Os brasileiros votam neste domingo (25) para definir o próximo presidente da República, na disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A campanha do segundo turno terminou sem qualquer mudança à esquerda da candidatura petista. Lula reforçou a participação dos aliados burgueses, recorreu à propaganda comandada por André Janones e adotou propostas da direita, como a redução da maioridade penal. O desenvolvimento da disputa confirmou as razões do voto nulo aprovado pelo Partido da Causa Operária (PCO).
A decisão foi tomada por unanimidade na 39ª Conferência Nacional do Partido, em 11 de outubro. A nota política divulgada após a reunião explica que a oposição a Flávio Bolsonaro não justifica o apoio a uma candidatura comprometida com outro setor do grande capital. O segundo turno deu novas demonstrações desse compromisso, sem reproduzir a tendência à mobilização contra o golpe que marcou a campanha de 2022. causaoperaria.org.br
Há quatro anos, Lula chegava à eleição depois da perseguição que o levou à prisão e impediu sua participação na disputa de 2018. Sua candidatura reunia trabalhadores que queriam derrotar os responsáveis pelo golpe contra Dilma Rousseff e reverter os ataques dos governos Temer e Bolsonaro.
No segundo turno daquela eleição, houve uma mudança na campanha petista. As restrições à participação popular começaram a ser abandonadas, Lula se aproximou das massas e os aliados da direita perderam espaço nos atos. As catracas, os detectores de metal e os impedimentos à entrada de bandeiras afastavam os trabalhadores dos comícios. A superação desses obstáculos favoreceu manifestações mais radicais e classistas.
Em 2026, Lula se apresenta como chefe do governo da frente ampla. Os acordos com a burguesia determinaram a política de seu terceiro mandato e afastaram parcelas da população que o elegeram. Diante do resultado do primeiro turno, a campanha poderia ter rompido com essa orientação e recorrido à mobilização dos trabalhadores. Fez o contrário: aumentou a dependência dos aliados direitistas.
Geraldo Alckmin ampliou as articulações no interior do Sudeste, enquanto Lula pediu apoio a prefeitos e vereadores com base nos repasses federais realizados durante o mandato. A resposta ao desgaste eleitoral foi procurar as máquinas políticas e reforçar os compromissos com seus representantes.
João Campos, presidente nacional do PSB, participou das reuniões da coordenação e intensificou sua atuação pela reeleição. Alckmin também apareceu passou a ter uma participação ainda maior. Em vez de afastar os políticos burgueses para abrir espaço às reivindicações operárias, a campanha voltou a apresentá-los como responsáveis por conquistar os votos que faltavam a Lula.
Na propaganda pelas redes sociais, o PT entregou um papel de direção ao direitista André Janones. O deputado organizou o chamado Exército do Lula, por meio do qual distribuiu orientações aos apoiadores. A esquerda pequeno-burguesa passou a seguir suas instruções com entusiasmo, como se a capacidade de produzir repercussão na internet pudesse resolver o problema político da candidatura.
A atividade se concentrou em mensagens, provocações e mentiras contra o adversário. A militância foi chamada a cumprir tarefas eleitorais determinadas por um político de direita, sem organizar os trabalhadores para enfrentar os interesses que mantêm os salários baixos, o endividamento e a exploração.
Não faltaram atos eleitorais. Neste sábado (24), Lula encerrou a campanha com uma manifestação na Avenida Paulista, acompanhado no trio principal por Alckmin, Fernando Haddad, Marina Silva e Simone Tebet. A participação popular, entretanto, permaneceu submetida à frente ampla. A direção petista pediu votos para a continuidade dessa aliança, sem convocar uma luta contra a burguesia.
A campanha apresentou a reeleição como uma luta contra o fascismo. É o mesmo argumento usado pela Rede Globo e pelos setores imperialistas que procuram subordinar a esquerda à direita dita democrática. O trabalhador é chamado a apoiar os representantes do regime em nome da proteção contra um inimigo maior. As reivindicações que poderiam mobilizá-lo contra esse regime ficam de fora.
A campanha continuou à direita
A defesa da redução da maioridade penal foi uma das demonstrações mais claras da orientação adotada por Lula. Na sabatina do Jornal Nacional, em 15 de outubro, o presidente se declarou favorável à redução de 18 para 16 anos nos casos de crimes hediondos. Incorporou, assim, uma reivindicação histórica da direita contra a juventude pobre.
