Estados Unidos

O caso Obama: como os democratas são os piores demônios dos EUA

Joseph Massad denuncia o histórico de guerras, deportações e apoio ao sionismo do ex-presidente, agora celebrado pela esquerda

A esquerda brasileira está comemorando a vitória dos democratas nas eleições legislativas e bajulando o ex-presidente Barack Obama, que percorreu o país para pedir votos aos candidatos de seu partido. Apresentado como uma alternativa democrática e humanitária a Donald Trump, Obama tem um histórico de crimes que não fica atrás do atual presidente.

Em artigo publicado no jornal britânico Middle East Eye, em 29 de outubro, o professor Joseph Massad, da Universidade de Columbia, expõe quem é o ex-presidente que os “progressistas” alinhados ao Partido Democrata tanto celebram. O acadêmico relembra as guerras, os massacres, as deportações em massa, o apoio às ditaduras e o financiamento do Estado sionista promovidos durante os oito anos de governo de Obama. O artigo, traduzido integralmente a seguir, demonstra o verdadeiro caráter do político que a esquerda liberal apresenta como um exemplo de humanidade.

Artigo originalmente publicado em inglês no Middle East Eye sob o título ‘US midterms: Progressives rally behind war criminal Obama’s attacks on Trump’.

Eleições nos EUA: progressistas apoiam ataques do criminoso de guerra Obama a Trump

Por Joseph Massad

O ex-presidente norte-americano Barack Obama está percorrendo o país para apoiar os candidatos do Partido Democrata. Em discursos em Ohio e Michigan, condenou o governo Trump por políticas não muito diferentes daquelas que ele próprio adotou quando estava no poder.

Uma pesquisa Harvard Youth Poll publicada na semana passada revelou que dois terços dos jovens eleitores registrados desaprovam a atuação do Partido Democrata no Congresso, enquanto quase dois terços dos jovens democratas querem o fim da ajuda militar norte-americana a “Israel”. Apesar disso, os democratas e os chamados progressistas estão recorrendo a Obama para conquistar apoio a seus candidatos, apesar de seu histórico deplorável.

Obama, o “deportador-chefe”, que deportou cruelmente mais de três milhões de imigrantes, agora tem a audácia de denunciar Trump como um agente do “caos e da crueldade, da corrupção e da incompetência”.

Seu governo também prendeu milhares de mães e crianças que solicitavam asilo. Em 2014, retomou a detenção em massa de famílias, ampliando a capacidade dos centros de detenção de menos de 100 vagas para cerca de 3.700 em 2015. Defendeu a prisão dessas famílias como forma de desencorajar a entrada de outros imigrantes, até que um juiz federal impediu essa política.

Não é que Trump não seja cruel; é que Obama é cruel sem nenhuma piedade.

O fato de liberais e progressistas norte-americanos ainda apoiarem esse mesmo Obama como um símbolo de esperança contra os ataques que Trump continua promovendo revela, mais uma vez, a falência moral e política da esquerda liberal dos Estados Unidos.

Crueldade e caos

É uma verdadeira ironia que os chamados progressistas apoiem os ataques do criminoso de guerra Obama a Trump. Obama acredita ter autoridade moral para condenar a guerra de Trump contra o Irã, que provocou a morte de norte-americanos.

As guerras de Obama no Afeganistão e no Iraque custaram a vida de mais de 100 mil afegãos e iraquianos durante seus dois mandatos, além de 2.500 norte-americanos. Ainda assim, ele condena Trump pela morte de 21 soldados norte-americanos na guerra contra o Irã.

Trata-se do mesmo Obama que, como presidente, mantinha uma lista semanal de pessoas a serem assassinadas e cujos ataques com VANTs mataram Abdulrahman al-Awlaki, cidadão norte-americano de 16 anos, no Iêmen, em 2011.

O que foi absurdo, disparatado e ridículo foi Obama ter aceitado o Prêmio Nobel da Paz em 2009 por suas guerras contra paquistaneses, afegãos e iraquianos.

Ele bombardeou festas de casamento no Iêmen e no Afeganistão, um funeral no Paquistão e um hospital em Kunduz, além de outros locais civis, matando centenas de pessoas. Em 2015, Obama também autorizou o fornecimento de apoio logístico e de informações de inteligência, incluindo o reabastecimento de aviões em voo, à guerra liderada pela Arábia Saudita contra o Iêmen.

Quanto ao “caos” que agora condena, Obama lançou a intervenção militar de 2011 na Líbia, que mergulhou o país em anos de guerra e desintegração política.

O descarado Obama agora se põe a dar lições sobre como a atuação de Trump na Presidência seria marcada por “palhaçadas e disparates”.

O que foi absurdo, disparatado e absolutamente ridículo foi Obama ter aceitado o Prêmio Nobel da Paz em 2009 por suas guerras contra paquistaneses, afegãos e iraquianos, seu apoio à derrubada da democracia em Honduras, sua colaboração com ditaduras em todo o mundo árabe e muçulmano, suas ameaças de uma possível invasão do Irã e seu apoio entusiasmado à colônia racista de colonos israelenses.

O fato de Trump acreditar que também merece o prêmio não é nem um pouco hipócrita. Hipócrita é o comitê do Prêmio Nobel, que se recusa a concedê-lo a ele.

Dando lições aos árabes

Em seu infame discurso na Universidade do Cairo, em 2009, Obama dirigiu-se a todo o mundo muçulmano como o presidente que já havia garantido a impunidade do governo Bush por seus crimes e que, posteriormente, ampliaria a “guerra ao terror” e jamais fecharia a prisão de Guantánamo.

