Polêmica

Foi a frente ampla que abriu as portas para a direita

Milton Pinheiro lamenta a desmobilização dos trabalhadores, mas defende a campanha de Lula, à qual seu próprio partido subordinou a luta contra a direita

Frente Amplíssima

Em artigo publicado nesta sexta-feira (23), sob o título Quando o fascismo bate à nossa porta, o professor Milton Pinheiro, secretário nacional de Formação Política do Partido Comunista Brasileiro (PCB), apresenta um balanço alarmado da eleição presidencial. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula; para o autor, a esquerda precisa reagir, ocupar as ruas e impedir a vitória do candidato que chama de neofascista.

O artigo começa com um poema de Eduardo Alves da Costa cujo refrão é “E não dizemos nada”. Poderia ser uma confissão, pois Pinheiro admite a desmobilização da organizações populares e o peso da política econômica na derrota eleitoral. Mas o problema é pior do que a omissão descrita no poema, já boa parte da esquerda abriu a porta à direita com a frente ampla, entregou postos de governo aos capitalistas e subordinou as organizações operárias ao regime político.

O PCB ilustra bem essa contradição. Em 6 de outubro, publicou a nota Agora é Lula!, convocando seus militantes a trabalhar pela reeleição do presidente. Agora, um dirigente do mesmo partido lamenta a perda de independência da esquerda e deposita suas esperanças numa vitória da coligação com a burguesia.

A austeridade não é uma armadilha acidental

Pinheiro diz que o governo “não tem conseguido se desvencilhar das armadilhas” da austeridade fiscal e fala da insuficiência dos programas sociais e a ausência de mobilização. Trata, porém, o ajuste como uma armadilha, não como política assumida pela direção petista.

O PT conhece as exigências dos banqueiros. O governo Lula adotou o arcabouço fiscal para conter despesas públicas e preservou os pagamentos da dívida. Lula indicou Gabriel Galípolo à presidência do Banco Central, cuja ‘autonomia’ permaneceu intacta. A Selic chegou a 15% em 2025 e ainda estava em 13,75% em setembro de 2026.

Não se trata de um presidente progressista surpreendido por uma conspiração de economistas. O governo escolheu conciliar com o grande capital em vez de organizar a classe trabalhadora contra os bancos.

A reforma trabalhista de 2017 foi imposta por Michel Temer, vice-presidente eleito nas chapas do PT em 2010 e 2014 e participante do golpe que derrubou Dilma. Dez anos depois, o PT elegeu Lula com Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB, como vice, e incorporou Simone Tebet, que votou pelo afastamento definitivo de Dilma, ao governo. A aliança com a direita tornou-se o método da direção petista.

Pinheiro menciona os acordos com o Centrão e o escândalo do Banco Master, mas a dificuldade para enfrentar o STF também tem origem definida. A frente ampla transformou instituições que participaram da ofensiva contra o PT em supostas defensoras da democracia. Como mobilizar trabalhadores contra abusos do Supremo se o governo depende politicamente da autoridade de seus ministros?

O fascismo virou uma palavra para tudo

Pinheiro define o fascismo reunindo autoritarismo, conservadorismo religioso, intolerância e propaganda mentirosa. São características que podem aparecer em qualquer movimento reacionário, mas não definem o fenômeno histórico surgido na Itália e na Alemanha.

Para Leon Trótski, o fascismo não era simplesmente um governo que restringe direitos ou um candidato conservador que vence eleições. Era a mobilização contrarrevolucionária de massas, sobretudo da pequena burguesia arruinada, organizada para esmagar sindicatos, partidos e demais organizações independentes da classe operária.

Sem essa distinção, uma divergência sobre costumes ou religião pode virar prova de fascismo. A política fica reduzida a convencer os trabalhadores de que votar contra o PT equivale a instaurar o regime de Hitler. A expressão perde seu conteúdo e não esclarece como combater as forças reacionárias.

O articulista percebe que as disputas de identidade substituíram reivindicações operárias, mas oferece apenas sua incorporação a um projeto que não define. Setores identitários ocupam-se de debates sobre espaços privativos, novas tipificações penais e aumento de punições, enquanto salário, emprego e serviços públicos ficam subordinados. O endurecimento penal atinge principalmente os pobres, e a direita explora essas polêmicas para disputar o eleitorado popular.

Quando o partido só sai às ruas para pedir votos

Pinheiro lamenta que o PSOL não tenha apresentado candidato próprio no primeiro turno e imagina que uma união com PCB, PSTU e UP teria preparado melhor a disputa seguinte. Mas a submissão do PSOL à coligação petista expressa sua integração ao governo e aos acordos com a direita, política adotada há anos por sua direção.

Pinheiro admite um “quadro de desmobilização orgânica da esquerda”, mas propõe uma candidatura diferente. Inverte, assim, o problema. Um partido operário participa das eleições para organizar os trabalhadores e defender reivindicações; não organiza os trabalhadores apenas para reunir votos a cada quatro anos.

A atitude das direções ditas socialistas comprova o eleitoralismo. PCB, PSTU e UP apresentaram candidaturas e críticas a Lula no primeiro turno. Terminada a votação, chamaram voto no presidente, apesar de denunciarem sua conciliação com os capitalistas. O PCB foi além e convocou seus filiados para a campanha. Querem superar a frente ampla trabalhando pela vitória eleitoral dessa frente.

Pinheiro celebra as multidões nos atos de Lula. Por que não se convocaram manifestações dessa para exigir a revogação das reformas trabalhista e previdenciária? Por que não organizaram campanhas permanentes contra os juros, as privatizações e os privilégios dos bancos? A classe trabalhadora só deve sair às ruas para salvar um governo nas eleições?

E qual é o programa para enfrentar a direita?

Pinheiro declara: “É necessário um projeto de classe”. Promete atuação nas ruas, com ou sem Lula, mas não apresenta reivindicações capazes de romper com a economia que condenou. Não exige o fim do arcabouço fiscal, a revogação da autonomia do Banco Central nem a reversão das privatizações e reformas contra os trabalhadores. Prometer manifestações depois das eleições, sem tê-las organizado durante quatro anos de governo, pouco resolve.

A capitulação já produziu novas concessões. Em 15 de outubro, Lula apoiou a redução da maioridade penal, bandeira da direita. A campanha procura conquistar eleitores conservadores aceitando suas propostas, enquanto exige apoio incondicional da esquerda em nome do combate ao conservadorismo.

A direita não chegou à porta de surpresa. O PT convidou seus aliados para dentro do governo, e as direções de partidos que se dizem comunistas agora pedem que os trabalhadores defendam essa aliança como condição para combater o fascismo.

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