A Procuradoria-Geral da Flórida anunciou, na segunda-feira (19), um mandado de prisão contra Raúl Castro, de 95 anos, ex-presidente de Cuba e uma das principais figuras da Revolução Cubana. A acusação, apresentada pelo procurador James Uthmeier, atribui a Castro participação numa suposta conspiração para cometer homicídio em primeiro grau. A medida acrescenta uma nova frente à ofensiva imperialista contra a ilha, submetida a décadas de bloqueio econômico que se intensificou em 2026.
O caso remonta a 24 de fevereiro de 1996, quando caças cubanos derrubaram dois aviões da organização Hermanos al Rescate, sediada em Miami. As aeronaves faziam atividade de provocação e ameaça real a Cuba, mesmo que tenham sido atingidas fora do espaço aéreo territorial de Cuba, porque haviam invadido esse espaço com expectativa de promover a derrubada do governo. A reação de Cuba causou a morte de quatro mercenários. Na ocasião, Raúl Castro era ministro das Forças Armadas Revolucionárias. A Procuradoria da Flórida afirma que ele autorizou a operação, alegação que fundamenta o novo mandado, mas que não equivale a uma condenação judicial.
A ação estadual se soma à acusação federal apresentada em maio pelo Departamento de Justiça dos EUA. Uthmeier reconheceu que dificilmente Castro comparecerá a um tribunal dos Estados Unidos. Segundo ele, a ordem poderá, entretanto, restringir as viagens internacionais do dirigente cubano, particularmente a países que mantenham acordos de extradição com Washington.
A Procuradoria da Flórida é altamente influenciada pela máfia cubana de Miami. Essa máfia, por sua vez, é composta por autoexilados após o triunfo da Revolução, em 1959. Muitos deles eram empresários ou burocratas que enriqueciam com a exploração do povo cubano sob a ditadura de Fulgencio Batista. Marco Rubio, que foi senador pela Flórida antes de se tornar secretário de Estado, é um dos expoentes desse canil.
E a máfia cubana de Miami, que tem um alto poder de articulação na burocracia imperialista sediada na Flórida, também está diretamente envolvida com o caso de 1996.
Hermanos al Rescate, assim como outras organizações terroristas que realizaram atentados contra Cuba, era organizada e financiada desde a Flórida. Realizou voos próximos e, em ocasiões anteriores, dentro do espaço aéreo cubano. Havana já havia protestado contra essas incursões.
Os quatro mortos eram mercenários pagos para realizar atentados terroristas contra Cuba. Naquele momento, o imperialismo havia imposto o mais brutal cerco à ilha desde a Revolução. A URSS havia caído e Cuba havia sido isolada econômica e até politicamente. O bloqueio, iniciado no início da década de 1960, gerava apagões diários que duravam horas, escassez de combustíveis e mesmo falta de certos alimentos. As operações organizadas desde a Flórida, com o apoio da CIA, procuravam aumentar o caos: algumas delas infiltravam terroristas para explodir bombas em hoteis, outras tinham aviões que sobrevoavam Havana soltando panfletos de agitação contrarrevolucionária.
A ação atribuída a Raúl Castro foi uma medida necessária para defender a Revolução de um ataque do imperialismo.
O novo mandado aparece 30 anos depois do acontecimento, num momento em que o governo de Donald Trump intensifica sua política de estrangulamento contra Cuba, repetindo e piorando a situação do chamado “Período Especial”. Ao anunciar a decisão, Uthmeier falou em perseguir uma suposta “conspiração comunista”, deixando evidente o caráter ideológico da iniciativa, que é mais motivado pela pressão da máfia cubana de Miami, profundamente anticomunista, do que do próprio Trump.
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, denunciou a iniciativa como uma encenação promovida em Miami, sem fundamento jurídico ou prático. Segundo ele, trata-se de uma manobra dirigida não apenas contra Raúl Castro, mas contra Cuba, destinada a justificar o bloqueio e a punição coletiva imposta à população. Sua denúncia é exata.
Desde janeiro, os Estados Unidos ampliaram a pressão sobre o fornecimento de petróleo à ilha. A interrupção de remessas vindas de parceiros comerciais agravou os apagões, as dificuldades de transporte, a escassez de alimentos e o funcionamento precário dos serviços públicos. Uma reportagem do UOL, publicada na segunda-feira (19), relatou moradores de Havana passando dias sem água e eletricidade, com dificuldades até para conservar alimentos e obter medicamentos. À reportagem, a pesquisadora brasileira Aline Recalcatti declarou: “É um genocídio contra os cubanos”.
É contra essa população, já submetida a enormes dificuldades materiais pelos próprios EUA, que a maior potência militar do planeta aplica sua política de coerção. O governo norte-americano dispõe de recursos econômicos, militares e diplomáticos incomparavelmente superiores aos de Cuba, mas utiliza essa vantagem para dificultar o comércio e o abastecimento de um país pequeno, cuja população paga diretamente o preço das sanções.
O bloqueio não começou com Trump. Oficializado em 1962 e mantido por governos republicanos e democratas, é um dos instrumentos mais duradouros da política imperialista dos Estados Unidos na América Latina. Seu efeito político é pressionar o governo cubano a modificar suas posições, utilizando restrições econômicas e financeiras que também atingem a vida cotidiana de milhões de pessoas. É uma tentativa de derrubar a Revolução, que não se dobra.
A rejeição internacional é ampla. Em outubro de 2025, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, por 165 votos favoráveis, uma resolução pedindo o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba. Ainda assim, Washington manteve e ampliou suas medidas. Nesta semana, antes de uma nova votação na ONU, o governo cubano acusou os Estados Unidos de pressionar outros países para que deixem de apoiar a condenação do bloqueio.
O mandado contra Raúl Castro reforça a mesma orientação de ingerência. Ao lado das sanções econômicas, Washington procura impor a Cuba as decisões de seus próprios tribunais, na expectativa de constranger dirigentes de um Estado soberano, assim como fez com Nicolás Maduro, presidente da Venezuela sequestrado e preso nos EUA.



