Independência de classe

Por que a política do ‘mal menor’ não impediu a ascensão de Hitler

A social-democracia apoiou Hindenburg para barrar o nazismo; depois de reeleito, o presidente entregou a chefia do governo a Hitler

Em 1932, a social-democracia alemã apoiou a reeleição de Paul von Hindenburg à Presidência para impedir a vitória de Adolf Hitler. Hindenburg venceu e, em 30 de janeiro de 1933, nomeou Hitler chanceler. O homem apresentado aos trabalhadores como uma proteção contra o nazismo entregou o governo ao chefe nazista.

Essa experiência precisa ser examinada pelos que apresentam o apoio eleitoral ao PT como obrigação de qualquer organização marxista diante do crescimento da direita.

O pretexto é a ameaça fascista. Os trabalhadores deveriam deixar de lado suas reivindicações e apoiar o governo burguês de Lula porque a vitória do adversário representaria um perigo maior. Trata-se de uma política antiga, aplicada na Alemanha antes da chegada de Hitler ao poder. Seus defensores precisam explicar por que ela não impediu a catástrofe que prometia evitar.

Quando Mussolini chegou ao governo italiano, em 1922, a Terceira Internacional, fundada três anos antes, ainda dava seus primeiros passos. O Partido Comunista da Itália havia sido constituído em 1921, enquanto o Partido Socialista permanecia como a principal organização partidária dos trabalhadores. A experiência do combate ao fascismo ainda não havia produzido uma discussão internacional tão desenvolvida quanto a que ocorreria, uma década depois, sobre a Alemanha.

A ascensão de Mussolini já demonstrava, porém, o erro de tratar o fascismo como um fenômeno eleitoral. Os camisas-negras mobilizaram milhares de homens armados na Marcha sobre Roma e ameaçaram tomar o poder. O rei Vítor Emanuel III recusou a repressão militar proposta pelo governo e chamou Mussolini para formar um gabinete. Embora já fosse deputado, o chefe fascista recebeu o comando do governo por decisão da monarquia, sob a pressão de suas milícias.

Na Alemanha, a crise mundial de 1929 agravou o desemprego e a miséria, abalou os partidos tradicionais e favoreceu o crescimento nazista. Setores da burguesia financiaram e apoiaram Hitler para combater a classe operária. O aumento da votação do partido expressava o crescimento de suas forças, mas não explicava, sozinho, seu poder.

Hitler utilizava as eleições para recrutar, fazer propaganda e demonstrar força. Ao mesmo tempo, suas milícias atacavam militantes, intimidavam trabalhadores e preparavam a destruição das organizações de esquerda. Uma derrota nas urnas não desarmava essas forças nem eliminava o apoio dos capitalistas.

A palavra de ordem de “derrotar o fascismo nas eleições” ocultava esse problema. A própria eleição presidencial de 1932 demonstrou que Hitler podia perder uma votação e chegar à chefia do governo meses depois. A burguesia e os dirigentes do Estado que o haviam enfrentado eleitoralmente podiam negociar sua entrada no poder.

Confiar no Exército e na polícia para impedir esse avanço significava entregar a defesa dos trabalhadores às instituições da classe dominante. As divergências entre os representantes burgueses sobre um governo nazista não faziam deles aliados da luta operária contra o fascismo.

A orientação de Trótski

Expulso do Partido Comunista da União Soviética e exilado, Leon Trótski acompanhou a crise alemã e procurou corrigir a orientação do Partido Comunista. Ainda considerava os partidos da Internacional Comunista as organizações por meio das quais seria possível dirigir a luta revolucionária dos trabalhadores.

Seus textos sobre a Alemanha, especialmente os escritos entre 1930 e 1933, foram uma intervenção nessa luta. Trótski examinava as forças em confronto e propunha medidas para impedir a vitória nazista. Sua análise do fascismo respondia a uma necessidade imediata do movimento operário, diante da ameaça de destruição de suas organizações.

Os stalinistas costumam substituir essa discussão pela referência à participação soviética na Segunda Guerra Mundial. A derrota militar da Alemanha nazista, no entanto, não explica a política adotada antes de 1933. É preciso responder por que as direções dos partidos operários alemães não organizaram uma resistência capaz de impedir Hitler de chegar ao poder.

Um dos episódios mais graves foi a participação comunista no referendo de agosto de 1931, promovido pela direita e apoiado pelos nazistas para dissolver o Parlamento da Prússia. A medida visava a derrubar o governo dirigido pelo social-democrata Otto Braun.

Braun chefiava o governo prussiano; Heinrich Brüning, do Partido do Centro, católico e burguês, era o chanceler nacional. Trótski combatia os dois governos, mas rejeitava a participação dos comunistas em uma operação que favorecia os fascistas. Não havia motivo para apoiar Braun, tampouco para ajudar Hitler a substituí-lo.

O jornal comunista Die Rote Fahne, Bandeira Vermelha, procurou apresentar essa posição como apoio a Brüning. A acusação falsificava o que Trótski defendia: recusar uma iniciativa favorável aos nazistas não obrigava os comunistas a assumir responsabilidade por um governo burguês.

