Análise Política da Semana

Rui Pimenta analisa pressão dos banqueiros e crise do governo Lula

Programa de sábado (7) colocou o ajuste fiscal no centro do debate político, após uma semana de pressões dos capitalistas e novas concessões anunciadas pelo governo

Na Análise Política da Semana de sábado (7), ocorrida duas semanas depois da eleição, o presidente do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, voltou a questionar a tese de que milhões de pessoas foram espontaneamente às ruas contra Flávio Bolsonaro. Como exemplo, citou os atos convocados pela União Nacional dos Estudantes (UNE) para celebrar a vitória. Em São Paulo, afirmou, a concentração reuniu apenas algumas dezenas de pessoas.

“Isso daí está indicando que a tal mobilização não era real”, disse. Ele distinguiu os comícios eleitorais, organizados com dinheiro e aparato de campanha, de uma mobilização que permanece ativa após a votação. Ainda recordou a dificuldade do PT e da CUT para organizar grandes atos de Primeiro de Maio durante os governos Lula.

O dirigente citou o comício da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, que teria contado com centenas de ônibus, e questionou a alegação de que o “exército” digital de André Janones reunia 10 milhões de militantes, contrapondo-a ao público de uma transmissão posterior de Lula.

“Transformar isso num ato espontâneo é uma falsificação total”, afirmou. Ele lembrou que os bolsonaristas também fizeram grandes comícios, o que, segundo ele, não comprova uma mobilização revolucionária de nenhum dos lados. Pimenta atribuiu a vitória à intervenção de setores da burguesia e dos grandes meios de comunicação:

“Ele só ganhou porque ele ganhou com apoio do grande capital”.

A conta apresentada pelos banqueiros

Segundo Pimenta, um governo nascido de uma onda popular enfrentaria imediatamente cobranças das ruas. Em vez disso, o Planalto discute restrições orçamentárias e procura apresentá-las sem provocar desgaste.

“Você não ganha a eleição com uma grande mobilização popular e no dia seguinte você começa a falar em tirar dinheiro dos pobres. É impossível”, afirmou, rejeitando a tese da “revolução democrática” divulgada por setores da esquerda.

Pimenta apontou propostas de alteração das regras fiscais que poderão atingir verbas de saúde e educação. Criticou também o imposto sobre consumo e o chamado imposto seletivo. Explicou que um mesmo tributo embutido nos preços representa parcela muito maior do salário de um trabalhador do que da renda de um capitalista.

“É um governo fraco, não é um governo que tem amplo apoio popular”, declarou. Para ele, os bancos pressionam por cortes rápidos e Lula procura uma maneira menos impopular de apresentá-los. Também apontou a PEC da Segurança Pública como exemplo das prioridades do PT após a eleição.

Derrota de Trump e crise da direita norte-americana

Nos Estados Unidos, Pimenta atribuiu a derrota republicana sobretudo à guerra contra o Irã. Para ele, reduzi-la à alta dos combustíveis seria ignorar o peso político de uma intervenção militar comandada por um presidente eleito com a promessa de encerrar guerras.

“Ele foi derrotado porque ele traiu o programa com o qual ele foi eleito, uma espécie de estelionato eleitoral”, afirmou. A adesão à política imperialista teria rompido sua ligação com parte do eleitorado.

Apontou Marco Rubio, secretário de Estado, como representante da velha guarda republicana dentro do governo. A nomeação seria um compromisso com os setores tradicionais do imperialismo. Comparou a trajetória de Trump à de Lula, que faz promessas populares e depois estabeleceu acordos com os capitalistas.

Pimenta criticou ainda a classificação de todo movimento de direita como fascista, lembrando acusações feitas contra Silvio Berlusconi na Itália. Definiu: “o fascismo é uma tropa de choque da burguesia para erradicar as organizações operárias”.

O conceito, explicou, exige a existência de organizações de combate voltadas a destruir sindicatos e partidos operários, como ocorreu na Itália e na Alemanha. Pimenta admitiu tendências fascistas na extrema direita, mas rejeitou esse enquadramento automático do trumpismo e do bolsonarismo.

Censura defendida pela direita e pela esquerda

Na abertura do programa, Pimenta comentou a denúncia de prisão de uma operária em Santa Catarina após uma discussão sobre o uso do banheiro feminino. Ele criticou a equiparação da transfobia ao racismo pelo STF e questionou as punições penais para manifestações verbais.

Pimenta também denunciou o PL 4.894/2023, apresentado por deputados do PL para classificar Hamas, Hesbolá e outras organizações como terroristas. O presidente do PCO criticou especialmente a previsão de punições por manifestações de apoio: “Quer dizer, é uma lei de censura brutal, brutal”. Ele viu nessa proposta a contradição da direita que se apresenta como defensora da liberdade de expressão.

Criticou ainda uma iniciativa atribuída ao deputado eleito Jones Manoel para enquadrar o sionismo como racismo. Na avaliação de Pimenta, recorrer a esse tipo de lei reforça os instrumentos penais que também podem ser usados contra os defensores da Palestina, sobretudo quando grupos mais poderosos controlam sua aplicação.

Crises internacionais e perseguição judicial

Na política internacional, Pimenta relacionou uma crise bancária no Paraguai, que apontou como causa da queda do presidente, ao caso brasileiro do Banco Master. Chamou atenção para as perdas de aposentados e investidores expostos às operações dos bancos.

Também relatou uma intervenção do governo polonês na Suprema Corte e a denúncia de um centro clandestino de detenção na região de Kiev, atribuído ao Batalhão Azov. Utilizou esses episódios, apresentados como denúncias no programa, para criticar a ideia de que os adversários do bolsonarismo seriam necessariamente democráticos.

No Brasil, Pimenta voltou a criticar Alexandre de Moraes, mencionando denúncias de contatos do ministro com Daniel Vorcaro e os contratos do escritório de sua esposa. A defesa das garantias de Flávio Bolsonaro, disse, atraiu a atenção de pessoas de direita, que passaram a elogiar posições do PCO sem aderir a seu programa comunista.

O que significa ser um partido revolucionário

Na parte final, Pimenta distinguiu o trotskismo da burocracia stalinista e explicou o conceito de ditadura do proletariado a partir da Revolução Francesa e dos jacobinos.

“A ditadura foi um resultado da ação violenta da contrarrevolução”, afirmou sobre as medidas de emergência contra a invasão estrangeira e os monarquistas. Segundo ele, a ditadura do proletariado expressa o domínio de classe baseado na expropriação dos grandes capitalistas, não a supressão permanente das liberdades políticas.

O dirigente rejeitou a ideia de que um partido revolucionário deva organizar imediatamente uma insurreição. Defendeu a preparação política dos trabalhadores:

“As manifestações de rua, as greves, tudo isso daí tem que ser um instrumento de luta pelo programa revolucionário”.

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