Em artigo publicado na segunda-feira (19) no sítio Outras Palavras, intitulado Para vencer o fascínio fácil do fascismo, João Carlos Salles tentando explicar o apoio popular à direita, apela para o poder dos mitos, da propaganda e das emoções. Jogando para o segundo plano aquilo que é fundamental, que é entender quais forças políticas abriram caminho para o crescimento da direita.
Salles recorre a Georgi Dimitrov, ao filósofo Ernst Cassirer e ao exemplo do lógico alemão Gottlob Frege, que teria adotado posições antissemitas. Pergunta por que o fascismo atrai até aqueles que serão suas vítimas. Frege seria a demonstração de que educação e inteligência não impedem a adesão a ideias reacionárias.
Salles reconhece que o fascismo não pode ser reduzido à psicologia. Cita Dimitrov e menciona os limites dessa explicação. Mas dedica a maior parte do texto ao mito, à linguagem e à vulnerabilidade da consciência individual. A luta de classes acaba subordinada a uma reflexão sobre a formação cultural das pessoas.
O fascismo não surgiu porque milhões de europeus ouviram discursos sedutores. Surgiu da crise capitalista e da ofensiva da burguesia contra a classe operária. Na Itália e na Alemanha, movimentos fascistas mobilizaram setores da pequena burguesia para destruir sindicatos, partidos operários e conquistas democráticas. A propaganda foi um instrumento dessa ofensiva, não sua causa.
O próprio Dimitrov, citado por Salles, ofereceu uma difere ao sustentar que os fascistas apelam às necessidades mais urgentes das massas e não estava recomendando uma investigação sobre a personalidade de seus eleitores. Chamava atenção para a capacidade de uma força reacionária de explorar o abandono dessas necessidades pelas organizações tradicionais. A uma família que não consegue pagar as contas, será simples demonstrar que o discurso bolsonarista é contraditório e convencê-la a não aderir? Antes, é preciso apresentar uma saída material e organizar a luta política por ela.
No Brasil de 2026, procurar na cabeça dos eleitores a explicação para o avanço da direita impede que se examine a atuação dos governos e dos partidos de esquerda. Por que parte dos trabalhadores vê nos bolsonaristas uma alternativa? A resposta está nas condições de vida dessa população e na política daqueles que diziam representá-la.
O PT governou o Brasil entre 2003 e 2016 e voltou ao Palácio do Planalto em 2023. Depois de quase duas décadas à frente do governo federal, já não aparece para uma parcela importante da população como uma força de oposição ao regime político, mas como um de seus principais administradores. A escolha de Geraldo Alckmin para a vice de Lula, a aliança com os partidos tradicionais e a defesa do Supremo Tribunal Federal como bastião da democracia só reforçaram essa identificação.
Em setembro de 2026, a taxa básica de juros ainda estava em 13,75% ao ano após ter atingido 15% ao ano. Os bancos continuam a receber enormes recursos, enquanto a população enfrenta endividamento, salários insuficientes e serviços públicos precários. A direção petista denuncia os excessos do neoliberalismo, mas conserva os mecanismos centrais da política econômica favorável ao capital financeiro.
O manifesto do 8º Congresso do PT, em abril, reconheceu o fracasso das promessas neoliberais. Como mostrou este Diário em 29 de abril, o documento não propôs romper com o ajuste fiscal, as privatizações ou o domínio dos bancos. Não é um problema de comunicação, mas de programa.
A direita explora politicamente a revolta que essa situação produz. Apresenta-se como inimiga do sistema enquanto a esquerda institucional assume a defesa das instituições e administra a mesma política econômica neoliberal que promete combater. A esquerda abandona a luta por salário, emprego e direitos, oferece à direita um terreno muito mais favorável para organizar sua influência e depois acusa o trabalhador descontente de fascista.
A desmobilização promovida pelas direções sindicais também tem consequências. Ao substituir greves e mobilizações por negociações de gabinete e campanhas eleitorais, a esquerda deixa os trabalhadores sem instrumentos para enfrentar patrões e governos. Em política não existe vazio, por isso as organizações da direita passam a explorar a insatisfação, prometendo ordem e mudanças que não pretendem realizar. A fraqueza da esquerda facilita a atividade dos grupos reacionários.
O recuo também aparece na repressão. Neste 15 de outubro, Lula declarou apoio à redução da maioridade penal para a idade de 16 anos em crimes hediondos, posição historicamente defendida pela direita. Camilo Santana já havia apresentado proposta semelhante. Essa medida política que amplia a perseguição contra a juventude pobre. A direção do PT não está apenas falhando em combater ideias reacionárias; passou a defender uma delas em busca de votos conservadores.
O resultado é que o eleitor ouve o PT pedir apoio para impedir o avanço da direita enquanto seus dirigentes adotam uma parte cada vez maior do programa dos adversários. A frente ampla não mobiliza os trabalhadores contra os capitalistas. Pelo contrário, exige que a esquerda abandone suas reivindicações para governar ao lado de representantes da burguesia.
Em vez de enfrentar essas questões, Salles se pergunta por que a informação e o conhecimento não bastam para romper o fascínio do fascismo. A pergunta pressupõe que o principal obstáculo esteja na compreensão do eleitor. Mas um trabalhador não escolhe sua posição política somente pelo que sabe sobre um candidato. Sua experiência com os governos, os patrões, a polícia e os partidos pesa muito mais do que a refutação de uma mentira nas redes sociais.
No encerramento, Salles recorre a Cassirer e à “participação ativa na construção e reconstrução cultural do homem”. Essa fórmula, porém, não identifica quais forças sociais devem ser mobilizadas, quais reivindicações, contra quais interesses econômicos lutaria.
É ilusão acreditar que o crescimento da extrema direita será interrompido por uma campanha para tornar os eleitores mais resistentes ao mito. É preciso romper com a política que transforma a esquerda em gerente do regime, enfrentar os interesses dos bancos e organizar os trabalhadores independentemente da burguesia. A crise do neoliberalismo e a capitulação da esquerda explicam muito mais sobre o fortalecimento da direita do que qualquer suposto mistério a respeito da fascinação humana.





