Polêmica

O moralismo é apenas um pretexto para votar em Tebet e Alckmin

Mônica Braga transforma a disputa presidencial em confronto entre verdade e mentira e deixa os interesses dos trabalhadores fora da discussão

No artigo O surrealismo de uma eleição: Lula diante do desafio de disputar com a mentira, publicado pelo Brasil 247, Mônica Braga anuncia uma descoberta: o Brasil não estaria escolhendo apenas um presidente, mas o valor que atribui aos fatos. Lula ocupa o lugar da verdade; Flávio Bolsonaro, o da mentira. Resolvida essa distribuição de personagens, o leitor fica dispensado de examinar programas, alianças e interesses de classe. Para votar corretamente, bastaria demonstrar apreço pela realidade.

A autora escreve: “O surrealismo está em ver um presidente com uma trajetória política de décadas precisar disputar espaço com a desinformação, as versões fabricadas e a política transformada em espetáculo. Quando a mentira ganha mais aplausos do que a verdade, a democracia enfrenta um de seus testes mais perigosos.”

Por que uma trajetória de décadas tornaria surpreendente a necessidade de disputar apoio? Um governante precisa responder pelo que faz, pelas medidas que adota e pelos interesses que atende. A experiência acumulada pode ser examinada, inclusive criticamente. No argumento de Braga, porém, ela aparece como um crédito que deveria proteger Lula da competição com um adversário considerado indigno.

O artigo inteiro funciona dessa maneira. Afirma que os fatos precisam prevalecer, mas quase não apresenta fatos que permitam examinar a disputa. Não identifica as declarações falsas que pretende combater, não reproduz os dados que as desmentiriam e não desenvolve suas consequências. A mentira é denunciada em termos gerais, como uma espécie de atmosfera que envolve o adversário. Ao leitor cabe aceitar a classificação feita pela articulista.

A passagem sobre a checagem do debate é exemplar: “Na checagem dos fatos sobre o debate eleitoral, Flávio Bolsonaro saiu em desvantagem diante das declarações confrontadas com os dados.” Qual checagem? Quais declarações? Que dados? A autora não esclarece. Justamente no ponto em que deveria demonstrar sua tese, oferece uma conclusão sem o material necessário para avaliá-la. A defesa da comprovação termina numa solicitação de confiança.

Isso não demonstra que as afirmações de Flávio sejam verdadeiras. Demonstra que Braga não fez o trabalho de contestá-las no artigo. Seria necessário apresentar a declaração, confrontá-la com os elementos disponíveis e mostrar a falsificação. O procedimento permitiria ao leitor acompanhar o raciocínio. A articulista prefere anunciar o resultado e extrair dele uma orientação eleitoral.

Mesmo uma checagem detalhada não resolveria a questão que o texto pretende encerrar. Uma eleição envolve interesses sociais conflitantes, programas e decisões sobre o poder. Um candidato pode empregar números corretos para defender uma medida contra os trabalhadores. Pode informar com exatidão o valor de uma privatização e continuar entregando patrimônio público aos capitalistas. A precisão da informação não torna progressista a política que ela procura justificar.

Da mesma forma, uma declaração falsa precisa ser combatida pelo que procura esconder ou promover. A falsificação sobre salários, por exemplo, tem um conteúdo diferente de um erro sobre a data de um acontecimento. Importam o assunto, a finalidade e o efeito político. Transformar toda a disputa numa contabilidade de afirmações verificadas permite que a orientação geral dos candidatos escape ao exame. A checagem passa a ocupar o lugar do programa.

Braga escreve que é preciso distinguir divergência política de manipulação. A distinção exige critérios e demonstração. No entanto, a estrutura do artigo coloca um candidato no campo da realidade e o outro no campo da fabricação. Depois dessa operação, que espaço resta para uma divergência sobre a candidatura apresentada como representante da verdade? A crítica é autorizada em abstrato, enquanto a conclusão eleitoral já está definida de antemão.

A autora assegura: “Criticar Lula é legítimo; cobrar resultados é necessário.” Seria útil, então, apresentar alguma cobrança. Qual política do governo precisa mudar? Que reivindicação dos trabalhadores foi abandonada? Que compromisso deve ser exigido? Não aparece nenhum. A frase cumpre a função de anunciar independência, mas não produz uma única consequência no argumento. O apoio é desenvolvido; a crítica fica na declaração de que seria permitida.

Essa é uma comodidade recorrente da propaganda da frente ampla. O trabalhador pode estar insatisfeito, pode reclamar e até apontar problemas, desde que transforme tudo isso em apoio ao mesmo campo político. Suas reivindicações não precisam ser atendidas para que seu voto seja exigido. Existe sempre uma obrigação superior: salvar a democracia, a civilização ou, na versão de Braga, a própria existência pública da verdade.

O salário, o emprego, a moradia e os serviços públicos desaparecem nessa elevação moral da campanha. O eleitor deixa de ser alguém que procura uma saída para problemas materiais e passa a fazer uma prova de responsabilidade. Se escolhe a candidatura recomendada, demonstra compromisso com os fatos. Se a rejeita, sua decisão pode ser enquadrada como indiferença diante da mentira. A política dos candidatos fica protegida por um julgamento sobre o caráter dos eleitores.

Uma orientação de esquerda deveria investigar por que uma parcela dos trabalhadores não se reconhece na candidatura que pede seu apoio. Que experiências levaram à desconfiança? Que promessas foram frustradas? Que interesses estão representados nas alianças? A resposta pode exigir uma crítica severa à própria esquerda. É muito mais simples atribuir o impasse à circulação de versões fabricadas. O problema deixa de estar na política oferecida e passa a estar na informação recebida pelo povo.

Braga encerra afirmando que a verdade precisa apresentar provas da própria existência. Apresentar provas, entretanto, é precisamente o que se deve exigir de uma afirmação. Nenhum candidato recebe o direito de ser acreditado por sua biografia, por suas intenções declaradas ou pela inferioridade do adversário.

Uma política operária precisa confrontar os candidatos com reivindicações concretas, identificar os interesses que defendem e preservar sua liberdade de organização diante de ambos. Depois de tanto invocar os fatos, deixa de lado o mais elementar: os trabalhadores têm interesses próprios, que nenhuma homenagem abstrata à verdade obriga a abandonar.

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