O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu vice, JD Vance, reconheceram nesta quarta-feira (4) que a guerra contra o Irã foi decisiva para a derrota do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato, realizadas na terça-feira (3). Os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado. O resultado expôs a rejeição dos norte-americanos à agressão imperialista e ao apoio incondicional do governo a “Israel”.
Em publicação na rede social X, Vance afirmou que a guerra foi a principal responsável pela derrota. O vice-presidente revelou que pesquisas realizadas entre eleitores que haviam apoiado Trump em 2024 identificaram quatro reivindicações fundamentais: encerrar a guerra, combater o aumento do custo de vida, colocar os Estados Unidos em primeiro lugar e modificar as relações com “Israel”.
“Nossos eleitores compareceram às urnas. E as quatro razões acima explicam por que muitos deles votaram nos democratas”, escreveu.
Segundo Vance, os republicanos não perderam porque seus eleitores deixaram de votar, mas porque uma parcela importante deles passou a apoiar a oposição. “A razão de termos perdido é a guerra. O próprio presidente disse isso ontem à noite”, concluiu.
Trump também reconheceu o efeito da agressão militar. Em entrevista ao jornal The Wall Street Journal, declarou: “acho que parte disso foi o Irã. O Irã foi um dos fatores”. Apesar da derrota, afirmou que não se arrependia de ter iniciado o conflito. “Fiz a coisa certa. Faria tudo de novo”, disse.
Irã frustrou os planos imperialistas
A guerra começou no final de fevereiro, quando os Estados Unidos e “Israel” atacaram o território iraniano. Segundo o portal Middle East Eye, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netaniahu, teria apresentado a Trump informações do Mossad segundo as quais os bombardeios provocariam uma revolta popular e derrubariam o governo de Teerã.
O cálculo fracassou. Apesar do assassinato de importantes dirigentes, incluindo o então líder supremo Ali Khamenei, o governo iraniano permaneceu de pé. Suas Forças Armadas responderam à agressão e assumiram o controle do Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o comércio mundial de petróleo.
A reação iraniana provocou uma disparada dos preços internacionais do petróleo, atingindo diretamente a economia norte-americana. O encarecimento dos combustíveis e de outras mercadorias ampliou a insatisfação popular com o governo Trump.
A República Islâmica demonstrou que poderia enfrentar militarmente a maior potência imperialista do planeta e impor prejuízos aos agressores. Em vez da vitória rápida pretendida por Washington, a guerra provocou uma crise econômica e política dentro dos próprios Estados Unidos.
A disposição do Irã de resistir aos bombardeios, mesmo após o assassinato de seus principais dirigentes, foi fundamental para esse resultado. Ao contrário do que esperavam os imperialistas, Teerã não capitulou diante da superioridade militar norte-americana.
Guerra atingiu os trabalhadores norte-americanos
Uma pesquisa Reuters/Ipsos concluída na segunda-feira (2) mostrou que a aprovação de Trump havia caído para 32%, próxima do menor índice de sua carreira política.
O custo de vida foi uma das principais preocupações dos eleitores. Aproximadamente 78% consideraram o aumento dos preços muito importante ou determinante para seu voto. Perguntados sobre qual partido estava mais preparado para enfrentar o problema, 43% escolheram os democratas e 32%, os republicanos.
A elevação dos preços dos combustíveis, provocada pela guerra, contribuiu para o desgaste do governo. Trump havia prometido durante a campanha presidencial de 2024 que não envolveria os Estados Unidos em novas guerras. Dois anos depois, parte de seus próprios eleitores votou contra o Partido Republicano.
As declarações de Vance revelaram que a insatisfação também atingiu diretamente a relação com “Israel”. A exigência de modificar essa política apareceu entre os quatro principais motivos apresentados pelos eleitores que abandonaram os republicanos.
Imperialismo sacrificou Trump por “Israel”
A participação norte-americana na agressão ao Irã não pode ser explicada simplesmente pela influência pessoal de Netaniahu sobre Trump. Tampouco significa que “Israel” comande os Estados Unidos.
O Estado sionista é uma criação do imperialismo e funciona como uma de suas principais bases militares e políticas no Oriente Médio. Sua importância estratégica para a dominação da região explica o apoio recebido dos setores fundamentais da burguesia norte-americana, especialmente do complexo militar-industrial.
O lóbi sionista atua como expressão desses interesses dentro dos Estados Unidos. Não se trata de uma pequena potência estrangeira impondo sua vontade sobre Washington, mas da própria burguesia imperialista defendendo um instrumento fundamental de sua política externa.
Trump aceitou participar da guerra para atender a esses interesses, mesmo contrariando suas promessas eleitorais e arriscando perder sua sustentação popular. O resultado mostrou que a política do imperialismo prevaleceu sobre as necessidades eleitorais do presidente.
Irã comemora derrota dos agressores
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, comemorou o resultado das eleições norte-americanas.
“Por consciência ou pelo custo de vida, os norte-americanos disseram NÃO À GUERRA, e nós endossamos esta mensagem. Se o governo dos EUA trair a vontade pública para servir a credores internacionais e chantagistas, ele aprenderá que nosso NÃO vem acompanhado de um pesadelo”, escreveu nesta quarta-feira (4).
A derrota republicana não significa que os democratas sejam adversários do imperialismo. O partido também defende a dominação norte-americana sobre o Oriente Médio e possui um longo histórico de apoio às agressões contra os povos da região.
O resultado eleitoral, porém, demonstrou as consequências da resistência iraniana. Ao enfrentar a agressão, preservar seu governo e atingir interesses econômicos fundamentais dos Estados Unidos, o Irã contribuiu para provocar uma crise dentro do próprio imperialismo. A coragem de sua resistência obrigou os agressores a pagar um preço que, agora, os próprios dirigentes republicanos reconhecem como decisivo para sua derrota.



