Dia 26: golpe de Estado ou desespero?

O que se viu no último dia 15, é que a fraude eleitoral que levou Bolsonaro ao governo não tem, de fato, o poder mágico de transformar um proto-fascista medíocre em uma verdadeira liderança nacional, um membro do baixo clero parlamentar, um verdadeiro bobo-da-corte da burguesia, em alguém com a mínima legitimidade necessária para conduzir o Estado brasileiro.

E não foram necessários nem cinco meses completos para que a completa artificialidade do governo Bolsonaro se traduzisse em ondas de protesto avassaladoras, que ultrapassaram facilmente os estreitos limites de uma simples greve da educação com reivindicações pontuais, para se tornarem uma clara expressão do que está explodindo na garganta do povo brasileiro: a ordem de imediato Fora Bolsonaro!

Ainda que possa remanescer alguma base social de apoio ao fascista, poucas vezes se viu na história brasileira um presidente tão visceralmente odiado pelo nosso povo, e em tão pouco tempo, como Bolsonaro.

Enquanto o sofrimento do povo cresce exponencialmente dia após dia, em um país em recessão, com desemprego e inflação crescentes, ameaçado de perder ainda mais direitos fundamentais do que os já perdidos, mas que há menos de cinco anos desfrutava taxas próximas ao pleno emprego, onde inflação baixa aliada a um crescimento econômico capaz de trazer poder de consumo – ainda que moderado – para as mãos de milhões de brasileiros eram uma realidade concreta, as bizarrices do governo Bolsonaro se mostram, aos olhos da imensa maioria da nossa população, de fato, como um bando de malucos comandando o país, e isto justamente no momento em que atravessamos certamente uma de nossas maiores crises.

A total falta de rumo, as contínuas hesitações, a completa ausência do mais simples bom-senso e da mais básica compostura para o exercício do cargo de Presidente da República, já estão claros aos olhos de milhões de brasileiros como as marcas fundamentais de Bolsonaro e vários de seus ministros, até mesmo dentre aqueles que, por um motivo ou por outro, votaram no direitista.

E se há meses tudo indicava que a pouca base social do seu governo estava rapidamente evaporando, o último dia 15 deixou a impressão clara de que Bolsonaro é mesmo um governo balançando no ar, sem qualquer solidez que lhe dê um mínimo de sustentação política.

E neste contexto, de forma bastante semelhante a Fernando Collor frente ao impeachment, Bolsonaro tenta uma operação verdadeiramente desesperada para arregimentar os fiapos de apoio que ainda lhe restam, tentando tornar o próximo dia 26, artificialmente, em uma verdadeira “Marcha sobre Roma”, insinuando que tentaria um auto-golpe, onde fecharia o Congresso, e até mesmo o Supremo Tribunal Federal.

Mas o nosso “Mussolini” brasileiro, farsesco com é, sabe que, diferente da Itália dos anos 1920, não tem nem a base de apoio da classe média conservadora e miliciana, nem é a opção de poder da burguesia.

Quanto à burguesia, classe que dirigiu diretamente a tomada de poder do fascismo italiano, no Brasil de hoje é a própria imprensa capitalista que não deixa dúvidas de que vê no Bolsonaro mais um empecilho para seus projetos golpistas do que um salvador de seus privilégios de classe, como era visto o Mussolini original, italiano.

Com estas ilusões golpistas, o fraco e derrotado Bolsonaro tenta apenas arregimentar o que lhe resta de apoio social, que, se existir de fato, certamente se resume àquela turma que pedia um golpe militar nas manifestações direitistas da época do impeachment fraudulento de Dilma Rousseff, mas que, até mesmo entre os coxinhas de então não era, nem de perto, a maioria.

Esta turma mais maluca ainda do que Bolsonaro, pelo visto, é tudo o que resta a este desesperado bobo-da-corte que um dia foi artificialmente alçado à Presidência da República por uma burguesia totalmente sem opção e que, frente à crescente demanda popular por Lula na presidência, teve de valer-se do que dispunha na hora para não perder de vez todo o seu esforço golpista, vendo o ex-presidente chegar perto demais de reconquistar o mandato presidencial.

Sem apoio da burguesia nem da classe média conservadora, o nosso proto-Mussolini brasileiro não verá em sua “Marcha sobre Roma” nenhuma oportunidade de qualquer auto-golpe.

Ao contrário, verá no máximo o golpe de misericórdia em seu melancólico governo, a ser sacramentado ou no próximo dia 30 de maio ou no 14 de junho, ou ainda, em outro evento próximo, mas pelas mãos do povo, as únicas que democraticamente têm todo o direito de empurrar este governo para longe da realidade brasileira, ao mesmo tempo em que chamam, desde já, as mais que necessárias eleições gerais, com Lula como seu candidato natural à Presidência da República.

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