O Hamas convocou os palestinos à mobilização em todas as cidades, aldeias e campos de refugiados contra as forças de ocupação, que expulsaram mais de duas mil pessoas de suas casas em al-Khalil, na Cisjordânia. Neste sábado (24), tropas israelenses mantinham a cidade e os povoados vizinhos cercados, demoliam imóveis e prendiam moradores.
O chamado foi divulgado na sexta-feira (23), após dois combatentes palestinos atacarem um posto militar na entrada noroeste de al-Khalil. O movimento saudou a ação como uma resposta aos crimes cometidos na Cisjordânia, em al-Quds e na Faixa de Gaza, sem reivindicar sua autoria.
“Nosso povo firme não se renderá nem cederá”, declarou o Hamas. A nota conclama os palestinos a enfrentar a ocupação e afirma que a resistência continuará até o fim da agressão e a libertação das terras palestinas. O comunicado está reproduzido na íntegra ao final desta matéria.
Demolições e expulsões
A prefeitura de al-Khalil estimou em 35 hectares a área destruída pelas forças israelenses. As demolições atingiram moradias, estabelecimentos comerciais e instalações industriais. Nos bairros de al-Jaladah e Ain Deir Bahha, os soldados obrigaram os moradores a sair e invadiram suas casas.
Fontes locais informaram que cerca de 1.500 palestinos dessas duas áreas tinham sido expulsos desde sexta-feira e que outros 2.500 estavam ameaçados de expulsão. O balanço da prefeitura já apontava mais de duas mil pessoas retiradas de suas residências em al-Khalil.
As demolições começaram em Farsh al-Hawa. A agência palestina Wafa informou que as tropas destruíram um prédio com vários apartamentos, estabelecimentos comerciais, entre eles uma empresa de pisos e cerâmicas, e arrasaram cerca de sete mil metros quadrados de terreno. Moradores ouvidos pela agência britânica Reuters afirmaram que os imóveis demolidos não tinham ligação com os autores da ação contra os soldados.
O primeiro-ministro de “Israel”, Benjamin Netaniahu, prometeu demolir áreas de al-Khalil e “transformá-la completamente”. Ordenou o cerco da cidade e os preparativos para o fechamento de toda a Cisjordânia. Declarou ainda que avaliava, com o ministro Israel Katz, uma operação de proporções não vistas desde a guerra de 1967.
Como referência, Netaniahu apontou a ofensiva contra os campos de refugiados do norte da Cisjordânia. Iniciada em janeiro de 2025, ela expulsou mais de 33 mil palestinos de Jenin, Nur Shams e Tulkarm, conforme relatório divulgado em setembro pelo escritório de direitos humanos da ONU. A maioria continuava impedida de voltar para casa.
Perseguição a ex-prisioneiros
A Sociedade dos Prisioneiros Palestinos registrou cerca de 70 prisões na Cisjordânia entre sexta-feira e a madrugada de sábado. A maioria dos presos já tinha passado pelos cárceres da ocupação. Entre os submetidos a interrogatórios estavam palestinos libertados em acordos de troca de prisioneiros.
Tropas invadiram centenas de casas e transformaram dezenas delas em quartéis e centros de interrogatório. Durante as buscas, destruíram móveis e outros pertences. Parte dos detidos foi libertada, mas as prisões e os interrogatórios de centenas de moradores continuavam.
A entidade denunciou espancamentos, ameaças e intimidação contra os presos, mantidos amarrados e vendados. Ex-prisioneiros receberam advertências contra “qualquer atividade política ou organizativa”. Os soldados também distribuíram panfletos com ameaças em várias localidades.
Em Kobar, perto de Ramala, a residência do ex-prisioneiro Nael al-Barghouti foi invadida e sofreu extensa destruição. A perseguição atingiu ainda famílias de palestinos mortos pela ocupação. Foram registradas incursões em Qalqilya, Jenin, Nablus, Jericó, Salfit, Tubas, Belém, Tulkarm e al-Quds ocupada.
A Sociedade dos Prisioneiros denunciou uma política de “retaliação coletiva”, que utiliza ações contra soldados israelenses como pretexto para ampliar prisões, demolir casas, expulsar moradores e bloquear cidades. Desde o início do genocídio em Gaza, a entidade contabilizou mais de 26 mil prisões na Cisjordânia.
