Eleições 2026

Lula chega à reta final do 2º turno abraçado à direita e sem programa

No debate com Flávio Bolsonaro, presidente apostou em acusações de corrupção e ataques pessoais, abandonando a oportunidade de apresentar um programa para os trabalhadores

O debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado neste domingo (18) pela Rede Bandeirantes, terminou com um resultado político favorável à direita. Precisando reverter a derrota sofrida no primeiro turno, o presidente decidiu enfrentar seu adversário com acusações de corrupção, denúncias envolvendo familiares e provocações pessoais. Lula aceitou fazer uma campanha policial contra o bolsonarismo, deixando de apresentar as reivindicações que poderiam conquistar os trabalhadores descontentes com a situação do País.

Flávio Bolsonaro não teve uma atuação extraordinária. O senador recorreu aos ataques tradicionais contra o PT, explorou o desgaste do governo e repetiu propostas conservadoras. Sua vantagem foi encontrar um adversário disposto a discutir os assuntos que mais interessam à direita. Lula entrou numa briga para determinar quem seria o maior corrupto, numa eleição em que o bolsonarismo procura explorar justamente a insatisfação com o governo petista.

O confronto ocorreu a uma semana do segundo turno, marcado para 25/10. Na votação de 4/10, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O presidente precisava conquistar uma parcela dos eleitores que não votaram nele, particularmente os trabalhadores insatisfeitos com os salários, o custo de vida e os resultados de seu governo. O debate seria uma oportunidade para apresentar uma política que respondesse a esses problemas. A campanha petista preferiu outra coisa.

Logo no primeiro bloco, os candidatos trocaram acusações envolvendo seus familiares. Lula cobrou explicações de Flávio sobre denúncias relacionadas ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao Banco Master. O senador respondeu mencionando Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, e denúncias de corrupção contra governos petistas.

No terceiro bloco, Lula desafiou Flávio a abrir seus sigilos bancário e telefônico, propondo que ambos entregassem informações às autoridades para investigar possíveis irregularidades, inclusive envolvendo familiares. O bolsonarista afirmou não ter nada a esconder, mas não confirmou que aceitaria o desafio nos termos apresentados pelo presidente.

A discussão sobre quem deveria entregar seus documentos à polícia e à Justiça ocupou um espaço que poderia ter sido dedicado às condições de vida da população. O candidato petista procurou demonstrar que seu adversário tinha contas a prestar às autoridades. Flávio respondeu com denúncias semelhantes contra Lula e seus familiares.

A denúncia de corrupção sempre foi uma das principais armas utilizadas pela burguesia contra o movimento operário e seus representantes políticos. Foi com campanhas dessa natureza que a imprensa capitalista atacou o PT durante décadas, desde o chamado mensalão até a Operação Lava Jato. A ofensiva judicial serviu para enfraquecer o governo de Dilma Rousseff, preparar o golpe de 2016 e retirar Lula da disputa presidencial de 2018.

O PT conhece perfeitamente as consequências dessa política. Seu principal dirigente passou 580 dias preso, depois de um processo conduzido no ambiente de perseguição criado pela Lava Jato.

Agora, Lula procura vencer o bolsonarismo utilizando o mesmo método que a direita empregou contra ele. A tentativa de transformar a eleição numa disputa sobre a suposta criminalidade dos candidatos apenas fortalece a concepção de que a política deve ser decidida pela polícia e pelo Judiciário.

A esquerda não pode derrotar a direita se valendo de denúncias morais. Sua força histórica esteve na apresentação de um programa baseado nas reivindicações dos trabalhadores. Foi assim que o movimento operário conquistou direitos, organizou sindicatos e formou partidos políticos capazes de enfrentar os representantes dos capitalistas. A luta por melhores salários, redução da jornada de trabalho, educação, saúde e direitos democráticos sempre constituiu uma alternativa à demagogia conservadora.

Há ainda uma dificuldade adicional para a estratégia escolhida pelo presidente. O PT governou o Brasil durante a maior parte do período iniciado em 2003 e encontra-se atualmente no comando do governo federal. Lula é candidato à reeleição e precisa responder pelas condições econômicas e sociais existentes no País.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, apresenta-se como representante da oposição. Embora pertença a uma família que ocupou a Presidência durante quatro anos e tenha uma longa trajetória na política, o senador procura responsabilizar o atual governo pelos problemas nacionais.

O candidato do PL não precisa demonstrar que seu partido oferece uma solução para as dificuldades da população. Basta explorar o descontentamento e repetir que os problemas são responsabilidade do PT. Lula, ao contrário, precisa defender sua administração e convencer o eleitorado de que mais quatro anos de governo produzirão resultados diferentes.

