Flávio Bolsonaro divulgou na quarta-feira (28) uma carta em que acusa a Justiça de ter interferido na eleição presidencial. Publicou o texto, retirou-o pouco depois e apresentou uma nova versão. Não explicou a retirada. Embora tenha mudado a forma como se referia a si próprio, manteve a denúncia de que a vitória de Lula resultou de uma “impossibilidade matemática”.
Flávio atribui essa suposta impossibilidade à decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de permitir que seções ainda abertas às 17 horas continuassem a receber eleitores até as 19 horas. O senador lembra que Zanin foi advogado de Lula, questiona por que um integrante do STF decidiu sobre o horário de votação e afirma que a ordem chegou quando parte das urnas já havia sido encerrada. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) interrompeu a totalização e a divulgação dos resultados até o fim do período adicional.
O resultado oficial deu 64.256.232 votos a Lula e 59.826.041 a Flávio, diferença de 4.430.191. No primeiro turno, o senador havia ficado à frente. Entre uma votação e outra, Lula ganhou 10.376.694 votos; Flávio, 3.721.538. A diferença entre esses crescimentos alimentou as contas publicadas por apoiadores do candidato derrotado desde domingo (25).
Uma delas compara os mais de 10,3 milhões de votos acrescentados à votação de Lula com os cerca de 9,3 milhões recebidos, juntos, pelos candidatos eliminados no primeiro turno. Comparações semelhantes, feitas por seção eleitoral, apontam locais onde o aumento dos votos do petista foi maior que a votação anterior de todos os demais candidatos. Quem divulga esses números exige que se explique a mudança registrada entre os dois domingos.
Outro dado usado na contestação vem dos resultados por urna. Flávio não recebeu nenhum voto em 106 delas, nas quais Lula somou 14.860 votos. Uma urna em Tabatinga, no Amazonas, registrou 354 votos para o petista e zero para o senador. A divulgação desses números levou apoiadores de Flávio a pedir o exame dos boletins e das condições de votação nesses locais.
No X, a decisão de Zanin foi associada a suspeitas sobre os votos registrados depois das 17 horas. Publicações a chamaram de intervenção do STF em favor de Lula e questionaram a diferença de tratamento entre seções que já tinham encerrado os trabalhos e aquelas que permaneceram abertas. A crítica começou a circular antes mesmo da retomada da totalização nacional.
A campanha governista é alvo de outra acusação. Rogério Marinho, coordenador político de Flávio, chamou de “compra fiada de votos” o pacote anunciado por Lula para microempreendedores individuais na reta final da disputa. As medidas incluíam perdão de dívidas tributárias e a proposta de um pagamento de R$5 mil para MEIs. Flávio sustenta que houve abuso do poder político e uso da máquina pública para assegurar a reeleição.
Apoiadores do senador também passaram a compartilhar relatos de idosos levados por parentes para votar. Essas publicações aparecem junto aos questionamentos sobre o aumento do comparecimento: a abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,2% no segundo. Para os bolsonaristas que contestam a virada, a chegada de eleitores que não haviam comparecido em 4 de outubro integra o conjunto de números a ser investigado.
Flávio anunciou na noite da eleição que pediria sua anulação. Agora, dos Estados Unidos, reuniu as suspeitas sobre a votação às acusações contra o governo e prometeu apresentar uma estratégia de mobilização da oposição. A retirada de sua primeira publicação não retirou de circulação a cobrança que fez à Justiça Eleitoral.
Outro lado
O TSE foi procurado para prestar esclarecimentos específicos sobre os questionamentos reunidos nesta matéria, mas não respondeu até o fechamento. Em manifestação pública anterior, o presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, afirmou que a eleição transcorreu dentro da normalidade e que contestações apresentadas pelo devido processo legal serão examinadas. O tribunal informa que os boletins de urna e os registros dos equipamentos estão disponíveis para consulta.




