A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (21) mostrou uma redução da diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro. O candidato do PL aparece com 45% das intenções de voto, contra 44% do presidente. Na semana anterior, a diferença era de dois pontos percentuais. Agora é de apenas um. Os dois estão tecnicamente empatados.
Outro dado chama a atenção: pela primeira vez desde agosto, o medo da volta dos Bolsonaro ao poder, manifestado por 44% dos entrevistados, supera numericamente o medo da reeleição de Lula, indicado por 42%.
Seria um erro atribuir essa aproximação simplesmente aos méritos da campanha petista. A campanha de Lula é extremamente limitada, tanto do ponto de vista político quanto programático. O presidente praticamente abandonou qualquer perspectiva de mobilização popular e procura disputar os votos no terreno escolhido pela própria direita.
O debate realizado pela Band, no último domingo (18), mostrou isso. No lugar de uma discussão sobre os problemas fundamentais do País, assistiu-se a uma troca de acusações de corrupção, mentiras, escândalos familiares e provocações pessoais. Lula procurou enfrentar Flávio Bolsonaro com os mesmos instrumentos tradicionalmente utilizados pela direita contra o PT. Ou seja, corroborou as principais ideias da direita, abandonando as da esquerda na questão da segurança pública, da moralidade, do encarceramento etc.
Naturalmente, a campanha pode ter conseguido algum resultado com essa política. Mas isso não significa que a redução da diferença nas pesquisas seja uma demonstração de força do petismo. É preciso examinar a situação política mais ampla e, sobretudo, os interesses da burguesia diante da possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro.
Contrariando as pesquisas eleitorais, Flávio Bolsonaro ficou em primeiro lugar no primeiro turno, com mais de 47% dos votos. Lula terminou em segundo, com 45%. Em determinado momento da apuração, o filho de Jair Bolsonaro ultrapassou os 50%. Foi uma vitória maiúscula. No segundo turno, a maioria dos eleitores dos candidatos que ficaram logo atrás de Flávio e Lula irá votar no senador do PL. Portanto, Flávio Bolsonaro poderia ter uma vantagem ainda maior sobre Lula do que aquela que foi vista ao final do primeiro turno.
Mas a burguesia não aceita que nenhum dos dois candidatos vença por uma margem folgada. Seria dar a eles um moral que não podem ter, para não se sentirem independentes da burguesia. Precisam estar com a coleira muito apertada para se sentirem obrigados a aplicar a política dos banqueiros e especuladores financeiros.
A direita já conquistou posições importantes no Congresso Nacional e nos governos estaduais. Uma vitória presidencial expressiva daria a Flávio Bolsonaro uma autoridade política adicional, ampliando sua capacidade de pressão sobre as demais instituições.
Esse cenário não é necessariamente conveniente para todos os setores da burguesia. Uma coisa é aceitar um governo Bolsonaro, capaz de aplicar uma política econômica favorável aos grandes capitalistas. Outra é entregar a esse governo uma legitimidade eleitoral tão ampla que lhe permita impor suas próprias condições às diferentes frações da classe dominante.
A burguesia brasileira atravessa uma situação política complicada. As disputas institucionais, os conflitos entre as diferentes organizações da direita e a própria instabilidade do regime tornam difícil estabelecer um equilíbrio duradouro entre os setores que controlam o Estado.
Uma vitória apertada de Flávio Bolsonaro deixaria o novo governo numa posição diferente daquela produzida por uma vitória esmagadora. Ele teria de negociar permanentemente com o Congresso, os governadores, os partidos tradicionais e os demais centros de poder. Ficaria totalmente vulnerável às pressões do capital financeiro.
Da mesma maneira, uma vitória estreita de Lula manteria o presidente dependente das alianças com a direita e das negociações com os grandes empresários, como aconteceu nos últimos quatro anos. Nenhum dos dois sairia das urnas com uma autoridade política incontestável.
É nesse sentido que a redução da diferença nas pesquisas pode ser interpretada dentro de um quadro mais amplo de disputa pelo controle do regime.
A campanha petista, entretanto, não apresenta uma alternativa a essa situação. Lula cerca-se dos maiores bandidos políticos que se encontra no País (Alckmin, Tebet, Eduardo Paes, Alexandre de Moraes, Dino, Gilmar Mendes etc). Embora a militância petista nutra as mais fantasiosas ilusões, Lula e o PT estão se distanciando em alta velocidade do povo trabalhador. Assim, mesmo quando recupera terreno eleitoral, Lula não demonstra uma mudança equivalente na orientação política.
O problema central não é saber se Lula conseguiu melhorar alguns pontos nas pesquisas por meio de sua propaganda eleitoral. É compreender que a disputa presidencial acontece num momento de profunda crise política, em que diferentes setores da burguesia procuram preservar sua capacidade de controlar o próximo governo.
A aproximação entre os candidatos, portanto, não deve ser confundida com uma recuperação política da esquerda. Os números mostram uma eleição disputada. Não demonstram que Lula tenha conquistado uma nova base de apoio popular mobilizada em torno de um programa de transformação do País.