Nem mesmo a necessidade de conquistar votos levou o candidato petista a abandonar as concessões aos adversários. A campanha que convocava os jovens a derrotar o fascismo passou a defender o envio de adolescentes ao sistema penal dos adultos. Quanto mais a direita pressionava, mais o PT aceitava seus termos.
As promessas econômicas de última hora seguiram o mesmo curso. Depois de governar em favor dos bancos, Lula procurou compensar o descontentamento popular com benefícios concentrados no período eleitoral. A Folha de S.Paulo mencionou, em balanço publicado na véspera da votação, quase R$300 bilhões em medidas eleitorais aprovadas para 2026 e 2027.
O problema não está em destinar recursos à população, mas em usar concessões de ocasião para conseguir votos enquanto se preserva a política que prejudicou os trabalhadores durante o mandato. A compra de apoio eleitoral substituiu a disposição de enfrentar os banqueiros e os demais capitalistas.
No último debate da TV Globo, realizado na sexta-feira (23), Lula anunciou um leilão de até R$150 bilhões para comprar dívidas bancárias com desconto. Flávio Bolsonaro também apresentou promessas econômicas e sociais. Sem uma campanha petista que atacasse os interesses da burguesia, o candidato do PL pôde disputar benefícios e anúncios com o presidente.
Essa situação explica a relativa tranquilidade de Flávio na reta final, também expressa em sua postura no debate. Lula não o colocou contra a parede. Na disputa de promessas, o candidato bolsonarista pode oferecer tanto quanto o petista, pois nenhum dos dois chama os trabalhadores a lutar pela imposição de suas reivindicações aos capitalistas.
O afunilamento das pesquisas não comprova uma mudança política da campanha nem pode ser apresentado automaticamente como resultado da mobilização. Ela apenas aponta o interesse da burguesia em uma vitória apertada, seja de quem for. Um governo eleito nessas condições fica mais sujeito à pressão dos capitalistas e às manobras das instituições do regime.
A esquerda pequeno-burguesa aderiu à campanha
O segundo turno também aprofundou a submissão da esquerda pequeno-burguesa ao PT. As direções do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e da Unidade Popular (UP) anunciaram apoio a Lula entre os dias seis e oito de outubro, sem convocar suas bases para decidir a posição.
Não se limitaram a indicar um voto. O PCB orientou seus militantes a entrar nos comitês petistas e buscar votos de casa em casa. A UP convocou sua militância a votar 13 contra o fascismo e em defesa da democracia. O PSTU enumerou os ataques do governo aos trabalhadores, condenou a confiança na burguesia e terminou pedindo votos para Lula porque Flávio Bolsonaro seria pior.
As três organizações incorporaram o argumento da frente ampla. As críticas ao governo ficaram nas notas, enquanto a atividade prática passou a servir à sua reeleição. Ao entrar de cabeça na campanha e reproduzir a justificativa petista para o apoio aos aliados burgueses, essa esquerda abandonou qualquer política independente diante da disputa.
O argumento da luta contra o fascismo permite apoiar qualquer adversário de Flávio Bolsonaro. Se o único critério é impedir sua vitória, até Alckmin poderia receber o apoio dessas organizações caso fosse o candidato. Desaparece a exigência de que o voto contribua para organizar os trabalhadores em defesa de seus próprios interesses.
A adesão ao Exército do Lula, ao gesto do L e à propaganda de união nacional, com seu verde e amarelo, expressa essa adaptação. A energia militante colocada na campanha petista contrasta com a ausência de um esforço semelhante contra o golpe, contra a prisão de Lula e em defesa da Palestina. Organizações que pouco aparecem na luta política passaram a exibir sua capacidade de mobilização para pedir votos pela continuidade da frente ampla.
O PCO decidiu sua posição a partir dos interesses da classe operária. A nota do Partido estabelece que o apoio eleitoral deve favorecer candidaturas que representem os trabalhadores e sua oposição ao regime político. Lula encerrou o segundo turno ainda mais comprometido com os setores burgueses de seu governo. Seja qual for o resultado deste domingo, vencerá um candidato do grande capital.





