Lincoln Gakiya

Condecorado pela ROTA, informante do FBI e treinado em El Salvador: quem é o ministro cotado para o governo Lula

Promotor indicado por Caiado para a Segurança Pública mantém intercâmbio de informações com agências norte-americanas e possui relações com a direita policial paulista

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, apontado como um dos candidatos ao Ministério da Segurança Pública do quarto governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), possui uma trajetória de estreita colaboração com os órgãos policiais dos Estados Unidos, foi homenageado pelo ex-comandante da Rota, Coronel Telhada, e defendeu publicamente a intervenção norte-americana na Colômbia. Documentos oficiais revelam ainda que Gakiya recebeu autorização para participar de um treinamento de inteligência criminal em El Salvador, numa academia mantida pelo governo dos Estados Unidos, que oferece cursos ministrados pelo FBI.

O nome de Gakiya começou a circular entre os possíveis ministros de Lula após a vitória eleitoral de 25 de outubro. Segundo reportagem publicada pelo UOL no dia 27, o promotor, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, declarou que aceitaria assumir a pasta caso fosse convidado. Dois dias depois, a CNN informou que Lula estaria preferindo um político para o cargo, com Camilo Santana e Fernando Haddad entre os nomes examinados. A possibilidade de nomeação de Gakiya perdeu força, mas não foi formalmente descartada.

A imprensa apresenta o promotor como um especialista no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC), organização que investiga há aproximadamente duas décadas. Sua carreira, entretanto, não se resume aos processos contra a facção. Gakiya mantém relações com as agências norte-americanas FBI e DEA, participou de operações conjuntas com policiais ligados à Rota e chegou a ser apresentado por Ronaldo Caiado, candidato presidencial do PSD, como o nome desejado para comandar seu próprio Ministério da Segurança Pública.

A investigação de seus antecedentes revela um personagem situado no centro das discussões sobre o fortalecimento dos organismos de repressão e inteligência do Estado. Especialmente relevante é a convergência entre suas propostas de segurança pública, as experiências norte-americanas e a política defendida por representantes da direita policial brasileira.

O amigo e irmão do ex-comandante da Rota

Uma das relações mais antigas e documentadas de Gakiya é com o ex-deputado estadual Coronel Paulo Telhada, eleito inicialmente pelo PSDB e conhecido por sua trajetória no comando das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), unidade de elite da Polícia Militar paulista.

Em 24 de abril de 2018, Gakiya compareceu à Assembleia Legislativa de São Paulo para prestar esclarecimentos à Comissão Parlamentar de Inquérito da Operação Ethos/Condepe. A sessão foi presidida por Telhada, então deputado tucano.

Ao apresentar o promotor, Telhada afirmou conhecê-lo desde a época em que comandava a Rota. Elogiou sua atuação e destacou o respeito que os policiais tinham pelo trabalho desenvolvido pelo Ministério Público.

A resposta de Gakiya foi reveladora. Ele se dirigiu a Telhada como seu amigo e irmão, lembrando as numerosas operações que ambos haviam realizado juntos.

A transcrição oficial da CPI registra a relação de maneira inequívoca. Não se tratava apenas de dois funcionários públicos presentes no mesmo evento: havia um histórico de colaboração operacional e uma relação pessoal reconhecida pelo próprio promotor.

Na ocasião, Gakiya descreveu o funcionamento da Operação Ethos, desencadeada em 2016 contra uma suposta rede de colaboração com o PCC. A operação envolveu investigação de advogados e suspeitas relacionadas ao Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe).

Segundo apresentação realizada pelo promotor ao Conselho Nacional do Ministério Público em 2017, a operação resultou em 54 prisões preventivas, entre elas as de 39 advogados. Gakiya também informou que foram deferidos 16 pedidos de inclusão de presos no Regime Disciplinar Diferenciado.

A prisão de dezenas de advogados e as suspeitas envolvendo um órgão de defesa dos direitos humanos mostram o alcance daquela investigação. Os números dizem respeito a medidas cautelares e não significam que todos os investigados tenham sido posteriormente condenados.

O mais importante para compreender a trajetória de Gakiya é que a relação com Telhada nasceu de um trabalho conjunto entre o Ministério Público e os organismos policiais paulistas. Foi essa colaboração que o promotor fez questão de recordar publicamente.

