João Lister abre seu artigo A manhã ainda precisa de nós, publicado pelo Brasil 247, com versos de João Cabral de Melo Neto. Depois vêm a beleza do reencontro, a coragem compartilhada, a alegria das ruas, a esperança e os fios de uma “construção coletiva”. O leitor, entretanto, atravessa o texto sem descobrir o que essa multidão pretende conquistar além da eleição de Lula.
Lister descreve a participação popular pelo entusiasmo de seus integrantes e pela capacidade de produzir votos. Não examina suas reivindicações, sua organização ou sua independência diante do governo. Tudo deve desembocar no mesmo resultado: ampliar a votação do candidato da frente ampla. A manhã pode ser tecida por muitos galos, desde que todos cantem o número correto.
O autor apresenta sua orientação em termos bastante claros:
“Ampliar a votação de Lula é levar às urnas o sentido desse reencontro. Sua candidatura reúne hoje a possibilidade de manter aberto o espaço democrático, preservar direitos e prosseguir na busca de um desenvolvimento que alcance a vida da população. Essa possibilidade precisa ser sustentada por uma participação popular à altura dos riscos.”
Quais direitos serão preservados? Que medidas garantirão esse desenvolvimento? Que compromissos a candidatura assume com os trabalhadores? O artigo não informa. As promessas aparecem em tamanho suficiente para abrigar qualquer política. Um operário pode imaginar melhores salários; um empresário, novos benefícios para seus negócios. Ambos estariam participando da mesma esperança, embora seus interesses entrem em choque todos os dias.
Uma mobilização popular precisa ser examinada pelo que faz, pelo que exige e pela direção que segue. A presença de muita gente numa atividade eleitoral não resolve essas questões. Trabalhadores podem comparecer a um comício e continuar subordinados a uma orientação favorável aos patrões. Podem fazer campanha com dedicação e, depois da vitória, ser chamados a aceitar sacrifícios para preservar a governabilidade.
Lister toma a disposição de participar como prova do caráter progressista do resultado. Escreve que, ao ocupar as ruas e as redes, o povo se torna autor da própria história. A afirmação dispensa uma pergunta decisiva: quem estabelece o programa dessa participação? Se as decisões permanecem nas mãos da direção eleitoral, a multidão pode estar fornecendo energia para uma política sobre a qual não exerce controle.
Ao candidato se entrega o voto, o trabalho militante e a legitimidade da mobilização. Aos trabalhadores se oferece a perspectiva de continuar pedindo alguma coisa depois.
Esse acordo é vantajoso para quem recebe o apoio. Não exige compromisso definido, prazo ou medida concreta. A candidatura pode reunir setores com programas opostos e apresentar essa combinação como demonstração de amplitude democrática.
A passagem sobre a repressão mostra o problema com especial clareza. O autor alerta para a proposta de Flávio de radicalizar a política de repressão e tomar El Salvador como referência. O alerta poderia abrir uma discussão sobre o poder policial, as prisões e os direitos da população pobre. Em vez disso, serve para estabelecer uma diferença eleitoral cujos termos permanecem incompletos.
Que política de segurança deve ser defendida? Quais poderes repressivos precisam ser retirados do Estado? Que garantias materiais serão asseguradas aos moradores das periferias? Lister não apresenta essas respostas. A violência estatal surge como perigo associado à vitória do adversário. O leitor é convidado a confiar que o outro campo manterá abertos os espaços necessários, sem receber uma plataforma pela qual possa lutar.
O autor escreve que um Estado sem controle pode se tornar outra fonte de medo. Para uma parcela enorme da população, a questão exige uma discussão mais concreta: quem controla a polícia e a serviço de quem ela atua? A existência de procedimentos, autoridades e controles formais não elimina o caráter social da repressão. Um aparelho perfeitamente regulamentado pode continuar dirigindo sua violência contra os pobres.
Também é reveladora a defesa de uma “Justiça independente”. Independente de quais interesses? Do trabalhador que não consegue pagar um advogado? Dos empresários que dispõem de recursos para sustentar disputas durante anos? A expressão transforma uma questão de poder em qualidade abstrata de uma instituição. No artigo, a Justiça aparece como proteção do cidadão, sem que seu funcionamento precise ser submetido à crítica.
O mesmo procedimento organiza a dimensão internacional do argumento. Lister menciona as pressões de Trump e conclui que a vitória de Lula tem importância para a resistência democrática mundial. A ameaça externa é mobilizada para reforçar a disciplina interna da campanha. Qualquer cobrança passa a competir com uma responsabilidade gigantesca: proteger o Brasil e, por extensão, ajudar a proteger o restante do mundo.
A defesa da soberania exigiria apresentar medidas contra a ingerência imperialista e contra os interesses que a sustentam dentro do País. Seria necessário discutir o controle das riquezas nacionais, a dependência econômica e a atuação do grande capital. Lister oferece uma candidatura como garantia geral de resistência. A soberania assume a forma de um atributo eleitoral, que o cidadão confirma ao depositar seu voto.
As referências ao meio ambiente e à paz seguem o mesmo roteiro. São objetivos amplos, desejáveis e desprovidos de conflitos sociais identificáveis. Quem explora as riquezas naturais? Quem se apropria dos resultados dessa exploração? Quais interesses impedem as mudanças?
A insistência na alegria cumpre uma função nesse esvaziamento. Reivindicações produzem atritos: salário maior afeta o lucro, direitos trabalhistas limitam o patrão, serviços públicos exigem recursos. Já a celebração do encontro permite reunir todos sem esclarecer o que cada um pretende.





