Lula começou o segundo turno com uma derrota de mais de dois milhões de votos para Flávio Bolsonaro. Terminou eleito com uma vantagem de 4.430.191. O PT atribui a virada à mobilização de sua militância. Na Análise da 3ª desta terça-feira (27), Rui Costa Pimenta contestou essa explicação: a força decisiva da campanha petista veio dos setores da burguesia que escolheram impedir a vitória do candidato do PL.
No primeiro turno, Flávio recebeu cerca de 56,1 milhões de votos, e Lula, 53,9 milhões. No segundo, o presidente chegou a 64.256.232 votos, ou 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio, ou 48,21%. O crescimento de Lula ultrapassou 10 milhões de votos em três semanas. O de seu adversário ficou em aproximadamente 3,7 milhões.
Os candidatos eliminados em 4 de outubro haviam reunido aproximadamente nove milhões de votos. Suas candidaturas pertenciam à direita. Também houve eleitores que compareceram apenas no segundo turno, além de pessoas que deixaram de votar em branco ou nulo. A apuração não mostra a escolha individual de cada um desses eleitores, mas estabelece o problema político apontado por Pimenta: a militância petista teria de conquistar, em poucas semanas, milhões de votos fora de sua base, inclusive entre pessoas que haviam preferido candidatos conservadores.
Pimenta considerou insuficiente a explicação dos grandes atos de campanha. Mesmo tomando meio milhão de participantes como uma estimativa generosa para as manifestações petistas no País, esse contingente não explica, por sua dimensão nem por sua composição, o salto na votação do presidente. A atividade nas ruas existiu. Seu alcance, porém, não se confunde com o poder das emissoras de televisão, dos partidos tradicionais e dos grandes empresários que passaram a trabalhar pela vitória de Lula.
A aproximação com a direita apareceu na própria propaganda. Artistas ligados à Rede Globo anunciaram voto no presidente. Geraldo Alckmin e o general Santos Cruz, que integrou o governo Jair Bolsonaro, participaram dos apelos ao eleitor conservador. Em vez de apresentar uma campanha centrada nas reivindicações da classe operária, o PT exibiu políticos e personalidades capazes de assegurar aos patrões que a reeleição manteria o governo dentro dos acordos já firmados com eles.
A influência desses setores não termina nos programas eleitorais. Pimenta chamou atenção para a rede de emissoras associadas à Globo e para os políticos de partidos burgueses distribuídos pelos estados e municípios. Citou a divisão de forças tradicionais da direita no segundo turno: uma decisão tomada pela direção nacional de um partido não determina necessariamente a atuação de todos os seus dirigentes locais. A campanha de Lula pôde contar, assim, com apoios que não aparecem quando se mede apenas o número de pessoas presentes em seus comícios.
A preferência pelo presidente tinha uma razão política. Flávio Bolsonaro representa uma corrente que conserva dezenas de milhões de votos e capacidade própria de organização. Lula já governa com Alckmin, o Centrão e representantes dos interesses empresariais. Para os setores da burguesia destacados por Pimenta, manter os acordos existentes era mais conveniente do que entregar a Presidência a uma força de direita menos sujeita aos partidos tradicionais.
Essa escolha não exigiu que o PT se voltasse aos trabalhadores. Durante a campanha, Lula defendeu a redução da maioridade penal em casos de crimes hediondos. Seus aliados procuraram eleitores conservadores enquanto apresentavam o voto no presidente como uma obrigação para quem se opunha à direita. A mudança de tom eleitoral não trouxe uma mudança na política econômica do governo: o arcabouço fiscal e os pagamentos aos credores permaneceram fora de questão.
Houve, ao mesmo tempo, concessões feitas às vésperas da votação. Após três anos sem reajustar o piso do Bolsa Família, o governo anunciou sua elevação para R$ 691. Lula divulgou propostas para endividados e prometeu transporte gratuito em determinados períodos. Pimenta observou que a burguesia permitiu ao presidente fazer essa campanha sem desencadear contra as medidas a ofensiva que iniciou logo depois de sua vitória.
Na segunda-feira (26), a queda da Bolsa e a desvalorização do real vieram acompanhadas da cobrança por um ministro da Fazenda aceito pelos bancos e por restrições mais duras às despesas públicas. Os capitalistas que aceitaram as promessas eleitorais passaram a exigir garantias sobre o próximo governo. O apoio a Lula não representava compromisso com os benefícios anunciados à população; representava uma disputa pelo comando de seu quarto mandato.
Os 64 milhões de votos recebidos por Lula não podem, portanto, ser apresentados como se expressassem uma recuperação da força política do PT entre os trabalhadores. Pimenta relatou que parte do eleitorado votou no presidente por receio de Flávio Bolsonaro, apesar da insatisfação com o governo. O candidato derrotado, por sua vez, saiu da eleição com quase 60 milhões de votos. A reeleição não desfez o crescimento da direita registrado no primeiro turno.
Também não há base para transformar a virada em acusação de fraude. Pimenta afirmou que a fraude não foi comprovada. Sua análise se dirige ao papel desempenhado pelos poderes econômicos e políticos que se colocaram ao lado de Lula. A burguesia dispõe de jornais, emissoras, bancos, empresas e representantes em todos os níveis do Estado. Foi com essa força que, na avaliação do presidente do PCO, interveio para definir o segundo turno.
A 39ª Conferência Nacional do Partido havia decidido pelo voto nulo após examinar a política do governo e a derrota de Lula no primeiro turno. O apoio do PCO ao petista em 2022 respondeu à perseguição judicial que o retirara da eleição de 2018 e à oposição popular ao regime do golpe de 2016. Quatro anos depois, Lula disputou a reeleição como chefe da frente ampla. A pressão dos banqueiros sobre a futura equipe econômica começou antes mesmo de seu novo mandato.