O Coronel Telhada era reconhecido pela esquerda e pelo PT como um fascista notório. Defendia a execução de suspeitos em operações policiais e admitiu ter participado de diversos “confrontos” com mortes durante operações. “Quanto mais bandido for para o saco, melhor, porque é menos gente para me encher o saco”, disse em uma entrevista de 2014. Ele sempre foi um defensor da redução da maioridade penal, endurecimento das penas criminais (e, ao mesmo tempo, proteção dos carniceiros da PM) e ataque às garantias legais do cidadão. Após a reeleição de Dilma Rousseff em 2014, Telhada também defendeu a separação do Sul e do Sudeste do País.

Esse é o amigo do peito e admirado pelo possível ministro da Segurança Pública de Lula.

Condecorado numa cerimônia promovida por Telhada

A relação ganhou uma manifestação pública ainda mais significativa em 2 de agosto de 2018.

Naquela data, Gakiya recebeu a Medalha da Constituição durante uma cerimônia organizada pelo deputado Coronel Telhada na Assembleia Legislativa paulista. O evento reuniu integrantes da Polícia Militar, oficiais das Forças Armadas, representantes do Judiciário e membros do Ministério Público.

O promotor foi incluído entre os homenageados ao lado de generais, coronéis e autoridades policiais. O registro oficial da solenidade identifica expressamente Gakiya entre as personalidades chamadas para receber a condecoração.

A medalha era uma honraria parlamentar. Seu significado político, entretanto, está na identidade de quem organizou a homenagem e nas relações cultivadas pelo homenageado.

Telhada construiu sua projeção pública como comandante da Rota e representante político de setores da Polícia Militar paulista. A unidade possui um histórico de elevada letalidade e foi repetidamente denunciada por organizações de direitos humanos devido a operações que resultaram em mortes de civis.

Gakiya não recebeu simplesmente uma distinção de um parlamentar desconhecido. Foi condecorado numa solenidade conduzida por um antigo parceiro operacional, cuja carreira política se apoiava diretamente na defesa da atuação dos batalhões de choque e das unidades de elite da PM.

Em setembro de 2019, Telhada voltaria a elogiar publicamente Gakiya na tribuna da Assembleia, destacando seu papel na transferência de dirigentes do PCC para penitenciárias federais.

O defensor dos policiais do Carandiru

A relação de Gakiya com Telhada adquire importância adicional quando se examinam as posições do ex-comandante da Rota sobre o massacre do Carandiru.

Em 2 de outubro de 1992, uma intervenção da Polícia Militar na Casa de Detenção de São Paulo resultou na morte de 111 presos. A chacina foi comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães e envolveu diferentes unidades policiais, incluindo a Rota.

A chacina se tornou um dos episódios mais conhecidos da violência policial brasileira. Investigações posteriores identificaram presos mortos dentro das celas, vários deles sem possibilidade de defesa. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos responsabilizou o Estado brasileiro por graves violações relacionadas à operação.

Apesar desse histórico, Telhada realizou uma homenagem pública a Ubiratan Guimarães e aos policiais envolvidos no episódio.

Em discurso na Assembleia Legislativa, em outubro de 2017, o então deputado afirmou que o coronel havia sido injustamente tratado em decorrência da intervenção no presídio. Também prestou homenagem aos demais policiais que participaram da operação.

Telhada justificou a atuação das tropas e atribuiu responsabilidade às autoridades políticas que, segundo sua interpretação, teriam abandonado os policiais depois dos acontecimentos.

Não foi uma manifestação isolada. A defesa dos policiais envolvidos no Carandiru fazia parte de sua atuação pública em favor da Polícia Militar.

É esse personagem que Gakiya chamou de amigo e irmão e com quem afirmou ter realizado numerosas operações.

A homenagem compartilhada com um oficial que esteve no Carandiru

Outro vínculo institucional aparece na trajetória do coronel Nivaldo César Restivo, oficial da PM paulista que esteve na operação do Carandiru.

Em 1992, Restivo era tenente do Batalhão de Choque. Seu nome apareceu nas investigações relacionadas à violência praticada contra detentos sobreviventes. Ele não foi acusado de executar os presos mortos na chacina, mas respondeu a uma acusação de omissão diante de agressões. O processo prescreveu antes de seu julgamento.

