No artigo Tinha um Brasil no meio do caminho, publicado no Brasil 247, Flávio Aguiar descreve a reeleição como vitória épica do povo contra a extrema direita. O Brasil teria despertado, multidões ocupado as ruas e uma maré popular conduzido Lula à vitória. Há heróis, arquétipos e santos. Falta o principal: os interesses materiais da disputa.
No primeiro turno, Flávio obteve 56,1 milhões de votos, contra 53,9 milhões de Lula. Três semanas depois, Lula chegou a 64,2 milhões e seu adversário, a 59,8 milhões. Os atos petistas não explicam sozinhos a virada de milhões de votos. Não se pode apresentar esse deslocamento como simples fruto dos comícios de uma militância derrotada semanas antes.
A explicação de Aguiar oculta o papel da burguesia. Lula teve a seu lado políticos conservadores, grandes meios de comunicação, empresários e dirigentes de partidos tradicionais. Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB, não era um detalhe. A campanha assegurou aos capitalistas a preservação dos compromissos com o mercado.
Foi a intervenção da burguesia que permitiu ao PT reverter a derrota. Bancos, emissoras, empresas e máquinas partidárias pesaram na disputa de uma maneira que as manifestações de rua não poderiam igualar. Setores dos donos do País preferiram conservar a frente ampla ao bolsonarismo.
O próprio governo participou da operação. Ao perceber o risco de derrota, Lula anunciou reajuste do Bolsa Família, renegociação de dívidas e benefícios para microempreendedores. As necessidades sociais foram convertidas em instrumentos de campanha. As reivindicações foram deixadas sem resposta e, na véspera da eleição, apresentá-las como favores pelos quais o trabalhador deveria agradecer com o voto.
E tudo isso em nome de qual programa? Da revogação do arcabouço fiscal? Da nacionalização dos bancos? Da luta contra os patrões? Nada disso. A pequena burguesia convocou o povo a votar contra o fascismo enquanto o PT mantinha sua colaboração com o grande capital. Terminada a eleição, empresários começaram a exigir controle dos gastos e garantias aos credores da dívida pública.
É repugnante que aqueles que desejavam castigar os pobres apareçam agora como intérpretes do seu heroísmo. O que mudou na vida dos trabalhadores? Os salários continuam baixos, a carestia e as dívidas permanecem. O que mudou foi o vencedor da eleição. Para essa classe média, basta para transformar um povo que merecia punição num povo que merece elogios.
A admiração é a outra face do desprezo. O trabalhador é bom quando obedece e ignorante quando contraria o senhor. Ontem, os pobres eram culpados por votarem em Flávio. Hoje, são homenageados porque Lula venceu. Amanhã, se fizerem greve contra o ajuste fiscal petista, poderão voltar a ser acusados de ajudar o fascismo.
A mistificação eleitoral encobre os beneficiários da vitória. Se o povo derrotou sozinho o bolsonarismo, os banqueiros desaparecem da fotografia. Mas não desapareceram do governo. A frente ampla continua sendo a frente ampla; Alckmin continua sendo Alckmin; os capitalistas continuam ditando exigências econômicas. Os patrões não se converteram à causa operária porque aceitaram a reeleição de Lula.
A pequena burguesia governista prefere culpar o povo quando perde e reivindicar a vitória quando ganha. Quer que os trabalhadores votem, aplaudam e voltem para casa. Quando não cumprem esse papel, tornam-se alvo de seu ódio.




