A poucos dias do segundo turno, setores da esquerda que passaram quatro anos defendendo a frente ampla descobriram que o bolsonarismo continua forte. O desespero aparece no editorial Não verás país nenhum?, publicado pelo sítio A Terra é Redonda, que apresenta a eleição de domingo (25) como uma escolha entre a democracia e um país dominado por milícias. Não há, porém, uma única palavra sobre a política que ajudou a produzir a situação atual.
O PT chegou ao governo em 2023 aliado a Geraldo Alckmin, apoiador do golpe contra Dilma Rousseff. Incorporou Simone Tebet, Marina Silva e outras figuras da direita e, na disputa estadual do Rio de Janeiro, apoiou Eduardo Paes. A aliança apresentada como excepcional para derrotar Jair Bolsonaro tornou-se a linha permanente do partido. Agora, seus defensores exigem que os trabalhadores salvem nas urnas uma política que não escolheram e cujos resultados sentem no cotidiano.
A direita cresceu enquanto o PT fazia acordos
O editorial atribui à candidatura de Flávio Bolsonaro a ameaça de destruição da democracia, como se a força eleitoral da direita tivesse surgido sem antecedentes. Desde o chamado mensalão, em 2005, a grande imprensa, setores do Judiciário e da Polícia Federal desencadearam uma ofensiva contra o PT. Vieram a Lava Jato, a derrubada de Dilma em 2016 e a prisão de Lula em 2018. Este Diário denunciou o caráter golpista dessa campanha quando parte da esquerda aceitava sua apresentação como uma cruzada contra a corrupção.
A direção petista respondeu buscando acordos com a burguesia, não organizando sua base popular para enfrentar a ofensiva. Michel Temer, escolhido duas vezes pelo PT para a vice, participou da articulação que derrubou Dilma e assumiu o governo. Foi sob Temer que se aprovou a reforma trabalhista de 2017, com o trabalho intermitente e ataques à organização sindical, além do teto de gastos.
O que fez o PT depois? Escolheu Alckmin, outro apoiador do impeachment, para vice de Lula em 2022 e manteve a chapa em 2026. A política de alianças que deveria ser revista após o golpe foi aprofundada. Não surpreende que parte dos trabalhadores desconfie de uma esquerda que pede votos contra a direita enquanto governa ao lado dela.
Salários baixos, promessas de última hora
Para defender Lula, A Terra é Redonda enumera o salário mínimo, o Bolsa Família, a saúde pública e a promessa de tarifa zero. Mas o editorial passa por cima dos limites das medidas anunciadas.
O salário mínimo teve aumentos reais modestos, insuficientes para recuperar o poder de compra necessário a uma família trabalhadora. A reforma trabalhista de Temer não foi revogada. Milhões continuam na informalidade, sem carteira assinada e sem as garantias que deveriam acompanhar o emprego. A política fiscal do governo impõe limites à expansão dos serviços públicos enquanto preserva os compromissos com os credores da dívida, que nunca pensou sequem em auditar.
O Bolsa Família é necessário para milhões de famílias, é verdade. No entanto, por que, após tantos anos de governos petistas, a pobreza continua exigindo sucessivas operações de socorro? A proposta inicial do Orçamento de 2027 não previa reajuste do benefício. A correção anunciada durante a campanha não modifica o fato de que o valor mínimo ficou anos sem atualização. Em lugar de tratar a transferência de renda como prova de transformação social, seria preciso discutir empregos, salários e o controle da economia pelos grandes capitalistas.
O mesmo vale para o SUS. Defender a saúde pública em discursos não substitui contratar profissionais, equipar hospitais e ampliar a rede de atendimento. O orçamento da saúde permanece condicionado às regras fiscais, enquanto o governo evita enfrentar os interesses financeiros que consomem recursos do Estado.
A tarifa zero, apresentada no editorial como compromisso de Lula, tornou-se proposta de campanha às vésperas da votação, inicialmente restrita aos fins de semana e dependente de aprovação parlamentar. O transporte gratuito não foi implantado como política nacional durante o mandato. Promessas anunciadas no último momento não podem ser apresentadas como conquistas já realizadas.
A democracia do STF não serve aos trabalhadores
O editorial afirma que a democracia está por um fio e descreve a vitória de Flávio Bolsonaro como a abertura de um regime de perseguição política. Mas por que o mesmo zelo não aparece quando o STF restringe direitos democráticos?
Em 2022, Alexandre de Moraes determinou o bloqueio das contas do Partido da Causa Operária (PCO) nas redes sociais. A decisão atingiu os meios de expressão de um partido político durante o ano eleitoral. A maioria da esquerda se calou pois o alvo era uma organização que criticava o Supremo e defendia a liberdade de expressão. O que denota uma completa falência dessa esquerda.
A Constituição garante a manifestação política. Essa garantia não pode depender da simpatia dos ministros por determinadas opiniões. O fortalecimento do STF e a aceitação de medidas de censura tinha como desculpa o combate ao bolsonarismo.
O editorial chega a denunciar a influência do crime organizado nas eleições legislativas, mas não explica como seria possível enfrentar tal problema entregando mais poderes às instituições do regime. A questão é saber que liberdades possuem os trabalhadores para se organizar, criticar o governo e defender suas reivindicações, inclusive contra a própria frente ampla.
O problema do “Bolsonaro, não”
O texto termina com a palavra de ordem “Bolsonaro, não!”. Mas é justamente aí que se encontra o problema. Bolsonaro, não; Alckmin, sim? Tebet, sim? Eduardo Paes, sim? Essa política baseada apenas na rejeição de um adversário serve para justificar qualquer acordo, desde que apresentado como necessário para derrotá-lo.
Não basta chamar a direita de fascista e seus aliados ocasionais de democratas. Temer governou por meio das instituições existentes e promoveu um ataque brutal aos direitos trabalhistas. Alckmin apoiou a derrubada de Dilma e tornou-se vice-presidente de Lula. As alianças buscam transformaram esses políticos, inimigos dos trabalhadores, em representantes da classe operária.
Pior: quem critica a frente ampla é frequentemente tratado como bolsonarista. O PCO, por exemplo, que decidiu pelo voto nulo no segundo turno, é atacado por se recusar a participar dessa política. O Partido, que jamais votaria em Flávio Bolsonaro, sustenta que os trabalhadores precisam de uma organização independente da burguesia, o que está correto. A resposta a essa divergência deveria ser o debate político, não a tentativa de transforma qualquer oposição à frente ampla em apoio à extrema direita.
A esquerda deveria ter se preocupado com o avanço da direita quando Lula preservou a reforma trabalhista, manteve os acordos com os partidos burgueses e se apoiou nas instituições que participaram da ofensiva contra o PT. Preferiu, no entanto, tratar cada crítica como ameaça à democracia. Agora se espanta porque uma parcela da população trabalhadora não demonstra entusiasmo pela candidatura petista.
Parte da classe trabalhadora está apenas recusando uma política que promete defendê-lo enquanto faz concessões aos seus adversários. Se a esquerda continuar substituindo um programa de luta pelo apelo desesperado ao voto, o problema não desaparecerá na noite de domingo, qualquer que seja o resultado das urnas.





