Maior queda do século

Agências divergem sobre retração no PIB brasileiro

A cada fornada de estatísticas o quadro se mostra pior que o anterior, a crise é do capitalismo

Em atualização da projeção anteriora, o Banco Central prevê que a economia vai cair 6,4% (Agência Brasil, 25/6/2020). Em contraste ao BC, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê um encolhimento do PIB de 9,1% (O Globo, 24/6/2020). Uma diferença que quase 50% entre as previsões. O que não é corriqueiro, mas pode ser analisado como resultado de uma realidade extremamente volátil e incerta e de olhares a partir de interesses diversos.

De qualquer forma, será um dos piores anos da economia brasileira. O recuo observado pelo Banco Central não é visto no Brasil desde 1996, no governo FHC. A queda anunciada pelo FMI faz o Brasil ter o pior resultado desde 1900.

Parte dos dados que o FMI utiliza são oriundos das mesmas fontes usadas pelo Banco Central, o resultado se refere especialmente à metodologias de cálculos um pouco diferentes para períodos menores que um ano e formas de anualização. Mas essas metodologias também mostram visões de mundo e interesses um pouco diferentes, mesmo que não antagônicos. A burguesia brasileira, especialmente a financeira, tem procurado criar um cenário mais cor de rosa para o Brasil. Isso mostra dois lados de um interesse. Não quer ainda que se observe o fracasso absoluto da política neoliberal que as várias facções da burguesia nacional apoiam, mas quer pressionar por reformas privatizantes, que mostra como necessárias para que o crescimento que aponta para os próximos anos, tal qual uma cenoura na frente de um burro.

Qualquer que seja o índice de queda, ela será maior que o previsto. As incertezas continuam e parte da realidade da crise, a parte da pandemia, não mostra sinais positivos. Poderá ser mais prolongada. Poderá haver uma ou mais ondas seguintes de retorno do vírus ou de outras cepas. Mas há outras realidades. A crise no mundo é desigual, mesmo que tenha certa articulação. Dependendo do que um país atrasado exporte, o impacto da retração do comércio internacional sobre suas contas será maior ou menos. No caso brasileiro, não podemos deixar de considerar uma magnífica nuvem de gafanhotos que se aproxima nas maiores áreas de agricultura de exportação. A China está tomando providências para evitar fortes danos em sua agricultura. Mas o Brasil confia tão somente no uso de agrotóxicos que matam qualquer coisa, especialmente os humanos o médio prazo.

Os EUA estão com uma queda anualizada do PIB de 5% (G1, 25/6/2020) e a China aponta para um crescimento talvez não superior a 1%. Isso impacta sobremaneira a economia brasileira, tanto no que diz respeito ao tamanho da crise neste ano, quanto em relação às expectativas de comércio no próximo ano. Os preços das matérias primas (inclusive de produtos agrícolas que sejam insumos para a indústria) devem despencar nos mercados competitivos. Os níveis de preço do petróleo devem permanecer ainda baixos. Com isso, por mais que o Brasil consiga exportar, o valor dessas exportações tem grande chance de ser muito pequeno. É isso que conta ao final.

E são nessas trocas internacionais que começam a aparecer diferenças entre os interesses da burguesia nacional com os interesses do imperialismo. Mas isso pode também sofrer algumas flutuações, dependendo das áreas de interesse.

No campo fiscal, o FMI lança dúvida sobre a capacidade brasileira de retomar ante a fragilidade das contas públicas no pós-pandemia, com níveis altos, segundo ele, de endividamento público e forte necessidade de retomada do aperto fiscal. O mesmo cenário existe em países desenvolvidos, mas as preocupações de aperto não existem por lá. Por isso, sempre fazem a ressalva de que “tamanho do endividamento brasileiro é considerado alto para um país ainda emergente” … para um país emergente. Números muito mais desfavoráveis não são considerados problemas, para um país desenvolvido.

O que se quer com isso é evitar qualquer política pública que tenha por viés a redistribuição de renda ou qualquer ação governamental que opte por promover forte investimento na economia ou aumento de gasto público que tenha esse efeito. São mundos diferentes para o FMI. Para os países atrasados a politica continua sendo a da privatização total, de empresas e recursos naturais, inclusive a água, como mostrou o Senado Federal; a desnacionalização das empresas, quando não o seu fechamento, casos da Embraer, Petrobrás e outras (especialmente no campo militar, armamentos, tecnologia da comunicação, informática etc.); a quebra de todo e qualquer contrato social que tenha viés de Estado social, especialmente a desestruturação da legislação trabalhista, mercantilização dos serviços públicos e subordinação dos insumos agrícolas aos interesses de empresas de biotecnologia dos países centrais.

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