Entrevista

Pimenta: “PT está sentado no colo do STF” e Flávio é perseguido político

Ao Galo Preto, presidente do PCO analisou a virada eleitoral, defendeu o voto nulo e advertiu que a ofensiva contra Flávio fortalecerá o bolsonarismo

A reeleição de Lula dependeu do apoio da burguesia, e a conta chegará no próximo governo. Foi o que afirmou Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), em entrevista a Leandro Fortes no Canal do Galo Preto, na terça-feira (27). O dirigente também condenou a apreensão dos passaportes de Flávio Bolsonaro, determinada logo após a derrota do senador, e advertiu que a perseguição judicial pode fortalecer a direita.

Pimenta disse ter ficado surpreso com a virada. Lula recebeu 64.256.232 votos no segundo turno, mais de 10 milhões acima de sua votação no primeiro, e venceu por uma diferença de 4.430.191. Para Rui, os atos de campanha ajudaram a mobilizar os eleitores petistas, mas não explicam, sozinhos, tamanho crescimento. Ele apontou o apoio do monopólio da imprensa capitalista, da burguesia e das oligarquias regionais como fator decisivo.

“A conclusão que eu tiro é que a burguesia jogou todo o peso na candidatura do Lula no segundo turno, porque senão esse resultado seria inexplicável. […] A burguesia se unificou em torno da candidatura do Lula. Isso foi muito óbvio. Talvez com exceção de um setor do mercado financeiro especulativo. O restante, a Rede Globo, os principais órgãos de comunicação, tudo. Quer dizer, aquele setor da burguesia brasileira que conta, ele se unificou em torno da candidatura do Lula.”

Fortes perguntou por que os capitalistas prefeririam Lula a Flávio, cujo programa econômico atenderia diretamente a muitas de suas exigências. Rui respondeu que a disputa envolvia o controle do Estado. Com a Presidência, parlamentares e governadores eleitos por sua corrente, Flávio teria força para enfrentar setores que hoje comandam o regime político, especialmente no Supremo Tribunal Federal (STF). Lula, por sua vez, já governa mediante acordos com o Centrão e representantes do grande capital.

A análise não atribuiu a virada a uma fraude na apuração. Pimenta tratou da influência que empresários, meios de comunicação e dirigentes partidários exercem sobre o voto. Quando Fortes perguntou como esse apoio se traduziria em milhões de votos, Rui citou as redes de políticos municipais, seus cabos eleitorais e os recursos empregados na campanha. “Quinhentas mil pessoas não são 10 milhões de votos”, disse, ao comparar sua estimativa de participação nos atos petistas com o crescimento da votação de Lula.

A situação de Flávio Bolsonaro ocupou outra parte da entrevista. Fortes defendeu a ordem de entrega dos passaportes, alegando que havia risco de o senador sair do País enquanto era investigado. Rui contestou a medida. Na sua avaliação, a ação tomada imediatamente depois da eleição dirigiu-se ao principal representante de uma oposição que acabara de receber quase 60 milhões de votos.

“Eu acho que um juiz do STF fazer isso imediatamente depois que o homem perdeu a eleição é uma barbaridade, é uma aberração política e jurídica. É uma clara perseguição política contra o Flávio Bolsonaro. Quer dizer, não dá, você não pode ser oposição. […] O pessoal pode achar que é correto porque a pessoa é de esquerda e o Flávio Bolsonaro é de direita. Eu já não sou dessa opinião, porque eu não acho que os juízes do STF representam nenhuma democracia.”

Pimenta lembrou que também teve o passaporte apreendido durante uma operação da Polícia Federal contra o PCO. Contou que entregou o documento ao delegado, embora considere a ordem injustificada. O fato de Flávio ser investigado, argumentou, não autoriza tratá-lo como condenado nem elimina seu direito de se defender de medidas que considera arbitrárias.

Questionado sobre a perseguição sofrida por Lula, Rui cobrou da esquerda a mesma posição diante dos métodos empregados agora contra seus adversários. Recordou que o PCO combateu os processos contra dirigentes petistas mesmo enquanto criticava seus governos. O apoio do PT ao poder acumulado pelo STF, afirmou, não oferece proteção duradoura a ninguém.

“O STF manda no País. Se ele não quiser que o Lula seja candidato, não vai ser candidato. Se ele não quer que o Bolsonaro seja candidato, ele não é candidato. O pessoal acha que isso é democracia. Eu não sei que tipo de modelo de democracia é esse. […] Amanhã, se a situação mudar, botarem o pessoal do PT na cadeia, os bolsonaristas vão aplaudir. […] O Lula foi perseguido, a Dilma foi derrubada, o Zé Dirceu foi preso, todos em processos farsa, e agora o PT está lá sentado no colo do STF.”

Rui advertiu ainda que a saída de Flávio do Brasil poderá reforçar sua posição entre os bolsonaristas. A repressão a um movimento com milhões de eleitores, disse, tende a unir seus integrantes. Nos Estados Unidos, o senador poderá apresentar-se como perseguido político e fazer da ação do STF uma bandeira contra o governo.

Defender os direitos de Flávio, insistiu Pimenta, não significa apoiar sua candidatura. Ele criticou os setores nacionalistas que votaram no senador por acreditar que um governo bolsonarista enfrentaria as medidas antinacionais de Lula. “Votar no Flávio Bolsonaro é uma política reacionária”, afirmou. O PCO decidiu pelo voto nulo no segundo turno para manter sua independência diante dos dois candidatos. Rui acrescentou que o Partido não fez campanha para retirar votos de Lula e não censurou simpatizantes que escolheram o petista.

Fortes quis saber se uma vitória de Lula não seria mais favorável à luta política do que um governo Flávio. Rui disse considerar a reeleição petista o melhor resultado para a atuação do PCO, mas rejeitou a ideia de que ela resolveria os problemas dos trabalhadores. Com o PT na Presidência, afirmou, será possível confrontar as promessas da campanha com as decisões do governo. A derrota de Lula no primeiro turno e a votação obtida pelo adversário permanecem como sinais do desgaste petista.

“Eu acho que aqui os trabalhadores vão ter que fazer uma experiência política séria com o PT. Eu acho que o PT é um partido que está em franco declínio. […] Tem muita gente que deposita esperança. Eu acho que as pessoas têm que verificar na prática os limites da política do PT, o declínio político do PT.”

A cobrança dos capitalistas já aparece nas discussões sobre o próximo orçamento. Pimenta comentou as notícias de um novo ajuste fiscal e a possibilidade de Geraldo Alckmin assumir o Ministério da Fazenda. O vice-presidente, avaliou, poderia oferecer garantias aos empresários, mas uma política de cortes ampliaria o desgaste de Lula.

Ao responder a um espectador sobre o que faria na Presidência, Pimenta contrapôs às negociações do PT um governo apoiado na mobilização dos trabalhadores. Disse que uma vitória eleitoral, sem essa força organizada, não permitiria enfrentar os bancos e os demais grupos que dominam o Estado.

“Eu e o PCO só aceitaríamos governar o País se a gente contasse com um sólido apoio da classe trabalhadora brasileira. É um apoio ativo, não apoio eleitoral. Porque a nossa intenção, ao chegar ao governo, é tomar medidas drásticas: acabar com a dívida pública, retomar as empresas estatais, aumentar os salários, restabelecer os direitos trabalhistas, fazer uma reforma agrária. […] A gente precisaria chegar ao governo sobre a base de um movimento revolucionário que desse força para você tomar as medidas necessárias.”

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