Restivo negou participação direta na intervenção dentro do Pavilhão 9. Em 2017, entretanto, quando Geraldo Alckmin, do PSDB, o escolheu para comandar a Polícia Militar paulista, qualificou a operação do Carandiru como legítima e necessária.

Posteriormente, João Doria, também eleito pelo PSDB, nomeou Restivo secretário da Administração Penitenciária do estado.

Em 9 de dezembro de 2019, Restivo participou da cerimônia na qual Gakiya recebeu o Colar de Honra ao Mérito Legislativo do Estado de São Paulo. Também estiveram presentes Coronel Telhada, Major Mecca e Coronel Nishikawa.

A homenagem foi organizada pelo deputado Ed Thomas, do PSB. Restivo participou como secretário estadual.

O episódio demonstra a circulação do promotor entre autoridades militares e policiais que ocuparam posições de destaque nos governos tucanos de São Paulo.

Há ainda um antecedente envolvendo o próprio PT. Em dezembro de 2022, Flávio Dino, futuro ministro da Justiça de Lula, anunciou Restivo para comandar a Secretaria Nacional de Políticas Penais.

A indicação provocou protestos de integrantes do grupo de transição responsável pela área de segurança pública e de organizações ligadas aos direitos humanos. Restivo acabou desistindo do cargo, alegando razões familiares.

Portanto, a possibilidade de incorporar ao governo Lula integrantes ou colaboradores das estruturas policiais paulistas não começou com Gakiya. Já havia provocado controvérsia antes mesmo da posse do terceiro mandato do presidente.

Informações para o FBI e a DEA toda semana

As relações de Gakiya com os organismos norte-americanos constituem outro capítulo de sua trajetória.

Em maio de 2026, numa entrevista sobre a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos, o promotor reconheceu expressamente que mantinha um intercâmbio semanal de informações com duas importantes agências policiais daquele país.

A declaração foi reproduzida pelo Estadão e publicada pelo InfoMoney:

“Eu, por exemplo, troco informações toda semana com a DEA e com o FBI.”

A DEA é a agência federal norte-americana responsável pelo combate ao tráfico de drogas. O FBI possui atribuições federais de investigação criminal, contrainteligência e segurança nacional. Ambas são agências do imperialismo, utilizadas para intervir nos países da América Latina. O jornalista Bob Fernandes escreveu uma série de reportagens revelando como a Polícia Federal brasileira é uma sucursal dessas duas agências há cerca de 30 anos.

Gakiya não descreveu encontros ocasionais nem uma cooperação limitada a um processo isolado. Falou de um fluxo regular de informações, mantido diretamente com órgãos estrangeiros.

O promotor atua como fornecedor e receptor habitual de informações policiais utilizadas pelas agências dos Estados Unidos.

A questão política é a intensidade da cooperação e a influência que esse relacionamento pode exercer sobre o funcionamento de organismos de segurança brasileiros.

O profissional considerado para comandar uma pasta federal com atribuições sobre as polícias e os serviços de inteligência possui canais próprios de intercâmbio com o aparato policial norte-americano, construídos antes de qualquer eventual nomeação.

Reuniões em Boston e contatos com o Departamento de Estado

O relacionamento ultrapassou a troca remota de informações.

Em março de 2026, Gakiya esteve em Boston, nos Estados Unidos, para reuniões presenciais com representantes do FBI e da DEA. Os encontros trataram de integrantes do PCC suspeitos de atuar em redes criminosas no território norte-americano.

O próprio promotor confirmou a realização das reuniões em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada em 29 de maio.

Também existem registros de “cooperação” investigativa envolvendo a identificação de integrantes da facção em Massachusetts. Gakiya declarou ter auxiliado investigações sobre brasileiros envolvidos em atividades criminosas naquela região.

Sua articulação com Washington não se restringe, porém, às agências policiais.

Em 25 de novembro de 2025, durante depoimento à CPI do Crime Organizado do Senado, Gakiya revelou ter participado, cerca de dois meses antes, de uma reunião em São Paulo com representantes do FBI, da DEA e do Departamento de Estado.

A informação foi prestada enquanto ele defendia o modelo norte-americano de integração das instituições policiais.

