lei “antivandalismo e antidistúrbios”, o que é claramente mais uma forma de aplicar a repressão estatal contra o povo e os manifestantes.

Nesse cenário político, o assassinato de ativistas e ex-militantes das FARC também vem crescendo exponencialmente. Desde a assinatura do acordo de paz entre a organização e o governo, em 2017, já são 1200 líderes assassinados pelas forças de repressão — 84 destes apenas em 2021.

Mas apesar das tentativas do governo de extrema-direita e da esquerda pelega de frearem o movimento, a população não saiu das ruas. Formaram assembleias e grupos de autodefesa, organizando-se para dar continuidade aos atos da melhor maneira possível, uma atitude que deve ser não só apoiada, mas também utilizada como exemplo para a esquerda e o povo brasileiro.

As mobilizações são intensas e devem continuar sendo organizadas até a derrubada do governo. Não se deve procurar, como faz a esquerda pequeno-burguesa, acordos com o governo e com os órgãos de repressão estatal. Iván Duque e sua equipe devem ser derrubados pelo povo na rua.

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