O governo de Narendra Modi mandou prender dirigentes de um partido comunista, estudantes, advogados e jornalistas para impedir os protestos de 10/10 contra a fraude eleitoral. Entre os detidos estavam o secretário-geral do Partido Comunista da Índia (Marxista), M. A. Baby, e integrantes do Birô Político e do Comitê Central. A polícia bloqueou o local da manifestação em Nova Délhi, interrompeu o transporte e capturou organizadores ainda dentro de um avião.
O comunicado divulgado pelo próprio partido informou que “quase toda a direção” foi levada sob custódia. O ataque aos comunistas integrou uma operação que, segundo os balanços publicados pela imprensa, deixou entre dois mil e 2.500 detidos somente na capital.
Os manifestantes exigiam a saída do presidente da Comissão Eleitoral, Gyanex Kumar, responsável pela chamada Revisão Intensiva Especial, conhecida pela sigla inglesa SIR. Partidos de oposição denunciam que o procedimento retirou cidadãos aptos a votar dos registros e favoreceu o Partido do Povo Indiano (BJP), de Modi. O regime respondeu à contestação com uma ofensiva contra as organizações que convocaram o protesto.
Segundo o comunicado, o parlamentar Sivadasan ficou ferido durante as agressões policiais. Pinarayi Vijayan, K. N. Balagopal e John Brittas passaram horas dentro de um veículo da polícia, sem acesso a comida, água e medicamentos necessários. Mulheres levadas à delegacia de Maurya Enclave, entre elas Mariam Dhawale, integrante do Birô Político, foram impedidas de usar o banheiro. Os agentes também recolheram celulares de militantes, incluindo o parlamentar A. A. Rahim.
Cerco à capital
A Reuters, citando um funcionário do Ministério do Interior, informou cerca de dois mil detidos em Nova Délhi. O jornal The Hindu, com base em fontes da polícia local, apresentou um número próximo de 2.500. Em Mumbai, a agência ANI registrou outras 600 prisões. Os números se referem a balanços distintos da mesma jornada repressiva.
Milhares de policiais e integrantes de forças paramilitares foram enviados às ruas da capital. Jantar Mantar, local previsto para a concentração, foi cercado antes do início do ato. Agentes montaram barreiras nas entradas da cidade, revistaram veículos e entraram em ônibus à procura de manifestantes. Blocos de concreto interromperam o trânsito, enquanto veículos equipados com lançadores de gás lacrimogêneo guardavam as principais vias.
O governo suspendeu a internet móvel na região comercial central. Dezenas de estações de metrô e estabelecimentos comerciais fecharam. As restrições dificultaram tanto a chegada dos participantes quanto a comunicação entre eles. Para impedir uma manifestação, as autoridades interferiram na circulação de uma cidade de aproximadamente 20 milhões de habitantes.
Os fundadores do movimento juvenil Cockroach Janta Party (CJP), cujo nome satírico faz referência às baratas, foram capturados assim que seu avião chegou de Mumbai. Abhijeet Dipke, Saurav Das e Axutox Ranka estavam dentro da aeronave quando os policiais entraram.
Segundo a advogada Ratna Singh, os três foram libertados no dia seguinte, sob a condição de não cometerem “perturbação da paz durante um ano”. A prisão ocorreu antes de sua chegada ao protesto. A exigência imposta para a soltura prolongou a ameaça de punição sobre a atividade dos organizadores.
Em artigo publicado em 14/10, o marxist.com relatou que Das e Ranka foram presos novamente, dessa vez depois de exibirem a bandeira nacional em Jantar Mantar. A libertação anunciada no dia 11, portanto, não encerrou a perseguição aos dirigentes do movimento.
Estudantes e imprensa perseguidos
A operação também atingiu o Partido Comunista da Índia (Marxista-Leninista). Seu secretário-geral, Dipankar Bhattacharya, foi detido, assim como Neha Bora, presidente nacional da Associação de Estudantes de Toda a Índia, vinculada à organização. A polícia levou ainda o advogado Praxant Bhuxan e o produtor de vídeos Dhruv Rathee, conhecido pelas críticas a Modi.
A Al Jazeera registrou as detenções de Mamata Banerjee e Arvind Kejriwal, antigos chefes dos governos de Bengala Ocidental e Délhi. A presença de dirigentes de diferentes partidos entre os presos mostra a extensão da operação: o governo procurou impedir que as organizações oposicionistas se reunissem nas ruas, independentemente de suas diferenças políticas.