Ao mesmo tempo, explicou que as forças de segurança dos Estados Unidos haviam desenvolvido uma cultura de compartilhamento de informações depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Ou seja, defendeu que seja aplicado no Brasil o estado policial que se impôs nos EUA, com a vigilância, espionagem e prisão de qualquer cidadão.

O contato com o Departamento de Estado acrescenta uma dimensão diplomática à cooperação policial. Não se trata apenas de investigadores estrangeiros interessados em suspeitos que atuam no território norte-americano, mas também de funcionários de um organismo diretamente subordinado à política externa de Washington.

Assessores de Marco Rubio procuraram o promotor

Em março de 2026, a Jovem Pan revelou outro episódio.

Representantes do Departamento de Estado norte-americano, ligados ao secretário Marco Rubio, haviam procurado Gakiya no Brasil para discutir o funcionamento do PCC e sua atuação internacional.

O próprio promotor confirmou à reportagem que conversou com os assessores.

As visitas ocorreram em 2025, quando representantes da administração Donald Trump procuravam reunir informações sobre as facções brasileiras. O assunto estava relacionado à possibilidade de classificá-las como organizações terroristas estrangeiras.

Entre os integrantes das delegações norte-americanas identificados pela Jovem Pan estavam Darren Beattie, Ricardo Pita e Joshua Johnson. A reportagem não especificou quais deles participaram individualmente dos encontros com Gakiya.

A classificação das facções como terroristas foi objeto de divergências entre o governo brasileiro e Washington. Autoridades brasileiras advertiram que a medida poderia ampliar a intervenção de órgãos de inteligência e militares norte-americanos em questões de segurança interna do Brasil.

É significativo que, durante a preparação dessa política, integrantes do governo Trump tenham recorrido a Gakiya para obter informações sobre a estrutura e as atividades do PCC.

Treinamento em academia norte-americana em El Salvador

A relação com o sistema policial dos Estados Unidos possui também um componente de formação.

O Diário Oficial do Estado de São Paulo de 4 de outubro de 2022 publicou o Aviso nº 605/2022-PGJ-CAT, referente a um pedido de afastamento apresentado por Gakiya.

O documento registra autorização para participar do curso Using Intelligence in Organized Crime Investigations, oferecido pela International Law Enforcement Academy (ILEA), em San Salvador, capital de El Salvador, entre 19 e 23 de setembro daquele ano.

O pedido foi identificado pelo processo administrativo SEI nº 29.0001.0193914.2022-87.

A ILEA de San Salvador não é uma instituição de formação exclusivamente salvadorenha. Ela integra uma rede internacional de academias criada por iniciativa do governo dos Estados Unidos para treinar agentes policiais de diferentes países.

O programa é administrado e financiado pelo Departamento de Estado norte-americano, por meio de sua estrutura de combate internacional ao tráfico de drogas e aplicação da lei.

A própria ILEA identifica o FBI como responsável por diferentes edições do curso de utilização de inteligência em investigações do crime organizado. O conteúdo abrange métodos de coleta de informações, processamento de inteligência e integração entre investigação e atividade operacional.

A formação ocorreu em El Salvador, e não nos Estados Unidos. Mas o programa, os métodos de investigação e os instrutores associados a esse curso pertencem à estrutura norte-americana de cooperação policial.

El Salvador já era governado por Nayib Bukele, o ídolo dos bolsonaristas por ter implementado um estado de exceção eterno no país, prendido centenas de milhares de pessoas e onde cerca de 90% dos presos ainda não foram julgados, portanto são legalmente inocentes. O regime salvadorenho, de extrema direita, é um modelo invocado pela direita como o ideal para a segurança pública. E o possível ministro de Lula foi treinado pelos EUA justamente em El Salvador.

Defendeu a intervenção norte-americana na Colômbia

Entre todas as declarações públicas de Gakiya, uma das mais relevantes para compreender sua posição sobre o imperialismo norte-americano foi pronunciada no Senado em 25 de novembro de 2025.

Durante audiência da CPI do Crime Organizado, o senador Hamilton Mourão perguntou ao promotor sobre a expansão internacional do PCC e os riscos de o Brasil se transformar num Estado dominado por organizações criminosas.

