Em 11/10, a 39ª Conferência Nacional do Partido da Causa Operária decidiu pelo voto nulo no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. O balanço aprovado pelos delegados apontava que, apesar das diferenças entre os candidatos, ambos representavam setores do regime político e dos capitalistas. A conduta de Lula desde então tornou ainda mais difícil apresentar sua candidatura como uma opção dos trabalhadores.
O PCO rejeita Flávio Bolsonaro, candidato reacionário. Mas também recusou dar sustentação eleitoral à frente ampla petista. Em 2022, o voto em Lula tinha um motivo preciso: depois do golpe de 2016, da prisão do dirigente petista e de sua exclusão da eleição de 2018, sua candidatura expressava a oposição crescente e potencialmente radical à burguesia golpista. Lula chega a esta eleição como chefe de um governo aliado a Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Marina Silva, políticos da direita tradicional e setores do STF, defendendo encarniçadamente as instituições podrecidas do Estado burguês e prometendo um giro ainda mais à direita caso se reeleja.
Em 15/10, Lula declarou à TV Globo que defendia a redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos. Camilo Santana, líder do PT no Senado e coordenador da campanha, recolhia assinaturas para uma emenda com a mesma finalidade. A direção petista resolveu disputar votos de conservadores da classe média oferecendo mais prisões para os filhos dos trabalhadores. Quem era instado a votar em Lula para barrar a direita viu o próprio candidato adotar uma de suas principais bandeiras.
A política econômica que levou o PCO a rejeitar o apoio eleitoral continua intacta. O arcabouço fiscal limita as despesas públicas, a independência do Banco Central permanece em vigor e a Eletrobrás não foi reestatizada. Ou seja, Lula manteve plenamente o regime neoliberal. Para os endividados, Lula anuncia renegociações; contra os juros cobrados pelos bancos, não organiza luta alguma. Os banqueiros atravessaram o mandato protegidos pelas decisões do governo e chegaram ao segundo turno na mesma posição.
Já com o Bolsa Família, a pressa apareceu de repente. O piso ficou em R$ 600,00 por mais de três anos, perdendo valor com a inflação. Sua correção para R$ 691,00 foi anunciada perto do primeiro turno. Depois, o governo concentrou os pagamentos de outubro entre 19 e 21/10, antes da votação de 25/10. A população precisava receber mais e antes. Lula preferiu esperar a eleição para repor a perda acumulada e depositar o benefício na última semana de campanha.
Em São Luís, no dia 20/10, o presidente pediu mais votos e anunciou o perdão de dívidas tributárias de microempreendedores individuais. Prometeu também transporte gratuito nos fins de semana, embora isso dependa do Congresso opositor ao governo. Sancionou a lei dos MEIs no dia seguinte, embora o perdão só entre em vigor em janeiro de 2027. A poucos dias da votação, Lula apresentou uma medida futura e outra cuja realização depende dos parlamentares. A única certeza que se tem sobre elas é que foram tentativas de comprar votos dos eleitores.
Os trabalhadores endividados precisam de alívio; quem paga ônibus precisa de transporte gratuito. O governo usou essas necessidades para pedir sua permanência no cargo. Durante o mandato, manteve os bancos e os empresários do transporte a salvo de qualquer enfrentamento sério. Na reta final, passou a distribuir concessões e promessas como um comprador de votos.
Também não faltaram sinais sobre quem se sente representado pela candidatura petista. Em 17/10, Claudia Costin, José Carlos Dias e José Carlos Carvalho, antigos ministros de Fernando Henrique Cardoso, assinaram uma carta de apoio à reeleição de Lula e Alckmin. Beatriz Cardoso, filha de FHC, aderiu ao manifesto.
No debate da Bandeirantes, em 18/10, Lula poderia ter colocado em discussão salários, jornada de trabalho, privatizações e o poder dos bancos. Preferiu trocar denúncias de corrupção e ataques pessoais com Flávio. Seu governo fez 50 concessões federais de transportes entre 2023 e 2025, mais do que Bolsonaro e FHC.
A decisão do PCO não dependeu desses acontecimentos posteriores. Os delegados examinaram quatro anos de governo, as alianças de Lula e o sentido político de apoiá-lo contra Flávio Bolsonaro. Desde a Conferência, o presidente deu novas provas da orientação que já seguia. O Partido declarou sua posição e orientou seus militantes, sem promover uma campanha de agitação pelo voto nulo: “Nenhum voto nos dois candidatos do capital, trabalhador só vota em trabalhador.”





