O professor Lucas Trindade, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), publicou nesta terça-feira (27), em A Terra é Redonda, o artigo 13 lições de outubro. Para o autor, a vitória de Lula representou uma derrota da ofensiva imperialista sobre a América Latina. Entre suas propostas para combater o que chama de “neofascismo” estão a regulamentação das plataformas digitais, a desmilitarização do Estado e a prisão de políticos que defendam a ditadura militar.
Trindade acerta ao condenar a conciliação de classes dos governos petistas. Mas a afirmação fica solta: ele não explica por que esses governos se apoiam nos mesmos capitalistas que denuncia, nem qual força social seria capaz de enfrentar o poder da burguesia. Em vez disso, apresenta uma série de medidas legais e administrativas como resposta ao crescimento da direita. Se esquecendo que é a burguesia que controla o Estado e suas instituições.
A própria eleição mostra a insuficiência dessa análise. Lula venceu o segundo turno com uma diferença de 4.430.191 votos. Entretanto, Flávio havia vencido o primeiro turno, com 47,03% contra 45,16% de Lula, e a derrota presidencial não impediu a expansão do bolsonarismo nos demais cargos.
O PL elegeu 19 senadores e chegará a 2027 com 28 das 81 cadeiras do Senado, contra nove do PT. Na Câmara, conquistou 121 deputados federais. O partido passou de dois governadores eleitos em 2022 para seis em 2026. No conjunto dos estados, 16 dos 27 governadores eleitos apoiaram Flávio Bolsonaro. Lula venceu a Presidência, mas encontrará um Congresso e governos estaduais com forte presença de seus adversários.
O artigo, no entanto, celebra o resultado como se a direita tivesse sofrido uma derrota política geral. A expressão “neofascismo” aparece repetidamente sem que se esclareça o que ela significa. É preciso compreender quais forças econômicas sustentam o avanço da direita e quais interesses essas forças defendem. E mais: como se relacionam com as instituições do Estado? É isso que importa.
O fascismo histórico não foi simplesmente uma direita agressiva. Não basta, portanto, chamar um governo de neofascista porque seus dirigentes adotam posições reacionárias. É necessário identificar sua base social, suas organizações e a função que desempenha na luta de classes. Sem isso, o termo se torna um rótulo que substitui a explicação.
Na Argentina de Javier Milei, por exemplo, o ataque aos direitos trabalhistas, às empresas estatais e aos serviços públicos favorece diretamente o grande capital e o imperialismo.
No Brasil, Lula governa com antigos adversários do PT e partidos ligados aos grandes empresários. Sua política econômica permanece submetida a restrições fiscais e à pressão do capital financeiro. O governo prometeu combater a direita sem romper com as forças sociais que sustentam a ofensiva contra os trabalhadores.
Esse é o centro da contradição que Trindade menciona e logo abandona. A frente ampla incorpora dirigentes da burguesia ao governo e apresenta essa aliança como garantia contra o bolsonarismo. Ao mesmo tempo, a frustração com as promessas não cumpridas e a ausência de transformações econômicas profundas abrem espaço para que a própria direita apareça como oposição ao sistema político.
Outra questão ignorada pelo professor é a judicialização da política. Jair Bolsonaro foi condenado, preso e afastado das eleições; apesar disso, seu filho venceu o primeiro turno e o PL cresceu no Congresso e nos estados. Prova de que a repressão judicial não foi capaz de eliminar o bolsonarismo.
Setores expressivos do eleitorado consideram Bolsonaro perseguido politicamente. As decisões recentes contra Flávio podem reforçar essa percepção. Após a eleição, Alexandre de Moraes determinou a entrega de seus passaportes e proibiu sua saída do País. Aliados afirmaram que o senador seguia para os Estados Unidos e pretendia pedir asilo político.
A resposta de Trindade é defender mais repressão. Segundo ele, qualquer representante eleito que defenda a ditadura empresarial-militar deveria ser imediatamente cassado e preso. Trata-se de substituir o enfrentamento político das ideias reacionárias por medidas judiciais contra a manifestação de opiniões. Além de depositar fé no Judiciário, o mesmo que foi peça-chave no golpe de 2016 e pavimentou o caminho de Jairo Bolsonaro para a Presidência.
Conceder ao Estado o poder de retirar mandatos e prender parlamentares por suas declarações está longe de fortalecer a classe trabalhadora. Significa ampliar mecanismos repressivos que também serão utilizados contra a esquerda, os sindicatos e as organizações populares. Como fizeram recentemente contra o PT.
As demais soluções propostas são igualmente insuficientes. Trindade elogia a atuação bolsonarista de André Janones na campanha digital de Lula e defende redes permanentes de mobilização, além de um projeto de “soberania digital”. Mas não fala da organização da classe operária.
A classe trabalhadora aparece no artigo diluída entre “classes subalternas”, setores progressistas das classes médias e iniciativas do próprio Estado. Não surge como força independente capaz de enfrentar o capital. A mobilização popular é mencionada, mas continua subordinada às instituições e à orientação política da frente ampla.
A burguesia controla bancos, fábricas, grandes propriedades e meios de comunicação. Seu poder não será derrubado por campanhas virtuais e muito menos por decisões de tribunais. A classe operária possui uma força que nenhuma operação de propaganda pode criar: pode paralisar empresas, interromper a produção e enfrentar diretamente os proprietários dos meios de produção.
O partido nasceu das grandes greves do final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quando o movimento operário colocou a ditadura militar em crise. Sua força não surgiu de alianças com banqueiros, mas da organização dos trabalhadores. Sua direitização ajuda a compreender as limitações do atual governo e a dificuldade da esquerda em disputar a base popular do bolsonarismo.
Trindade reconhece o imperialismo e critica a conciliação de classes, mas suas propostas dependem do mesmo Estado que protege a propriedade capitalista. O que é extremamente contraditório, e só pode levar os trabalhadores à derrota.





