O Partido Republicano sofreu uma derrota histórica nas eleições de meio de mandato realizadas nos Estados Unidos nesta terça-feira (3). Os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, além de vencerem disputas em estados tradicionalmente republicanos. O resultado representou um duro golpe para o governo de Donald Trump, que perdeu o controle do Congresso dois anos depois de sua vitória presidencial.
Segundo as projeções eleitorais, os democratas conquistaram aproximadamente 258 das 435 cadeiras da Câmara, onde são necessários 218 deputados para obter a maioria. No Senado, o partido ganhou sete cadeiras, chegando a 54 dos 100 senadores.
A dimensão da derrota ficou ainda mais evidente nos estados. Na Carolina do Sul, a democrata Annie Andrews derrotou Darline Graham, irmã do falecido senador Lindsey Graham. Segundo projeção da NBC News, foi a primeira vitória democrata para o Senado no estado desde 1998.
O resultado representou uma mudança extraordinária em relação a 2024, quando Trump venceu a eleição presidencial na Carolina do Sul por uma diferença de 34 pontos percentuais. A vitória de Andrews indicou uma virada superior a 30 pontos em relação à vantagem republicana registrada naquela ocasião.
No Texas, o governador Greg Abbott também foi derrotado. A democrata Gina Hinojosa venceu a disputa e tornou-se a primeira integrante de seu partido a governar o estado desde 1995, encerrando mais de três décadas de domínio republicano sobre o Executivo texano.
A derrota, portanto, foi tanto quantitativa quanto qualitativa. Os republicanos perderam as duas casas do Congresso e sofreram derrotas até mesmo em estados onde possuíam uma superioridade eleitoral aparentemente consolidada. O resultado revelou o alcance da insatisfação com o governo Trump.
A traição às promessas eleitorais
A derrota confirmou um problema que o Diário Causa Operária já havia apontado: Trump chegou à Presidência prometendo abalar a política tradicional do imperialismo norte-americano, mas capitulou diante das pressões do capital financeiro e do complexo militar-industrial.
Durante a campanha de 2024, o republicano explorou a insatisfação popular com a situação econômica e com as guerras promovidas pelos Estados Unidos. Prometeu encerrar as intervenções militares, recuperar a indústria nacional, trazer de volta os empregos transferidos para outros países e reduzir o custo de vida.
Essas promessas foram fundamentais para conquistar trabalhadores atingidos pelo fechamento de fábricas, pela perda de empregos industriais e pelo aumento dos preços. Trump também atraiu eleitores contrários ao envolvimento norte-americano em guerras no exterior.
Seu discurso apresentava o Estado Profundo como responsável pelos problemas do país. A promessa de colocar os Estados Unidos em primeiro lugar significava, para muitos de seus apoiadores, abandonar as aventuras militares imperialistas e utilizar os recursos nacionais para recuperar a economia.
Uma vez no governo, entretanto, Trump abandonou os compromissos que haviam garantido sua vitória.
Na política externa, a promessa de encerrar as guerras deu lugar à continuidade das intervenções imperialistas. O conflito contra o Irã mostrou que o presidente não havia rompido com os interesses do aparato militar norte-americano, que depende das guerras e da dominação dos Estados Unidos sobre outros países.
Na economia, a recuperação da indústria e dos empregos esbarrou nos interesses dos grandes capitalistas. Foram os próprios monopólios norte-americanos que transferiram sua produção para países onde a mão de obra é mais barata, procurando aumentar seus lucros. Reverter esse processo exigiria enfrentar esses interesses, o que Trump não fez.
O governo também não entregou a melhora nas condições de vida prometida aos trabalhadores. A insatisfação com o custo de vida continuou atingindo a população, enquanto a política econômica permaneceu subordinada aos interesses dos grandes capitalistas.
Os eleitores que haviam votado em Trump esperando o fim das guerras, a recuperação dos empregos e uma melhora econômica encontraram um governo que deu continuidade à política que prometera combater.
Um voto de protesto
A vitória democrata não significa que a população norte-americana tenha passado a apoiar o programa do partido. O resultado expressou, sobretudo, a rejeição à política aplicada pelos republicanos.
Os democratas também são responsáveis pela política imperialista norte-americana. Durante o governo de Joe Biden, mantiveram as intervenções militares e a política de favorecimento dos grandes monopólios. Foi justamente o desgaste desse governo que permitiu a vitória de Trump em 2024.
Dois anos depois, a insatisfação voltou-se contra os republicanos. Uma parcela dos eleitores que haviam depositado suas expectativas em Trump deixou de apoiar seu partido, seja votando nos democratas, seja se abstendo. Os resultados eleitorais indicaram uma ampla rejeição ao governo, embora a distribuição entre transferência de votos e abstenção dependa de dados mais detalhados.
As derrotas na Carolina do Sul e no Texas foram particularmente importantes porque demonstraram que o descontentamento atingiu até mesmo regiões onde os republicanos costumavam vencer com facilidade. A derrota de Darline Graham é muito simbólica: ela é irmã de Lindsey Graham, senador falecido em julho que era um dos falcões do Partido Republicano, defensor de uma linha dura imperialista contra Rússia, China e Irã. Parte dos eleitores associaram Darline à política imperialista de seu falecido irmão, rejeitando-a no pleito.
Os democratas acabaram recebendo um voto de protesto contra Trump, e não necessariamente um voto de confiança em sua própria política.
Trump perde o controle do Congresso
A conquista das duas casas também abriu a possibilidade de os democratas iniciarem um novo processo de impeachment contra Trump.
Com aproximadamente 258 deputados, o partido terá votos suficientes para aprovar uma acusação na Câmara. A destituição, entretanto, depende do Senado, onde são necessários os votos de dois terços dos senadores presentes. Caso todos os 100 participem, seriam necessários 67 votos, o que exigiria o apoio de pelo menos 13 republicanos.
Trump já enfrentou dois processos de impeachment, em 2019 e 2021, e foi absolvido pelo Senado em ambos. Uma nova ofensiva parlamentar poderá ampliar as dificuldades de seu governo, mesmo sem resultar em sua destituição.
A principal consequência das eleições, porém, foi demonstrar que Trump perdeu parte do apoio popular conquistado ao prometer uma mudança na política norte-americana.
Os republicanos sofreram uma derrota acachapante porque seu governo abandonou as reivindicações que haviam levado milhões de eleitores a apoiá-lo. Trump prometeu enfrentar os responsáveis pelas guerras e pela decadência econômica dos Estados Unidos, mas acabou governando em benefício desses mesmos interesses.
Os democratas foram os beneficiários imediatos dessa traição. Sua vitória, entretanto, não resolveu nenhum dos problemas que levaram Trump à Presidência. A derrota republicana mostrou que a população norte-americana continua insatisfeita com a política dos dois grandes partidos, que se alternam no governo sem atender às reivindicações fundamentais dos trabalhadores e administrando para a alta burguesia imperialista.