O “mal menor” e o sistema burguês

Brüning governava por métodos bonapartistas, recorrendo aos poderes presidenciais e aos decretos de emergência para impor decisões sem uma maioria parlamentar estável. A social-democracia tolerava seu governo sob a justificativa de impedir uma alternativa pior. A ameaça fascista servia para exigir dos trabalhadores a aceitação dos ataques de um governo de direita.

No Brasil, a defesa do recurso ao STF para contornar o Congresso, em nome do combate ao golpismo bolsonarista, reproduz o mesmo princípio: os trabalhadores devem procurar proteção nas instituições burguesas e aceitar o fortalecimento de seus poderes.

Trótski rejeitava a obrigação de escolher entre Brüning, Braun e Hitler. Como afirma na passagem reproduzida na transcrição:

“A questão de qual deles é o mal menor não faz sentido, pois o sistema contra o qual estamos lutando necessita de todos esses elementos.”

A direita tradicional, a social-democracia e o fascismo cumpriam funções distintas na preservação do capitalismo. Seus conflitos não anulavam esse fato. Um governo podia combater os nazistas em determinada circunstância e, ao mesmo tempo, enfraquecer os trabalhadores, preservar o Estado burguês e preparar as condições para uma solução fascista.

Isso não tornava indiferente o resultado de cada confronto. Trótski defendia aproveitar as divergências entre essas forças e enfrentar o perigo imediato, sem subordinar a classe operária a qualquer uma delas. Por isso, combatia tanto o apoio social-democrata a Brüning quanto a participação comunista no referendo apoiado por Hitler.

Ao auxiliar uma iniciativa nazista contra o governo prussiano, a direção estalinista também adotava, na prática, uma escolha entre males. Recusava corretamente a confiança em Braun e Brüning, mas participava de uma operação cujo beneficiário seria Hitler. A hostilidade ao governo não bastava para tornar uma ação favorável aos interesses dos trabalhadores.

Unidade para lutar

A proposta de Trótski era a frente única das organizações operárias contra o fascismo. Comunistas e social-democratas deveriam agir conjuntamente para defender sindicatos, jornais, reuniões e militantes dos ataques nazistas, mantendo seus partidos, programas e críticas.

Milhões de trabalhadores permaneciam organizados na social-democracia. Exigir que rompessem previamente com seus dirigentes para só então participar de uma luta comum deixava o movimento operário dividido diante do ataque. Era necessário propor ações às suas organizações e demonstrar, na luta, quais direções estavam dispostas a enfrentar os fascistas.

Essa unidade não exigia apoio eleitoral a um governo burguês. Trótski distinguia os acordos práticos de combate dos compromissos parlamentares que subordinavam os revolucionários à social-democracia. A defesa conjunta de uma organização operária não obrigava ninguém a abandonar sua política.

A distinção também vale para a discussão brasileira. A recusa do apoio eleitoral à frente ampla não impede a luta ao lado dos trabalhadores petistas contra a direita. O que se combate é a entrega da direção dessa luta aos aliados burgueses do PT e às instituições do regime.

De Hindenburg a Hitler

Depois de sustentar Brüning, a social-democracia apoiou Hindenburg na eleição presidencial de 1932. A cada etapa, pediu confiança em um representante da burguesia para impedir a ameaça maior. Os trabalhadores deveriam aceitar os governos existentes e esperar que seus dirigentes contivessem os nazistas.

Hindenburg nomeou Hitler chanceler. A entrada no governo permitiu aos nazistas combinar a violência de suas milícias com o aparelho repressivo estatal. Nos meses seguintes, prisões, perseguições e medidas de exceção destruíram as condições de atuação dos adversários e consolidaram a ditadura. A nomeação para a chefia do governo e a liquidação das liberdades políticas foram etapas desse processo.

Não houve uma reação unificada das organizações operárias à altura do ataque. A confiança nos governantes burgueses havia desarmado politicamente os trabalhadores, enquanto a orientação estalinista impedia sua unidade de ação. A força do proletariado alemão foi desperdiçada pelas direções que deveriam organizar a resistência.

O fracasso do “mal menor” decorre dessa subordinação. Os trabalhadores são chamados a sustentar governos que preservam a ordem responsável pelo crescimento da reação. Quando esses governos perdem apoio, exige-se uma nova concessão à direita, sempre com a promessa de evitar algo pior.

No Brasil, o PT, seus aliados burgueses, os pequenos partidos de esquerda que o acompanham e o bolsonarismo integram o mesmo regime político. Isso não significa que Lula e Flávio Bolsonaro sejam idênticos. É preciso examinar o papel de cada força na manutenção desse regime, em vez de reduzir a discussão à comparação entre dois candidatos.

O PT mantém os trabalhadores presos aos compromissos com a burguesia. Ao frustrar as reivindicações populares e conter a mobilização, favorece o crescimento da direita, que explora a insatisfação com o governo. A frente ampla agrava o problema: incorpora representantes burgueses e exige que os trabalhadores aceitem seus interesses como condição para derrotar o bolsonarismo.

Diante de uma tentativa violenta de golpe, militantes e trabalhadores ligados ao PT podem participar da resistência. A direção petista, comprometida com a conciliação e com o Estado burguês, não prepara esse enfrentamento. Sua orientação é confiar nas instituições, negociar com a direita e conter a ação independente dos trabalhadores.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.