Equador

Regime equatoriano prende Luisa González, ex-candidata de Correa

Após suspender o partido do correísmo e barrar a candidatura de González, o governo Noboa avança contra sua principal adversária

Luisa González foi presa nesta quinta-feira (22/10) pela polícia equatoriana. Duas vezes candidata à Presidência contra Daniel Noboa, ela é uma das principais dirigentes do correísmo ainda em atividade no país. A polícia informou a detenção sem explicar seus motivos. O Ministério Público anunciou que apresentará acusações de lavagem de dinheiro contra três pessoas investigadas por supostas irregularidades no financiamento da campanha presidencial de 2023. Não divulgou, no comunicado citado pela imprensa internacional, as provas contra González.

“Prenderam Luisa González. JÁ CHEGA!!!”, escreveu o ex-presidente Rafael Correa. Gabriela Rivadeneira, presidente da Revolución Ciudadana (RC), exigiu que o governo informasse onde a dirigente estava e a libertasse imediatamente. Segundo a notícia da AFP, a Procuradoria não esclareceu se as acusações anunciadas agora pertencem à investigação iniciada em janeiro, quando agentes revistaram a casa de González. Na ocasião, ela negou ter recebido dinheiro da Venezuela para a campanha, acusação farsesca e típica da direita latino-americana contra políticos da esquerda nacionalista.

A acusação apareceu depois que a oposição já havia sofrido uma série de golpes na disputa eleitoral. Em 2023, González recebeu 48% dos votos no segundo turno contra Noboa. Enfrentou-o novamente em 2025, quando a RC contestou o resultado, pediu a abertura das urnas e apontou irregularidades em atas eleitorais. O recurso foi arquivado pelos aliados de Noboa na Justiça Eleitoral, mas a fraude era evidente. Noboa permaneceu na Presidência; sua adversária continuou sob investigação e acabou impedida de disputar a eleição local deste ano.

Em março, a pedido do Ministério Público, a RC foi suspensa por nove meses sob a alegação de lavagem de dinheiro. O prazo cobriu todo o período de inscrição das candidaturas, entre 2 e 17/08. As eleições locais, inicialmente previstas para fevereiro de 2027, foram antecipadas para 29/11 deste ano. A mudança colocou a votação dentro do período em que a principal legenda oposicionista estava proibida de registrar candidatos.

González tentou disputar o governo provincial de Manabí pelo Pachakutik. A Acción Democrática Nacional, partido de Noboa, apresentou uma impugnação; o Creo, outra legenda de direita, também se opôs à candidatura. O Tribunal Contencioso Eleitoral acabou barrando seu registro. Enquanto procurava uma saída para a suspensão da RC, ela recebeu pelo celular uma notificação sobre outra investigação, desta vez por suposta concussão. Primeiro impediram o partido de concorrer. Quando sua dirigente buscou outra legenda, impediram a candidatura. Agora a polícia a prende.

A perseguição não se limita a González. Correa foi condenado em 2020, teve seus direitos políticos suspensos e vive na Bélgica. Ele denuncia a condenação como uma operação para tirá-lo da política equatoriana. Em abril de 2024, policiais invadiram a embaixada do México em Quito para capturar Jorge Glas, ex-vice-presidente de Correa, a quem o governo mexicano havia concedido asilo. A invasão provocou o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países, pois viola os mais elementares tratos internacionais. Aquiles Álvarez, prefeito de Guayaquil ligado ao correísmo, também foi preso neste ano sob acusações criminais.

Noboa chama de combate ao crime a atuação de um Estado que suspende o partido adversário durante o registro eleitoral, veta sua candidata e prende dirigentes da oposição. Ao mesmo tempo, entrega o Equador aos militares e capitalistas americanos. A população rejeitou, em referendo realizado em 2025, a instalação de bases militares estrangeiras no Equador. A entrada de militares e policiais dos Estados Unidos no país, supostamente para combater o crime, prosseguiu apesar do resultado. A vontade popular vale cada vez menos quando contraria os planos do governo e de seus aliados.

A origem dessa situação está na traição de Lenín Moreno. Ele venceu a eleição presidencial de 2017 com o apoio de Correa e os votos da esquerda, apresentando-se como continuador do governo anterior. Logo depois da posse, rompeu com o correísmo e retirou poderes do vice-presidente Jorge Glas. Em 2018, convocou uma consulta que bloqueou uma possível volta de Correa à Presidência. Seu governo também promoveu a substituição dos responsáveis por órgãos judiciais e eleitorais. A direita recebeu instituições reorganizadas para agir contra os dirigentes que haviam governado o país.

Moreno não se limitou a perseguir antigos aliados. Atacou as conquistas sociais do correísmo: cortou verbas e postos no serviço público, avançou contra direitos trabalhistas, retirou subsídios e assinou um acordo com o Fundo Monetário Internacional. As medidas provocaram grandes mobilizações em 2019. Ele respondeu com estado de exceção e repressão. Eleito como candidato da esquerda, revelou-se um político de direita e neoliberal, uma espécie de Alckmin equatoriano: aplicou a política da burguesia e do imperialismo que seus eleitores acreditavam ter derrotado nas urnas.

A ruptura abriu passagem para o banqueiro Guillermo Lasso, eleito em 2021, e depois para Noboa, vencedor em 2023 e reeleito em 2025. A direita voltou ao governo sobre os escombros das conquistas atacadas por Moreno. Os processos contra Correa, a captura de Glas, a suspensão da RC e a prisão de González pertencem a essa mesma trajetória política. Não são fatos soltos nem uma súbita descoberta de crimes eleitorais pela Procuradoria.

Correa ganhou eleições, governou por uma década e elegeu seu sucessor. Ainda assim, a extrema-direita chegou ao poder. O sucessor apoiado pela esquerda, Lenín Moreno, era um homem da burguesia: acabou com conquistas sociais do correísmo e entregou à direita o caminho para retornar. Agora Noboa prende uma ex-candidata presidencial depois de impedir que ela e seu partido concorram. Vitórias eleitorais não derrotam a extrema-direita enquanto a burguesia conserva os tribunais, a polícia e as demais forças do Estado para voltar-se contra quem venceu.

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