Mesquita fechada
Em comunicado conjunto, o Exército israelense e o Xin Bet anunciaram uma operação de vários dias. Determinaram que os moradores só poderiam sair da área por três passagens, após interrogatórios e revistas. Qualquer pessoa considerada “suspeita” poderia ser detida.
As tropas fecharam entradas de al-Khalil, dos campos de refugiados e das cidades próximas. Em Dura, invadiram vários bairros, principalmente a região de Krisa. Na aldeia de Sama, a oeste de Dura, prenderam Thaer Tayseer depois de ele ter sido agredido por colonos israelenses. Ao sul de al-Khalil, palestinos sofreram com a inalação de gás lacrimogêneo disparado pelos soldados.
A ocupação também fechou a Mesquita Ibrahimi aos muçulmanos e expulsou seus funcionários e responsáveis pela conservação. O Ministério palestino de Assuntos Religiosos denunciou a medida como parte da tentativa de tomar o controle integral do local e eliminar sua gestão islâmica.
Ação da resistência
A ação contra o posto militar de Farsh al-Hawa ocorreu por volta das 7h30 de sexta-feira. Dois palestinos, identificados como Mohammad e Firas Jaaba, ambos de 27 anos, abriram fogo contra as forças de ocupação. Os dois morreram no confronto, que durou mais de 20 minutos e dificultou a retirada dos militares feridos.
O balanço atualizado divulgado pela emissora Al Mayadeen apontou dois soldados israelenses mortos e quatro feridos. A ação atingiu militares estacionados na entrada noroeste de al-Khalil, após o envio de reforços israelenses à Cisjordânia e o aumento dos ataques de colonos contra os palestinos.
Além do Hamas, o Hesbolá saudou a ação como uma resposta aos crimes israelenses. As Brigadas al-Quds, braço armado da Jiade Islâmica, denunciaram o terror dos colonos na Cisjordânia e o genocídio em Gaza. A Frente Popular para a Libertação da Palestina defendeu a organização de comitês de proteção popular e de uma direção unificada para enfrentar a ocupação.
Leia abaixo a íntegra da nota do Hamas, traduzida do texto fornecido:
“Comunicado do Hamas
Em nome de Alá, o Clemente, o Misericordioso
Comunicado à imprensa
A operação de qualidade e heroica na cidade de al-Khalil, na Cisjordânia ocupada, é uma expressão viva da determinação de nosso povo perseverante e uma mensagem clara ao inimigo sionista de que nossa resistência continuará e se fortalecerá até que a ocupação seja expulsa de nossa terra e de nossos locais sagrados.
Afirmamos que esta operação heroica na entrada norte de al-Khalil é uma resposta natural e legítima aos crimes contínuos e aos ataques brutais contra nosso povo, nossa terra e nossos locais sagrados na Cisjordânia ocupada e em al-Quds, bem como à agressão contínua contra nosso povo em Gaza.
Ao prantearmos, diante de nosso povo palestino e de nossa nação, os dois autores da operação, que tombaram como mártires em uma troca de tiros com soldados das forças de ocupação sionistas, afirmamos que nosso povo perseverante não se renderá nem cederá. Continuará no caminho da resistência e da rejeição à ocupação, à injustiça e à agressão, e não deporá suas armas até que a agressão termine, a ocupação de nossa terra chegue ao fim e a abençoada Mesquita de al-Aqsa seja purificada da presença dos colonos.
Convocamos nosso povo heroico em todas as cidades, aldeias e campos de refugiados a se mobilizar plenamente e a “transformar a terra em fogo” sob os pés dos ocupantes e colonos que espalharam a destruição por toda a Cisjordânia que resiste.
Convocamos todos os integrantes de nosso povo livre e nossos jovens que portam armas a dirigir seu fogo contra os ocupantes, seus soldados e seus colonos criminosos, que continuam a cometer o que descrevemos como os crimes mais hediondos contra nosso povo na Cisjordânia, em al-Quds e na Faixa de Gaza.
É a jiade — vitória ou martírio.”





