A derrota do Partido Republicano nas eleições legislativas norte-americanas de terça-feira (3) deu novo impulso às articulações para substituir a liderança de Donald Trump na direita dos Estados Unidos. Com os democratas conquistando o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, dirigentes republicanos, grandes capitalistas e a imprensa capitalista passaram a discutir quem deverá representar o partido nas eleições presidenciais de 2028. Entre os nomes apresentados estão Marco Rubio e Ron DeSantis, dois políticos tradicionais que já disputaram contra Trump a indicação republicana.
A movimentação está relacionada às contradições entre o movimento trumpista e os setores mais poderosos da burguesia imperialista norte-americana, que procuram recuperar o controle sobre a direita após uma década de crise dos partidos tradicionais.
Os republicanos perderam pelo menos sete cadeiras no Senado e dezenas de distritos na Câmara. A derrota colocou fim ao controle simultâneo da Presidência e das duas casas do Congresso. O resultado foi associado ao desgaste provocado pela guerra contra o Irã, pelo aumento do custo de vida e pela política econômica de Trump.
A imprensa norte-americana começou imediatamente a tratar da sucessão presidencial. Na sexta-feira (6), o The Washington Post informou que DeSantis estaria preparando uma nova candidatura à Casa Branca. Pessoas próximas ao governador da Flórida relataram contatos com consultores políticos e movimentações para arrecadar recursos. DeSantis negou ter procurado alguém para organizar uma campanha.
O governador aproveitou a derrota republicana para apresentar a Flórida como uma exceção ao desastre eleitoral. Declarou que os resultados nacionais representaram algo próximo de um acontecimento capaz de levar o Partido Republicano à extinção.
Marco Rubio, atual secretário de Estado, também voltou a ser mencionado como possível candidato. Embora não tenha anunciado a intenção de disputar a Presidência, sua posição no governo e suas relações com grandes financiadores republicanos o colocam entre os nomes discutidos.
Os candidatos tradicionais da burguesia
Rubio não surgiu do trumpismo. Senador pela Flórida durante mais de uma década, estabeleceu sua carreira como representante da direita tradicional norte-americana, especialmente dos setores favoráveis a uma política externa agressiva contra Cuba, Venezuela e outros países considerados adversários dos Estados Unidos.
Em 2016, disputou as eleições primárias republicanas contra Trump, tornando-se um de seus principais adversários dentro do partido. Posteriormente, aproximou-se do presidente e, em seu segundo mandato, assumiu a Secretaria de Estado.
Sua incorporação ao governo representou a aproximação entre Trump e setores tradicionais do aparato imperialista. O interesse dos grandes capitalistas por sua candidatura não é novidade. Em julho, o bilionário Ken Griffin, fundador do fundo de investimentos Citadel e um dos maiores financiadores republicanos, declarou que preferia apoiar Rubio a J. D. Vance numa eventual disputa presidencial em 2028.
Griffin destinou mais de US$100 milhões às eleições de 2024 e apoiou candidatos que procuravam impedir a indicação de Trump. Sua preferência por Rubio mostra que existe uma parcela importante do grande capital procurando uma alternativa à continuidade da liderança política trumpista.
DeSantis representa outra possibilidade. Governador da Flórida desde 2019, procurou conquistar a indicação republicana em 2024, quando recebeu apoio de importantes financiadores contrários à candidatura de Trump. Sua campanha fracassou e ele acabou retirando-se da disputa.
Embora tenha incorporado diversas posições políticas do trumpismo, DeSantis possui uma trajetória ligada ao aparelho tradicional do Partido Republicano. Sua candidatura foi apresentada, em 2024, como uma maneira de preservar o eleitorado conservador sem depender da liderança pessoal de Trump.
A mesma possibilidade volta a ser discutida depois da derrota eleitoral de novembro.
O problema da burguesia não é a política de direita
Trump chegou à liderança republicana apoiando-se numa revolta social que escapava parcialmente ao controle dos dirigentes tradicionais do partido. Seu movimento reuniu setores da pequena burguesia, trabalhadores descontentes com os governos anteriores e uma população profundamente hostil às instituições políticas norte-americanas.
Essa base permitiu que Trump enfrentasse dirigentes do próprio Partido Republicano, derrotasse candidatos apoiados pelos grandes capitalistas e conquistasse duas vezes a Presidência.
A burguesia conseguiu estabelecer numerosos acordos com seu governo. Entretanto, a influência direta de Trump sobre seus seguidores e a instabilidade provocada por seus conflitos com as instituições continuam sendo um problema para os setores que desejam uma administração mais previsível do Estado imperialista.
A operação mais conveniente seria preservar os milhões de eleitores conquistados pelo trumpismo, mas entregar sua direção a políticos que mantenham relações mais estáveis com os grandes grupos financeiros e com o aparelho político tradicional.
É nesse sentido que a possível candidatura de Rubio ou DeSantis adquire importância.
Ainda existe, contudo, uma disputa dentro do próprio campo trumpista. O vice-presidente J. D. Vance procura apresentar-se como herdeiro político de Trump. Depois das eleições, atribuiu a derrota republicana à guerra contra o Irã, procurando estabelecer uma diferenciação em relação à política conduzida pelo presidente.
A mesma operação contra o bolsonarismo
O processo possui semelhanças com o que ocorre no Brasil.
A derrota de Flávio Bolsonaro para Lula, em 25 de outubro, foi imediatamente utilizada por setores da imprensa e da burguesia para defender a necessidade de renovar as lideranças da direita.
Entretanto, o bolsonarismo não desapareceu. Flávio recebeu quase 60 milhões de votos, e o PL elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados, além de ampliar sua presença no Senado e nos governos estaduais.
A família Bolsonaro permanece como uma referência política para uma parcela expressiva da população. Sua influência não depende exclusivamente dos cargos ocupados por seus integrantes ou da direção formal dos partidos.
Essa característica torna mais difícil para a burguesia controlar integralmente o movimento.
A tentativa de afastar a família Bolsonaro e substituí-la por políticos tradicionais procura justamente resolver essa contradição. O objetivo seria conservar os votos da direita, mas subordiná-los a dirigentes capazes de negociar mais facilmente com os grandes capitalistas e as instituições do regime.





