O jornalista Alex Solnik publicou nesta quarta-feira (28) dois artigos no Brasil 247 anunciando o fim do bolsonarismo. Em O bolsonarismo respira por aparelhos, afirma que Flávio Bolsonaro teria livrado o País do movimento liderado por seu pai. Horas depois, em O bolsonarismo está na UTI, escreve que “nenhuma corrente política sobrevive sem um líder”. O diagnóstico foi publicado três dias depois de uma eleição que deu ao bolsonarismo uma das maiores demonstrações de força desde 2018.
Luiz Inácio Lula da Silva venceu o segundo turno de domingo (25) com 51,79% dos válidos. Flávio Bolsonaro obteve 48,21%, ficando a 4.430.191 votos da Presidência. No primeiro turno, o candidato do PL havia terminado à frente. Jair Bolsonaro, preso e impedido de disputar a eleição, por pouco não conseguiu eleger o filho, e sua influência levou um candidato que disputava a Presidência pela primeira vez à beira da vitória contra um presidente que buscava a reeleição.
O resultado parlamentar foi ainda mais expressivo. O PL elegeu 121 deputados federais, contra 99 em 2022, e tornou-se a maior bancada da Câmara. No Senado, conquistou 19 das 54 cadeiras em disputa e, consideradas as substituições decorrentes das eleições estaduais, deverá começar 2027 com 29 dos 81 senadores, quase 36%. O PT terá 70 deputados e dez senadores. Em quatro anos, enquanto o partido de Lula ganhou apenas dois deputados, o dos Bolsonaro acrescentou 22 à sua bancada.
Nos estados, o PL passou de dois para seis governos, vencendo no Paraná, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, em Rondônia e em Roraima. O balanço das alianças eleitorais também contradiz Solnik, pois entre os 27 governadores eleitos, 16 haviam apoiado Flávio no segundo turno, sete apoiaram Lula e quatro não declararam apoio. Os números não descrevem um movimento sem capacidade de organização, e sim uma direita que, apesar de perder o Executivo federal, ampliou suas posições nos demais poderes.
Solnik reduz o problema à situação pessoal de Jair Bolsonaro e de seus filhos. Escreve que, com o pai preso e outros integrantes da família fora do País, o bolsonarismo estaria sem direção. O movimento, entretanto, já não se resume aos Bolsonaro. Há governadores, senadores, deputados, organizações e milhões de eleitores influenciados por sua política. As razões dessa polarização, como a crise dos partidos tradicionais, a insatisfação popular e a disputa em torno do regime político, continuam em vigor e não serão eliminadas por decisões judiciais contra dois ou três dirigentes.
A substituição de uma liderança, em certa medida, pode até produzir uma direita mais radical.
No segundo artigo, Solnik tenta sustentar a mesma conclusão com exemplos históricos. Diz que o integralismo acabou quando Getúlio Vargas enviou Plínio Salgado ao exílio, que o nazismo morreu com Hitler e que o fascismo acabou com Mussolini. Nada mais fora da realidade. A Ação Integralista Brasileira foi fechada em 1937, mas Salgado voltou do exílio, fundou o Partido de Representação Popular em 1945, disputou a Presidência em 1955 e depois foi eleito deputado federal. A organização e seus integrantes sobreviveram à proibição de seu antigo partido. Também a derrota dos regimes alemão e italiano não extinguiu todas as correntes de extrema direita daqueles países.
Mais grave, nos artigos, é a ausência de qualquer explicação para os efeitos da política repressiva do Judiciário. O bolsonarismo não se fortaleceu apenas apesar da perseguição judicial. Essa fornece aos seus dirigentes um argumento poderoso para mobilizar sua base e apresentar-se como vítimas de um regime que pretende eliminar seus adversários por decisões de magistrados.
A Polícia Federal, logo após o segundo turno, pediu medidas cautelares contra Flávio na noite de domingo, depois da confirmação da vitória de Lula. Alexandre de Moraes determinou a entrega de seus passaportes e proibiu sua saída do Brasil. O senador não entregou os documentos no prazo; a PF os cancelou na terça-feira (27). A ordem foi expedida em investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro, sem que houvesse condenação do candidato.
A investigação mencionava a suspeita de ligação de Flávio com uma conta mantida por um advogado em Portugal e a declaração de Eduardo Bolsonaro recomendando que o irmão saísse do País se perdesse. A defesa contestou as suspeitas. Como os autos permanecem sob sigilo (afronta grave ao contraditório e à ampla defesa), não se pode apresentar como conhecido tudo o que fundamentou a decisão. Mas a intervenção, imediatamente depois de uma eleição presidencial, possui consequências políticas que não podem ser ignoradas.
A reação da direita foi previsível. Seus dirigentes passaram a apontar a ordem como prova de perseguição; aliados informaram que Flávio havia deixado o País. A decisão autoritária do STF voltou a colocar o bolsonarismo no centro da política nacional e pode ampliar sua capacidade de mobilizar simpatizantes. O governo e a esquerda que aplaudem essa política entregam à direita justamente os argumentos de que ela necessita.
Nos Estados Unidos, Donald Trump enfrentou sucessivos processos criminais depois de perder a Presidência em 2020 e foi condenado, em maio de 2024, por 34 acusações de falsificação de registros comerciais. Em novembro, voltou a vencer a eleição presidencial, reflexo de uma disputa política, econômica e social. A condenação não destruiu a liderança de Trump, que conseguiu fazer dos processos parte de sua campanha contra as instituições norte-americanas.
Algo semelhante ocorre no Brasil. A prisão de Jair Bolsonaro não impediu que Flávio recebesse quase 60 milhões de votos. A derrota de Flávio não impediu que o PL elegesse a maior bancada das duas Casas do Congresso. E o cancelamento de seus passaportes também não encerra o conflito, além de dar novo material à campanha bolsonarista contra Moraes e o STF. Tratar a repressão como alternativa ao enfrentamento político é uma maneira de continuar alimentando a força que se pretende combater.
Solnik pode até desejar que o bolsonarismo tenha acabado. Os resultados de outubro mostram outra coisa. A direita perdeu a Presidência, mas conquistou governos estaduais, cresceu no Congresso e preservou uma base eleitoral gigantesca. Se os Bolsonaro forem afastados definitivamente, outros dirigentes poderão assumir sua posição. Não se enterra uma corrente política retirando seus chefes de circulação, sobretudo quando a própria repressão lhe oferece novos meios de recrutamento e agitação.