Ao concentrar a discussão nas denúncias de corrupção, o presidente deixa essas questões sem resposta. A acusação contra Flávio Bolsonaro não explica ao trabalhador por que seu salário continua insuficiente ou por que as promessas feitas pelo governo não foram cumpridas.

Mesmo quando apareceram assuntos diretamente relacionados às reivindicações populares, o confronto foi rapidamente desviado para as provocações pessoais. A redução da escala 6×1, por exemplo, entrou na discussão. Flávio procurou justificar sua mudança de posição, afirmando que havia passado a ouvir os trabalhadores. Lula respondeu acusando o adversário de desconhecer a vida da população e os serviços públicos.

O presidente poderia ter defendido a redução da jornada como parte de uma política de enfrentamento aos exploradores do povo. Preferiu transformar o assunto numa discussão sobre a experiência pessoal do bolsonarista.

A dificuldade da campanha petista não decorre apenas de uma escolha equivocada para um debate de televisão. Depois de quatro anos administrando o Estado em acordo com os grandes capitalistas, Lula não tem condições de apresentar sua candidatura como instrumento de luta contra esses mesmos interesses.

O governo manteve o arcabouço fiscal, preservou seus compromissos com os banqueiros e aprofundou a aliança com representantes da direita tradicional. Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB e inimigo jurado dos trabalhadores, tornou-se vice-presidente. Simone Tebet e Marina Silva passaram a integrar a administração petista, que também procurou garantir sua sustentação por meio de acordos com o esgoto mais fedido da política nacional, com o Supremo e com tudo.

Essa composição política impede que Lula apresente uma alternativa minimamente consequente ao bolsonarismo. O presidente não pode convocar os trabalhadores a combater os interesses dos grandes empresários enquanto governa para os grandes empresários. Tampouco pode prometer uma mudança na política econômica depois de manter e aprofundar os compromissos assumidos com o capital financeiro.

A direção petista procura contornar o problema com propaganda eleitoreira e ataques pessoais. Denuncia os perigos de uma vitória bolsonarista, mas se recusa a romper com as forças sociais e políticas que sustentam o regime.

A adequação total ao regime burguês chegou ao ponto de incorporar algumas das propostas mais reacionárias dos partidos da direita golpista. Na quinta-feira (15), durante sabatina realizada pela TV Globo, Lula declarou-se favorável à redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos.

A posição acompanhou uma iniciativa do senador Camilo Santana (PT-CE), integrante da coordenação da campanha, que apresentou uma emenda com esse objetivo.

A declaração marcou uma mudança em relação às posições anteriormente defendidas pelo presidente. Em 2007, Lula criticava a redução da maioridade penal, classificando-a como uma medida absurda e preconceituosa contra a juventude. Agora, às vésperas de uma eleição difícil, passou a apoiar uma reivindicação tradicional da direita mais canalha.

A campanha poderia procurar conquistar os eleitores descontentes com as arbitrariedades do STF, denunciar o sistema financeiro representado por Daniel Vorcaro, defender as liberdades democráticas, combater os impostos que pesam sobre a população e inúmeras coisas. Seriam medidas capazes de atingir problemas reais e colocar a direita numa posição defensiva.

O PT preferiu defender o endurecimento penal contra adolescentes, medida que atingirá principalmente os jovens pobres.

A redução da maioridade penal não oferece uma resposta efetiva à violência. Os adolescentes que cometem atos infracionais já estão sujeitos a sanções, inclusive à internação por até três anos. A proposta pretende submetê-los ao sistema penitenciário destinado aos adultos, ampliando o encarceramento sem resolver as causas da criminalidade.

A violência está ligada às condições sociais da população, à desigualdade, à miséria e à incapacidade do Estado de investigar e esclarecer os crimes. Aumentar a duração das penas e colocar adolescentes nas penitenciárias não elimina nenhum desses problemas.

A proposta possui também um significado político. O PT resolveu disputar com a direita quem oferece mais repressão. Não se trata sequer de uma reivindicação especificamente bolsonarista, mas de uma bandeira antiga do PSDB, que há décadas apresenta o fortalecimento da polícia e do sistema penitenciário como solução para a violência.

Durante anos, o PT pediu votos contra José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves denunciando a política da direita tucana. Hoje, Alckmin é vice-presidente de Lula e propostas defendidas por seu antigo partido são incorporadas à campanha petista.

