No ano de 2024, segundo uma pesquisa do DataSenado, 40,85 milhões de brasileiros tinham perdido dinheiro por obra de golpistas digitais. Os golpes mais comuns envolvem estratégias como pedir dinheiro fingindo ser um familiar ou amigo em apuros, simular ser o novo gerente do banco para obter acesso à conta ou vender produtos inexistentes. Em geral, a vítima percebe que caiu em um golpe da pior maneira possível: vê sua conta zerada ou a impossibilidade de receber o produto pelo qual pagou. Depois de um misto de indignação e vergonha da própria ingenuidade, a pessoa desperta e passa a se prevenir. A esquerda brasileira, no entanto, vem caindo em sucessivos golpes da direita e parece não ter percebido quanto já perdeu até agora.
Um dos golpes mais sofisticados da direita é o identitarismo, que mistura diferentes estratégias: de modo geral, finge ser o amigo em apuros que precisa de seu apoio a uma boa causa e acaba vendendo um produto que não pode entregar. A esquerda, tradicionalmente defensora dos oprimidos, adota a versão direitista de explicação dos fatos, substituindo a luta de classes por uma suposta luta de identidades. Graças a esse truque de salão, o opressor deixa de ser a classe dominante (a burguesia) para ser o vizinho, o colega de trabalho, o primo ou quem quer que seja, desde que, no jogo social, pertença a uma “identidade privilegiada”, que os adeptos dessa política resumem na figura do “homem branco heterossexual”.
À maneira de desabusados golpistas, os mentores dessa política propagam a ideia de que seria nula como argumento antirracista ou anti-homofóbico a alegação de que a pessoa tem amigos ou ascendentes negros e/ou LGBT. Para esse pessoal, quem se defende de acusações de preconceito dessa forma seria o típico racista ou homofóbico, que estaria tentando negar por suas ações e sentimentos algo inerente à própria identidade opressora a que pertence. Nessa pseudológica, repetida à exaustão, o único jeito de não ser racista ou homofóbico, tendo nascido branco e heterossexual, seria reconhecer-se como privilegiado, aderir ao vocabulário identitário e passar a defender publicamente essa teoria como se não fosse uma teoria, mas uma espécie de novo consenso moral.
Muito espertos, os identitários divulgaram largamente nos órgãos de imprensa da burguesia e nas redes sociais cartilhas de comportamento, disciplinadoras sobretudo do repertório linguístico dos falantes. A ênfase nas “palavras certas” e nas “palavras proibidas” visa a que os adeptos ou os que resistem à adesão sejam identificados assim que abram a boca (“Bom dia a todos, todas e todes”). Muita gente bem-intencionada, temerosa de ser vítima de um “cancelamento”, vem mudando as formas de expressão – ora se policiando, ora se desculpando por um deslize – sem se dar conta de que está caindo em um golpe. De fato, é muito mais fácil perceber que o dinheiro desapareceu da conta bancária do que perceber uma tentativa de lavagem cerebral. A excessiva preocupação com a linguagem parece ser um experimento social, que testa a viabilidade do controle da informação pela autocensura. Ao usar o vocabulário identitário, o incauto tende a reproduzir o recorte de mundo proposto por essa ideologia.
A coisa é muito bem engendrada, com fomento à pesquisa acadêmica, patrocínio de grandes organizações não governamentais sediadas em países imperialistas (disfarçadas de organizações filantrópicas) e tentáculos nas editoras, que decidem o que será publicado, na produção de espetáculos, filmes e exposições de arte, na premiação de escritores e intelectuais, na eleição para academias de letras, no Oscar, bem como no sistema judiciário, na imprensa e nas redes sociais. Trata-se, como se vê, de um esforço institucional de grande amplitude, que dificilmente seria empenhado na defesa de minorias oprimidas. Como nos lembra a sabedoria popular, quando a esmola é demais, o santo desconfia. Até o santo desconfia, mas a esquerda continua abraçada a essa política, cuja finalidade última é desmobilizar a classe trabalhadora, canalizando o sentimento de revolta e de indignação das camadas populares para falsos inimigos.
A esquerda perde seu norte e, como estamos vendo, pode perder também a eleição. A extrema direita, que, daqui a alguns dias, pode sair vitoriosa no pleito presidencial, sagrou-se claramente anti-identitária, atraindo para o seu entorno uma massa popular que não se beneficia do produto inexistente oferecido pelos identitários. O negro trabalhador, morador de favela, que acorda de madrugada para trabalhar e pode ser morto pela polícia no quintal de casa, dá consistência às estatísticas usadas para defender a “representatividade” por meio da participação de alguns personagens negros nas instituições do estado burguês, em geral pessoas de classe média, artistas ou professores universitários, todos ávidos por ascensão na carreira.
Nem seria preciso lembrar quanto essa política contribui para deseducar e despolitizar a classe trabalhadora, a quem se pretende ensinar que são ONGs imperialistas e grandes bancos os maiores interessados em atender às suas necessidades. A esquerda tirou do horizonte a luta de classes, ajudando a burguesia, que diuturnamente expropria o trabalhador, a aparecer como “civilizada”. A vida real, no entanto, não confirma o discurso apaziguador, e o povo segue caminhos diferentes, que, muito provavelmente, levarão a outra cilada. Não se trata, porém, de convocar a população a escolher entre dois tipos de arapuca.
A esquerda caiu no golpe da direita “coxinha” e não consegue despertar do entorpecimento. Quando, às vésperas da eleição, se diz favorável à redução da maioridade penal, Lula, o maior líder da esquerda brasileira, contraria a base tradicional do Partido dos Trabalhadores, mas não os identitários. Estes sabem a quem essa medida vai atingir, pois cadeia é para pobre, mas que importa? A classe média não hesita em aderir a políticas repressivas, principalmente na ausência de outras propostas. Sem uma esquerda com coragem de se posicionar, assistimos ao espetáculo deprimente de uma militância que vai às redes sociais defender as mesmas ideias da direita.
Ao mesmo tempo, Lula acena à burguesia com Geraldo Alckmin no Ministério da Fazenda em um quarto mandato. A observar a imprensa, é possível presumir que o recado esteja surtindo algum efeito. Não são poucas as matérias jornalísticas favoráveis ao presidente, que, ao contrário do que pareceu a este escriba e talvez a André Janones, teria tido desempenho muito bom no debate da Band, no último domingo, quando foi atacado do início ao fim pelo oponente, sem revidar à altura, preso que está à política da direita. (Janones, na plateia, teve um pico de estresse e foi internado às pressas com arritmia cardíaca em uma UTI de hospital chique, onde recebeu atendimento de primeira linha, com médicos “cinco estrelas”.)
Mesmo com algumas críticas em editoriais, Lula parece ser o preferido da imprensa burguesa. Novas denúncias contra Flávio Bolsonaro às vésperas do pleito e uma valente campanha dos tucanos, nas redes sociais e nas colunas de jornal, em favor do candidato do PT podem dar uma força às estratégias de Janones, que vestiu a militância de verde e amarelo, mimetizando a campanha do adversário. A esta altura, tudo pode acontecer, embora Flávio Bolsonaro esteja à frente, mas, seja qual for o resultado da eleição, o mais provável é que, no dia seguinte, a população sinta que comprou gato por lebre.