Gakiya respondeu que o País caminhava para tornar-se um narcoestado caso não fossem adotadas medidas para impedir a infiltração das facções na economia e na política.

Para fundamentar seu argumento, apresentou o exemplo colombiano. Segundo ele, a economia da cocaína havia adquirido um peso tão grande no país que a intervenção dos Estados Unidos por meio do Plano Colômbia teria sido indispensável à sua estabilidade.

A posição é particularmente relevante porque o Plano Colômbia foi um dos mais importantes programas de intervenção militar e policial norte-americana na América Latina durante o início do século XXI.

Implementado a partir de 2000, o programa envolveu bilhões de dólares em assistência dos Estados Unidos, fornecimento de equipamentos, treinamento de forças de segurança, operações antidrogas e apoio às instituições militares colombianas.

Durante esse período, o Estado colombiano ampliou significativamente suas operações contra as guerrilhas e as organizações vinculadas ao narcotráfico.

O resultado não pode ser examinado exclusivamente a partir das estatísticas de combate ao tráfico. A expansão da atuação militar ocorreu num país atravessado por décadas de guerra interna, atuação de grupos paramilitares, deslocamentos forçados de camponeses e assassinatos cometidos por agentes estatais.

A Jurisdição Especial para a Paz da Colômbia identificou pelo menos 6.402 vítimas de assassinatos ilegais apresentados pelas forças de segurança como mortes de guerrilheiros em combate entre 2002 e 2008.

Os crimes ficaram conhecidos como falsos positivos. Civis, frequentemente jovens pobres, eram assassinados e apresentados falsamente como combatentes inimigos.

O próprio Departamento de Estado norte-americano reconheceu esses acontecimentos em seus relatórios sobre direitos humanos.

A ideia de que a intervenção norte-americana salvou a Colômbia apresenta como necessária uma política cuja execução esteve associada à militarização do conflito e a um período de extrema violência estatal.

Essa posição ganha importância quando parte de alguém cogitado para dirigir a segurança pública de um país historicamente submetido a pressões diplomáticas, econômicas e militares de Washington.

A proposta de instalar vírus em telefones celulares

A defesa do fortalecimento dos aparelhos de inteligência aparece também nas posições de Gakiya sobre vigilância digital.

Em abril de 2017, durante uma reunião do Conselho Nacional do Ministério Público, o promotor discutiu as dificuldades enfrentadas pelos investigadores diante dos mecanismos de criptografia utilizados por aplicativos como WhatsApp e Telegram.

Gakiya propôs a utilização de programas capazes de acessar diretamente os aparelhos de integrantes de organizações criminosas para obter informações que não podiam ser interceptadas pelos métodos tradicionais.

A solução apresentada consistia na introdução de um vírus nos celulares dos investigados, mediante autorização judicial.

O registro foi publicado pelo próprio CNMP.

A proposta corresponde, tecnicamente, ao emprego de programas de monitoramento invasivo capazes de obter informações armazenadas ou transmitidas por aparelhos eletrônicos.

Esse tipo de tecnologia ganhou projeção internacional com os escândalos envolvendo programas de espionagem utilizados por governos contra jornalistas, opositores políticos e defensores dos direitos humanos.

O modelo norte-americano de integração policial

A defesa da vigilância digital está associada a uma proposta institucional mais ampla.

Gakiya sustenta há anos que o Brasil precisa superar a fragmentação entre diferentes órgãos policiais e criar mecanismos permanentes de compartilhamento de informações.

No Senado, em novembro de 2025, apresentou os chamados Fusion Centers dos Estados Unidos como modelo de referência.

Esses centros foram desenvolvidos para integrar órgãos federais, estaduais e locais de segurança e inteligência, permitindo a circulação de informações entre diferentes instituições.

O promotor elogiou especialmente a mudança realizada nos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro de 2001, quando o governo norte-americano ampliou a coordenação entre seus serviços de inteligência e segurança.

A experiência norte-americana, entretanto, também foi acompanhada por uma expansão dos poderes de vigilância do Estado e por controvérsias relacionadas à proteção das liberdades civis.

É nesse sistema de integração e circulação de informações que Gakiya identifica uma referência para o funcionamento das instituições brasileiras.

Sua proposta inclui a articulação de polícias, Ministérios Públicos, órgãos de inteligência e instituições responsáveis por informações financeiras.