A transformação mostra que a candidatura de Lula não está simplesmente deixando de apresentar reivindicações populares. Naquilo que oferece de mais definido, aproxima-se das posições da direita tradicional.

A direção do PT procura justificar essas concessões pela necessidade de vencer Flávio Bolsonaro. O argumento é que seria preciso atrair o eleitorado conservador, mesmo ao custo de abandonar posições historicamente defendidas pelo partido. Mas o eleitor que deseja medidas repressivas mais duras encontra no candidato do PL alguém disposto a ir mais longe. Por que escolher Lula apenas porque o presidente passou a defender parte do programa conservador?

O trabalhador que esperava do PT uma oposição a essas medidas, por sua vez, vê sua candidatura apoiar políticas que anteriormente combatia. A tentativa de conquistar votos à direita acaba enfraquecendo a própria base política do petismo.

A direção petista procura compensar a falta de entusiasmo popular com uma campanha de pressão sobre os eleitores de esquerda. O segundo turno é apresentado como uma disputa de vida ou morte, na qual todos devem beijar os pés de Lula. Quem não aceita apoiar essa farsa passa a ser acusado de favorecer o bolsonarismo.

A discussão política é substituída pela exigência de obediência. Em lugar de convencer os trabalhadores de que seu programa merece apoio, os petistas procuram obrigá-los a votar contra suas próprias posições. O eleitor deixa de ser tratado como alguém que precisa ser conquistado por meio de propostas e passa a ser pressionado a aceitar uma candidatura independentemente do que ela defende.

Essa política inverte a relação que deveria existir entre os partidos e sua base social. Os trabalhadores são chamados a abandonar suas reivindicações para garantir a continuidade de um governo comprometido com os interesses dos capitalistas. A escolha eleitoral transforma-se numa obrigação imposta pelas direções partidárias.

Foi contra essa orientação que o Partido da Causa Operária (PCO) se posicionou ao aprovar o voto nulo no segundo turno. A decisão foi tomada durante sua 39ª Conferência Nacional, realizada em 11/10, após um balanço do primeiro turno e da política desenvolvida pelo governo Lula.

O Partido explicou que o apoio ao petista em 2022 ocorreu numa situação distinta, quando sua candidatura ainda expressava a oposição de importantes setores da classe operária ao regime responsável pelo golpe de 2016 e pela perseguição judicial contra Lula.

Hoje, Lula é o presidente da frente ampla. Sua candidatura representa um governo associado aos setores tradicionais da burguesia, comprometido com uma política econômica que atende aos banqueiros e com a sustentação das instituições mais ilegítimas e apodrecidas do País.

Obviamente, o PCO não apoia Flávio Bolsonaro e tampouco considera que a vitória do candidato do PL represente uma solução para os trabalhadores. Sua posição é que a luta contra a direita não pode servir de justificativa para abandonar a independência política da classe operária. A orientação pelo voto nulo expressa essa posição, sem que o Partido pretenda realizar uma campanha de agitação em torno dessa decisão.

A evolução da campanha petista depois da Conferência confirmou os motivos da resolução. Lula não apresentou uma mudança política para enfrentar a direita. Pelo contrário, aprofundou sua aproximação com o programa conservador e, no debate, procurou combater Flávio Bolsonaro por meio de acusações policiais.

A política de frente ampla não conseguiu impedir o crescimento eleitoral da direita nem mobilizar os trabalhadores em defesa do governo. Na verdade, ela é a principal responsável pelo crescimento da direita. Diante do resultado do primeiro turno, a direção petista decidiu aprofundar as alianças e os compromissos que contribuíram para seu enfraquecimento.

Os trabalhadores precisam de um programa que enfrente os grandes capitalistas, defenda o aumento geral dos salários e aposentadorias, a redução da jornada sem redução salarial, a revogação das reformas trabalhista e previdenciária e a ampliação dos direitos democráticos. São reivindicações capazes de organizar uma luta contra os interesses representados pelos partidos burgueses.

Enquanto Lula e Flávio Bolsonaro discutem quem deveria entregar seus sigilos à Justiça, os banqueiros continuam recebendo os juros da dívida pública e os grandes empresários seguem protegidos pela política econômica do governo. A disputa eleitoral não colocou em questão nenhum dos principais interesses desses setores.

A última semana de campanha começa, portanto, com Lula acompanhado pelos representantes da direita tradicional, defendendo propostas conservadoras e tentando conquistar votos com acusações de corrupção. O presidente procura derrotar o bolsonarismo imitando o bolsonarismo. A classe operária continua sem uma candidatura que represente suas reivindicações.

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