No artigo A eleição, a luta pela vida e a troca de guarda na esquerda, publicado nesta quinta-feira (22) no Brasil 247, Bepe Damasco afirma que as manifestações realizadas durante o segundo turno representam uma “bem-vinda troca de guarda geracional no protagonismo da esquerda brasileira”. O entusiasmo ignora que a direção política da esquerda institucionalizada não mudou. O PT, ao contrário, aprofundou seus acordos com a direita que participou da ofensiva contra o próprio partido.
Geraldo Alckmin continua vice. Simone Tebet e Marina Silva foram incorporadas à frente ampla. No Rio de Janeiro, o PT abriu mão de uma candidatura própria para apoiar Eduardo Paes, do PSD. A aliança apresentada em 2022 como excepcional tornou-se a orientação permanente de Lula. A entrada de jovens nas manifestações não altera esse fato. Renovação exigiria outro programa, outras alianças e outra relação com os trabalhadores.
A direita não apareceu do nada
Damasco chama o crescimento da extrema direita de “advento” que alterou as regras da democracia. Assim, a eleição deixaria de ser uma disputa entre programas para se transformar numa luta pela vida. Mas o avanço do bolsonarismo possui uma história política concreta, da qual não se pode retirar a atuação do PT e das instituições que hoje o partido apresenta como defensoras da democracia.
Desde o escândalo do mensalão, em 2005, a grande imprensa, o Judiciário e setores da Polícia Federal desenvolveram sucessivas campanhas contra o PT. O julgamento no Supremo, em 2012, reforçou a ofensiva. Mais tarde vieram a Lava Jato, a derrubada de Dilma Rousseff em 2016 e a prisão de Lula em 2018, que o impediu de disputar aquela eleição. Este Diário denunciou o caráter golpista dessa operação enquanto parcelas da própria esquerda tratavam a ofensiva como um combate legítimo à corrupção.
Em vez de mobilizar sua base operária e popular contra esses ataques, a direção petista procurou preservar suas relações com a burguesia e com as instituições do regime. Hoje, o governo elogia a PF e deposita no STF a tarefa de combater o bolsonarismo. Esses aparelhos de Estado passaram a ser apresentados como garantias contra a direita. O resultado não foi o desaparecimento do bolsonarismo, mas seu fortalecimento eleitoral depois de quatro anos de governo Lula.
Temer foi escolhido pelo PT
A trajetória de Michel Temer deveria alertar sobre o perigo dessa política. Ele não chegou à Vice-Presidência por uma imposição de Bolsonaro. Foi escolhido pelo PT para compor as chapas de Dilma Rousseff em 2010 e 2014. Em 2016, participou da articulação que derrubou a presidenta e assumiu o governo. Enquanto a Câmara votava o impeachment, Temer preparava a formação de seu governo.
O governo Temer aprovou a reforma trabalhista de 2017, que ampliou o trabalho intermitente, fortaleceu a negociação em prejuízo de garantias legais e enfraqueceu financeiramente os sindicatos. Também impôs o teto de gastos, restringindo as despesas públicas por duas décadas. Tudo isso foi feito por um governo surgido do golpe, sem implantar um regime fascista.
O PT, porém, não rompeu com sua política de aliança com a direita. Em 2022, escolheu Alckmin — que havia apoiado o impeachment — para vice de Lula. Quatro anos depois, conserva a aliança e acrescenta outros representantes dos partidos burgueses. A defesa da democracia serve, assim, para justificar cargos aos que ajudaram a derrubar Dilma.
E os direitos dos trabalhadores?
Damasco justifica seu apoio a Lula pela defesa dos “direitos dos trabalhadores e aposentados”. Quais direitos, precisamente? A reforma trabalhista de Temer não foi revogada pelo governo Lula. Permanecem o trabalho intermitente e dispositivos que retiraram força dos sindicatos. A política econômica continua submetida ao arcabouço fiscal e a acordos com os grandes empresários e banqueiros.
Os números do próprio IBGE mostram o tamanho do problema. Em maio de 2026, havia cerca de 38,3 milhões de trabalhadores informais, 37,3% da população ocupada. A redução do desemprego não restituiu os direitos perdidos. Para milhões de pessoas, trabalhar continua significando não ter carteira assinada nem as garantias que deveriam acompanhar o emprego.
Damasco fala em defender a educação, a saúde e as aposentadorias contra a direita. Mas não explica como o governo pretende fazê-lo sem enfrentar os bancos, o Congresso e os aliados burgueses que integram sua própria sustentação. A campanha pede a mobilização popular para preservar um governo que, diante de cada conflito importante, procura um acordo com esses setores.
O que há de antifascista nos atos?
O jornalista chega a anunciar “o maior movimento antifascista da história do Brasil”. Não apresenta, contudo, fatos capazes de sustentar tamanha afirmação. Há manifestações contra Flávio Bolsonaro, com presença de jovens, estudantes, artistas e militantes. Parte dos participantes teme um novo governo bolsonarista, o que não constitui, por si só, um movimento antifascista organizado contra o regime e a burguesia.
Também é preciso distinguir o caráter reacionário do bolsonarismo do fascismo como fenômeno histórico. O fascismo se caracterizou, entre outras coisas, pela mobilização contrarrevolucionária organizada para esmagar sindicatos e partidos operários. Bolsonaro atacou direitos e fez ameaças autoritárias, mas seu governo não implantou um regime fascista desse tipo. Já Temer, perfeitamente integrado às instituições da democracia burguesa, promoveu ataques profundos à legislação trabalhista e às organizações sindicais.
Chamar toda a direita de fascista e apresentar todos os aliados de Lula como democratas encobre essa contradição. Alckmin, Tebet, Marina e Paes não se tornaram representantes dos interesses operários porque compõem uma frente com o PT. A divisão eleitoral entre Lula e Flávio não apagou os interesses de classe defendidos pelos partidos da frente ampla.
Juventude nas ruas não é troca de direção
A participação da juventude exige mais que o deslumbramento de Damasco. Uma parcela importante dessas pessoas vai às ruas porque tem medo da vitória de Flávio Bolsonaro, não porque esteja satisfeita com o governo Lula. Esse comparecimento revela disposição para agir politicamente, mas não se trata adesão ao petismo, muito menos o surgimento de uma direção revolucionária.
O caráter parcialmente espontâneo dos atos revela a distância crescente entre as massas e as direções tradicionais da esquerda. O PT concentrou sua atividade na disputa de cargos e nos acordos institucionais. Quando precisa mobilizar, convoca os trabalhadores apenas para salvar a candidatura. Uma verdadeira renovação teria de romper com essa orientação e organizar a luta por salários, empregos, direitos e contra a repressão, independentemente do calendário eleitoral.
Damasco comemora a presença de jovens e adultos nas praças. Mas que mudança política será produzida se essas pessoas forem utilizadas apenas para garantir mais quatro anos de governo à frente ampla? A mobilização popular não pode se limitar a escolher qual aliança administrará o Estado. Precisa desenvolver suas próprias organizações e uma direção capaz de enfrentar a burguesia. E não é isso que está acontecendo.