Mas o problema central não pode ser reduzido à eficiência da repressão. É necessário examinar quem controla os instrumentos policiais, quais instituições terão acesso às informações e que garantias existem contra sua utilização para perseguir organizações populares. Na verdade, o que Gakiya defende é o poder absoluto do Estado contra o cidadão comum sob a desculpa de combate ao crime.

Um lavajatista

A aproximação de Gakiya com métodos de investigação associados à Lava Jato aparece num artigo que ele assinou em 26 de dezembro de 2018, em parceria com o promotor Fábio Ramazzini Bechara.

Publicado no JOTA com o título Agenda Anticorrupção 2019 e a cooperação interinstitucional, o texto discutia a proposta apresentada por Sergio Moro, então anunciado como futuro ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, de reproduzir o modelo da Lava Jato em outras áreas de investigação criminal.

Os autores classificaram a operação como um exemplo de cooperação institucional e destacaram a importância da integração entre organismos do Estado, do compartilhamento de informações e da existência de uma direção capaz de coordenar investigações complexas.

O artigo também apresentou instituições dos Estados Unidos como referências. Entre elas estavam o National Counterterrorism Center, centro de integração da inteligência antiterrorista, e o programa de forças-tarefas federais contra o crime organizado e o tráfico de drogas.

Ele fez uma defesa pública de aspectos do modelo institucional da Lava Jato, num texto publicado quando Moro se preparava para assumir o Ministério da Justiça de Bolsonaro.

Há aqui uma convergência entre a valorização de mecanismos de investigação associados à Lava Jato e a defesa de métodos de coordenação policial desenvolvidos pelos Estados Unidos.

O ministro desejado por Ronaldo Caiado

A ligação política mais diretamente relacionada à indicação de Gakiya para um ministério surgiu em agosto de 2026.

No dia 10 daquele mês, Ronaldo Caiado, então candidato à Presidência da República pelo PSD, apresentou seu programa de segurança pública, denominado Operação Reconquista.

Caiado declarou que pretendia convidar Gakiya para comandar o Ministério da Segurança Pública caso vencesse a eleição.

O programa incluía uma lei de combate ao chamado terrorismo doméstico, a construção de 40 unidades penitenciárias de segurança máxima, ampliação das atribuições das Forças Armadas na segurança interna e medidas de endurecimento da legislação penal.

Entre as propostas apresentadas estavam penas extremamente elevadas para crimes relacionados a organizações classificadas como terroristas domésticas e restrições adicionais à progressão de regime.

O plano de Caiado previa também a criação de uma Agência Federal de Inteligência Criminal e de estruturas de coordenação entre diferentes organismos policiais.

A escolha pretendida por Caiado mostra o grau de identificação entre o perfil profissional do promotor e o tipo de política de segurança defendido pela direita tradicional. Caiado é fundador da União Democrática Ruralista (UDN), responsável pelo massacre de sem terra no campo.

Depois da derrota eleitoral de Caiado, Gakiya passou a aparecer nas discussões sobre o ministério prometido por Lula.

A mudança é politicamente significativa: o mesmo especialista procurado por um candidato de direita linha dura tornou-se uma possibilidade para o governo de um presidente eleito pelo PT.

O que está em jogo no governo Lula

O debate sobre sua possível nomeação ocorre quando Lula pretende transformar a segurança pública numa das prioridades de seu quarto mandato.

Em 27 de outubro, Gakiya declarou à Folha de S.Paulo que aceitaria o cargo com prazer caso fosse convidado. A indicação ainda depende da criação da pasta, associada à tramitação da PEC da Segurança Pública no Congresso.

No dia 29, a CNN informou que Lula havia manifestado preferência por um nome político, em vez de um especialista da área policial, colocando Camilo Santana e Fernando Haddad entre os possíveis ministros.

Independentemente da decisão final, a inclusão de Gakiya nas discussões ministeriais coloca diante do governo petista uma questão que vai além de sua biografia. Trata-se da possibilidade de ampliar o poder repressivo do Estado sobre a segurança pública utilizando como referência a Rota e a PM paulistas, na infiltração do FBI e da DEA e na defesa de instrumentos cada vez mais invasivos de espionagem e vigilância contra a população.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.