Polêmica

A direita ‘civilizada’ foi incorporada ao governo Lula

Colunista denuncia a pressão dos banqueiros, mas defende a aliança do PT com os políticos que participaram do golpe de 2016

Impeachment

O sociólogo Marcelo Zero, assessor da liderança do PT no Senado, publicou nesta terça-feira (3), no Brasil 247, o artigo Não existe mais direita “civilizada” no Brasil. Segundo ele, os setores democráticos da direita teriam desaparecido após o golpe contra Dilma Rousseff, enquanto seus últimos representantes passaram a apoiar Lula. A conclusão serve para absolver a frente ampla de uma contradição evidente: os mesmos políticos que ajudaram a derrubar Dilma e sustentaram a ofensiva contra o PT foram incorporados ao governo em nome da defesa da democracia.

Zero começa admitindo que a burguesia promoveu o golpe de 2016, alimentou a Operação Lava Jato e abriu caminho para Bolsonaro. Mas separa uma suposta direita civilizada de outra, fascista, como se os responsáveis por privatizações, repressão e ataques aos trabalhadores fossem democratas até perderem o controle da política nacional. É uma maneira de reabilitar os inimigos da classe trabalhadora, desde que estejam ao lado do governo.

O que havia de civilizado no PSDB?

Quem seriam os representantes dessa direita extinta? Fernando Henrique Cardoso? Seu governo privatizou a Companhia Vale do Rio Doce em 1997, o sistema Telebrás em 1998 e o Banespa em 2000. Impôs uma política de abertura econômica e submissão ao capital financeiro, atacou os serviços públicos e enfrentou as organizações operárias. Esse é o PSDB de que Fernando Haddad declarou sentir saudade, conforme este Diário noticiou em julho. Foi o mesmo governo que mandou o Exército ocupar quatro refinarias durante a greve dos petroleiros de 1995.

O mesmo vale para Geraldo Alckmin, antigo dirigente tucano e governador de São Paulo, cuja polícia reprimiu mobilizações populares. O político que o PT enfrentou durante décadas tornou-se vice-presidente de Lula em 2023 e permaneceu na chapa da reeleição de 2026. Alckmin não deixou de representar interesses burgueses ao mudar de aliança. Foi a direção petista que decidiu trazê-lo para dentro do governo.

Golpistas viram democratas quando apoiam Lula

A afirmação mais reveladora de Zero diz que “os civilizados de verdade que sobraram acabaram aderindo ao campo liderado pelo PT”. O critério de civilização, portanto, não é o que esses personagens fizeram, mas o lado que passaram a apoiar.

Simone Tebet votou pelo afastamento de Dilma em maio de 2016, participou do processo de impeachment e, anos depois, foi escolhida ministra do Planejamento de Lula.

Alexandre de Moraes, nomeado ao STF por Michel Temer, votou em 4 de abril de 2018 contra o habeas corpus que poderia impedir a prisão de Lula. A decisão foi tomada por seis votos a cinco, permitindo a continuidade da perseguição judicial que afastou o petista das eleições daquele ano. Depois, o STF e Moraes passaram a ser tratados por setores da esquerda como guardiães da democracia.

Miguel Reale Júnior foi um dos autores do pedido de impeachment de Dilma. Em 2026, apareceu manifestando apoio a Lula. Teria se tornado “civilizado”? Como se vê, a frente ampla não reuniu apenas adversários ocasionais do bolsonarismo. Absorveu personagens diretamente envolvidos na ofensiva que Zero diz condenar.

Há ainda João Doria, que fez campanha pelo governo paulista com a marca BolsoDoria em 2018. Anos depois, setores da esquerda procuraram incluí-lo na frente contra Bolsonaro. Em 2021, seu governo tentou impedir manifestações da esquerda em São Paulo no 7 de Setembro, enquanto concedia a Avenida Paulista aos bolsonaristas. Foi contra esse governador que militantes do PCO e de outras organizações tiveram de garantir os atos no Anhangabaú.

A polarização que o articulista procura apagar

Zero afirma que não existe polarização no Brasil porque o campo de Lula não seria formado por uma extrema esquerda agressiva. É um argumento fabricado para justificar a conciliação de classes. A polarização política não depende dois grupos em extremos opostos. O conflito é entre classes e interesses sociais antagônicos, ainda que suas direções políticas tentem acomodá-los.

O próprio sociólogo reconhece que os governos Lula sempre buscaram conciliar forças diferentes e apresenta essa política como uma virtude. Mas é precisamente essa conciliação que subordina as reivindicações dos trabalhadores aos limites impostos pelos empresários, latifundiários e banqueiros. Não há governo capaz de servir simultaneamente aos trabalhadores e à burguesia, e os políticos escolhidos pelo governo demonstram muito claramente qual é o seu verdadeiro caráter.

Os banqueiros não estão apenas do lado de fora

Zero denuncia as oligarquias que pressionam Lula por cortes de despesas, juros elevados e restrições à circulação de capitais. O autor escreve como se esses interesses não tivessem representantes no próprio governo. E se esquece que é o Executivo de Lula que administra a política fiscal e apresenta concessões ao capital privado.

No dia 27 de outubro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou que pretende mudar as regras de contingenciamento para permitir bloqueios maiores no Orçamento de 2027. O centro da meta fiscal é um superávit primário de R$ 73,2 bilhões, enquanto o piso admitido é de R$ 36,6 bilhões. A proposta abre espaço para congelar mais despesas mesmo quando o governo estiver cumprindo a meta dentro da margem legal. Este Diário noticiou a medida em 30 de outubro.

Não é Flávio Bolsonaro quem está assinando essa proposta. Muito menos se trata de uma imposição feita a um governo que resiste aos banqueiros de fora para dentro. A equipe econômica de Lula já prepara instrumentos para aprofundar o ajuste fiscal. O mesmo governo discute maior participação privada nos Correios e mantém uma política que atende às exigências dos credores da dívida pública.

O povo só é chamado depois que os acordos estão feitos

No fim do artigo, Zero declara: “A mobilização popular terá de ser constante e intensa”. Mas quem consultou os trabalhadores para entregar a vice-presidência a Alckmin? Quem chamou a base petista a decidir sobre a entrada de Tebet no ministério ou sobre a manutenção de acordos com partidos envolvidos no golpe?

A mobilização popular defendida por Zero aparece apenas depois que as alianças são estabelecidas por cima. Os trabalhadores seriam convocados a defender o governo contra os banqueiros sem romper com os representantes desses mesmos banqueiros instalados no governo. É uma mobilização para proteger a coalizão, não para impor as reivindicações operárias.

A saída não está em procurar uma direita mais educada, nem em entregar à burguesia parte do governo para impedir que outra parte da burguesia vença as eleições. Está na organização independente da classe trabalhadora para enfrentar os capitalistas e seus representantes, dentro e fora da frente ampla. Enquanto essa política não mudar, os chamados democratas continuarão cobrando dos trabalhadores o preço de sua participação no governo.

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