Ele não mencionou as centenas de milhares de pessoas — mais de um milhão, segundo algumas estimativas — que já haviam sido mortas pelas guerras norte-americanas, do Iraque ao Afeganistão.

Não manifestou pesar pelas dezenas de milhares de civis árabes, incluindo egípcios, mortos ao longo das seis décadas anteriores de guerras e massacres israelenses contra eles. Tampouco demonstrou solidariedade aos milhões de árabes transformados em refugiados pelos bombardeios bárbaros de “Israel”, incluindo um milhão de egípcios durante a Guerra de Desgaste.

Obama condenou os palestinos por se recusarem a reconhecer o direito de “Israel” de ser um Estado “judeu” racista e dirigiu ordens racistas aos árabes e muçulmanos.

Seu compromisso com um “Israel” racista superava o de seu vice-presidente, Joe Biden. Procurou ensinar aos árabes a história dos judeus europeus e ordenou que reconhecessem a importância do Holocausto cometido por cristãos europeus contra judeus europeus, e não da Nakba que continua sendo perpetrada por colonos judeus europeus contra os árabes.

Obama acusou imoralmente o povo árabe de negar o Holocausto por questionar o colonialismo de povoamento dos judeus europeus na Palestina:

“Seis milhões de judeus foram mortos — mais do que toda a população judaica de Israel atualmente. Negar esse fato não tem fundamento, é ignorância e é odioso. Ameaçar Israel de destruição — ou repetir estereótipos repugnantes sobre os judeus — é profundamente errado e só serve para despertar na memória dos israelenses essa lembrança extremamente dolorosa, ao mesmo tempo que impede a paz que os povos dessa região merecem.”

Ele ainda lembrou ao público no Cairo que o vínculo dos Estados Unidos com “Israel” é “inquebrantável”. Em vez de exigir que “Israel” cessasse sua violência indiscriminada, o ultrassionista Obama insistiu que “os palestinos devem abandonar a violência. A resistência por meio da violência e dos assassinatos é errada e não funciona”.

Proibiu os palestinos e os demais árabes de tentar destruir as bases racistas sobre as quais se assenta o domínio de “Israel”. Advertiu os povos árabes de que qualquer tentativa de destruir os fundamentos racistas do Estado israelense seria considerada equivalente a um “Holocausto”.

Um ano depois, da tribuna das Nações Unidas, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos chegou ao ponto de exigir que os palestinos, assim como os países árabes e muçulmanos, reconhecessem o direito de “Israel” de ser um Estado judeu racista. Insistiu que “a existência de Israel não deve ser objeto de debate. Israel é um Estado soberano e a pátria histórica do povo judeu”.

Presentes para “Israel”

Em fevereiro de 2011, Obama utilizou o único veto de seu primeiro mandato no Conselho de Segurança da ONU para derrubar uma resolução que condenava os assentamentos israelenses e que havia recebido o apoio dos outros 14 membros.

Obama também ameaçou vetar o pedido de admissão da Palestina como membro da ONU em 2011 e suspendeu o financiamento norte-americano à Unesco quando a organização admitiu a Palestina como membro.

Em meio à guerra de “Israel” contra Gaza em 2014, que matou 2.251 palestinos, seu Pentágono reabasteceu o Exército israelense com munições de morteiro, granadas e mísseis Hellfire.

Foram os anos de apoio incondicional de Obama, culminando em seu presente de despedida a “Israel”, no valor de US$38 bilhões em ajuda norte-americana ao longo de dez exercícios fiscais, de 2019 a 2028 — o maior pacote de ajuda militar dos Estados Unidos a “Israel” até então —, que ajudaram o país a perpetrar o genocídio que continua cometendo em Gaza desde 2023.

Ainda assim, Abdulrahman “Abdul” El-Sayed, candidato do Partido Democrata ao Senado por Michigan, que afirma se opor ao genocídio israelense em curso e ao que chama de “socialismo corporativo” norte-americano, abraçou entusiasticamente Obama, que armou e financiou o genocídio israelense e o tornou possível com sua retórica sionista.

Durante seu mandato, Obama também realizou o exemplo mais flagrante de “socialismo corporativo”: o resgate do corrupto sistema bancário norte-americano com meio trilhão de dólares dos contribuintes.

Um mês antes, El-Sayed havia feito campanha por Detroit ao lado de Kamala Harris, candidata derrotada à Presidência, que, como vice-presidente, continuou apoiando sem reservas o genocídio de “Israel” em Gaza e seu projeto expansionista.

Nada disso é novidade. Já vimos essa atuação vergonhosa quando Obama e os liberais e “esquerdistas” norte-americanos fizeram campanha por aqueles outros criminosos de guerra, Hillary Clinton, em 2016, e Joe Biden, em 2020, apresentando-os como o “mal menor”.

Nenhum crime cometido por presidentes democratas, por mais horrendo que fosse, jamais impediria os liberais norte-americanos de apoiá-los.

Quando se preparava para assumir a Presidência, Obama exortou os norte-americanos a “olhar para a frente, em vez de olhar para trás”, ao se recusar a processar os funcionários do governo Bush responsáveis pela tortura.

Hoje, os democratas recorrem, em vez disso, a seus antigos dirigentes para preservar as políticas que os jovens eleitores querem que abandonem.

O fato de esses mesmos liberais quererem que apoiemos os candidatos desse mesmo partido demonstra o caráter impenitente do programa político liberal nos Estados Unidos. Ao procurar manter seu controle sobre o partido, eles podem estar assegurando sua desintegração, o que deveria ser bem recebido por todos os norte-americanos.

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