A sede da Federação de Estudantes da Índia permaneceu sob vigilância durante horas. Uma integrante de seu comitê estadual, identificada como Xranaya, contou à Al Jazeera que os estudantes conseguiram sair do prédio e participar dos atos. Mesmo com as barreiras, ocorreram pequenos protestos em outros pontos da cidade, entre eles o mercado de artesanato Dilli Haat.
Xranaya afirmou que a repressão não encerraria as manifestações:
“Este governo desconhece a força do povo, e essa é a nossa vantagem. Não temos armas, mas temos disposição. Estaremos novamente nas ruas e continuaremos voltando. Somos estudantes. Somos desempregados. Somos ‘baratas’ — e voltaremos.”
Depois da declaração, a estudante subiu em uma barreira, foi arrastada pelos policiais e levada em um ônibus. Jornalistas que acompanhavam os atos também foram detidos. Representantes de dois veículos digitais informaram que quatro de seus repórteres passaram pela custódia policial. Um profissional da Reuters foi preso e posteriormente libertado.
O cadastro eleitoral
Os protestos cresceram depois que o Indian Express noticiou questionamentos de dois comissários eleitorais ao procedimento dirigido por Kumar. Segundo a Al Jazeera, a revisão retirou aproximadamente 130 milhões de nomes dos registros. A oposição acusa o BJP de utilizar as exclusões para favorecer seus candidatos e afirma que o procedimento afetou eleições estaduais recentes.
A Comissão Eleitoral e o partido governista negam irregularidades. A contestação diz respeito à retirada de cidadãos aptos a votar e aos critérios empregados na revisão. Em vez de responder às organizações que exigem a restituição dos registros, o governo colocou seus dirigentes sob custódia e fechou o local escolhido para a manifestação.
O porta-voz do BJP, Sambit Patra, chamou os participantes de “elementos anárquicos” e comemorou o fracasso do ato. A concentração foi impedida pela polícia, mas o governista apresentou o resultado da repressão como derrota política dos manifestantes. Afirmou ainda que o país estaria tranquilo e avançando sob uma boa administração.
Negócios com o imperialismo
A repressão desmente qualquer tentativa de apresentar Modi como um governante progressista por suas relações com Rússia e China ou pela participação da Índia no BRICS. Seu regime sufoca as liberdades políticas dos trabalhadores e da juventude. No exterior, procura aproveitar as disputas entre as potências para obter vantagens para a burguesia indiana, ao mesmo tempo em que mantém o país subordinado ao imperialismo.
Nova Délhi integra o Quad com Estados Unidos, Japão e Austrália. As divergências eventuais com Washington não significam um enfrentamento com o imperialismo. Modi negocia com a China enquanto preserva a colaboração com os norte-americanos e seus aliados, procurando evitar compromissos que eliminem sua margem de manobra.
Esse equilíbrio é frágil porque depende de interesses conflitantes que o governo indiano não controla. É enganoso apresentá-lo como independência econômica: a participação no BRICS não retira dos monopólios ocidentais os negócios, investimentos e posições que mantêm na Índia. A burguesia local procura melhorar suas condições de negociação sem enfrentar a dominação do capital financeiro imperialista.
O próprio Ministério do Comércio e Indústria anuncia que a maioria dos setores da economia está aberta a 100% de investimento estrangeiro direto pela via automática. Serviços e informática estão entre os principais destinos desses recursos.
A Amazon anunciou investimentos de US$ 48 bilhões na Índia entre 2026 e 2030. Os planos incluem comércio eletrônico, centros de dados e infraestrutura de inteligência artificial. Em encontro com Modi em 25/06, o presidente-executivo da companhia, Andy Jassy, agradeceu a liderança do primeiro-ministro. O monopólio norte-americano encontra no governo um interlocutor para ampliar sua presença em atividades decisivas da economia indiana.
Os vínculos militares com “Israel” completam essa política. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, o Estado sionista forneceu 15% das importações indianas de grandes armamentos entre 2021 e 2025. A França respondeu por 29% e a Rússia por 40%. As compras sustentam negócios com a indústria armamentista israelense e aprofundam relações de dependência tecnológica e militar.
A cooperação com a Rússia convive com o financiamento, por meio dessas compras, da indústria que abastece o genocídio palestino. Modi procura vantagens em diferentes negociações, preservando a aliança com “Israel” e os negócios com as potências ocidentais.
O Partido Comunista da Índia (Marxista) convocou suas organizações a realizar protestos em todo o país contra as prisões e agressões. Exigiu a saída de Kumar, a interrupção da revisão eleitoral e a reinclusão dos eleitores aptos que foram retirados dos registros.


