Eleições 2026

Rui Costa Pimenta explica voto nulo do PCO no Show do Bacci

Presidente do Partido critica a aliança do PT com o regime político e afirma que imitar a direita não deterá Flávio Bolsonaro

Rui Costa Pimenta explicou no Show do Bacci por que o Partido da Causa Operária (PCO) votará nulo no segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. O presidente nacional do Partido afirmou que o apoio ao petista em 2022 foi uma decisão excepcional, tomada quando sua candidatura reunia trabalhadores em luta contra o golpe de 2016. Agora, Lula disputa a reeleição à frente de um governo de conciliação com os setores que o PCO combate.

A decisão pelo voto nulo, também válida para os segundos turnos estaduais, foi aprovada pela 39ª Conferência Nacional do PCO, realizada no domingo (11). O Partido orientará seus militantes, mas não fará uma campanha de agitação pelo voto nulo.

PCO: não votaremos em uma política que representa um setor do capital

Ao recordar a eleição anterior, Pimenta apontou a diferença entre apoiar uma candidatura associada à resistência ao golpe e apoiar o governo que resultou daquela vitória:

“De um modo geral, nós não votamos no PT. O voto no PT na última eleição foi uma excepcionalidade. Em grande medida, foi determinado pelo que a gente considera que foi um golpe de Estado que derrubou o governo da Dilma Rousseff. Nesse sentido, o PT foi colocado, até involuntariamente, numa posição de confronto com o regime político. E nós achamos que era importante apoiar o PT porque expressava uma tendência da classe trabalhadora a se chocar com o regime político. Mas o último governo Lula foi um governo de conciliação, de integração com os poderosos. Veja-se a relação muito negativa do PT com o STF.”

O PCO apoiou a luta contra a prisão de Lula e sua exclusão da eleição de 2018, mantendo suas críticas ao programa petista. Em 2026, a avaliação do Partido é que pedir o voto em Lula significaria chamar os trabalhadores a sustentar a frente ampla e sua aliança com o Supremo Tribunal Federal (STF).

Pimenta rejeitou a ideia de decidir o voto apenas pela comparação entre os possíveis governos. A pergunta decisiva para um partido revolucionário, disse, é que política ele recomenda aos trabalhadores:

“O nosso Partido considera que nós não devemos indicar para os militantes, para os trabalhadores, para os apoiadores, o voto num partido que está aí visivelmente na defesa do status quo. Nós somos um partido revolucionário, nós somos inimigos do regime político tal como ele é. E não poderíamos fazer essa opção. Não é um problema de saber se o governo Lula seria melhor ou pior do que o governo do Flávio Bolsonaro. É um problema de orientação política geral: o que significa efetivamente a política do PT, que nesse momento, na nossa opinião, está completamente alinhada com o status quo?”

A entrevista passou então ao resultado do primeiro turno. Perguntado sobre a vantagem obtida por Flávio Bolsonaro, Pimenta afirmou que a campanha do PT paga o preço de uma política seguida durante anos. Os programas sociais, avaliou, aliviaram a falta de renda de parte da população, mas o governo não enfrentou a situação da indústria nem ofereceu uma perspectiva econômica aos trabalhadores.

“O Lula e o PT não se deram conta de que a política que eles levaram adiante nas sucessivas presidências que ocuparam é uma política que está esgotada, não atende os anseios inclusive da população pobre. É uma política orientada a determinados programas sociais, mas que não recupera a situação econômica nacional. […] O problema é recuperar a economia nacional. Você tem que apontar uma perspectiva para as pessoas. E eu acho que o PT estacionou nessa política, se acomodou nessa política. Nós perdemos um terço da indústria nacional e ele não deu solução.”

Para o dirigente, a direita consegue avançar porque promete resolver problemas aos quais o PT deixou de responder. Pimenta considera ilusória a solução oferecida pelos bolsonaristas, mas observa que a campanha petista passou a se apoiar principalmente na rejeição ao adversário, em vez de apresentar medidas capazes de atrair a população por seu próprio conteúdo.

Um exemplo apontado na entrevista foi o lema “bandido preso, trabalhador protegido”, adotado por Lula. O apresentador mencionou a repercussão de uma declaração anterior de Pimenta, divulgada como se ele tivesse manifestado preferência por Flávio Bolsonaro. O presidente do PCO esclareceu que criticava a tentativa do PT de disputar a eleição com a política de segurança da direita:

“A posição tradicional da esquerda é que o problema da criminalidade é um problema social. Você não vai resolver os altos índices de criminalidade do Brasil apenas com uma política repressiva, com encarceramento. […] Nós sempre defendemos esse ponto de vista: se você quer diminuir a criminalidade, precisa dar às pessoas emprego, dar às pessoas uma perspectiva social. […] O Lula falou: ‘bandido preso’. Mas, se é com esse tipo de slogan, o correto seria a pessoa votar no Bolsonaro e não no Lula, se é por esse tipo de proposta. Eu faço aqui uma crítica vinda da esquerda, porque não adianta imitar a política da direita.”

Pimenta chamou a adoção desse discurso de capitulação. Se o PT repete uma palavra de ordem bolsonarista, argumentou, confirma perante o eleitor a política do adversário. A crítica não era um chamado ao voto em Flávio Bolsonaro, mas um ataque à campanha de Lula pela esquerda.

Sobre a disputa presidencial, o dirigente disse considerar a situação mais favorável ao candidato do PL. Registrou que as pesquisas indicavam alguma melhora do PT, sem dar a eleição por encerrada. Sua avaliação é que uma reação nas últimas semanas não apaga as decisões tomadas durante o governo.

“O PT acordou muito tarde para o problema e não está reagindo bem. Aparentemente, as pesquisas mostram uma melhoria do PT nesses últimos dias, mas eu não sei se isso vai ser suficiente para mudar o rumo da eleição. O PT deveria ter pensado nisso durante o governo. Nós, que apoiamos o Lula em 2022, fizemos várias críticas sobre o que achávamos que era ruim e que iria custar para o PT na eleição.”

Pimenta lembrou que a direita já saiu fortalecida da eleição para o Congresso. Caso Lula seja reeleito, previu dificuldades para governar e uma pressão ainda maior para adaptar o PT às exigências do mercado. Se Flávio Bolsonaro vencer, as diferentes alas do bolsonarismo terão de responder, no governo, a problemas que a campanha eleitoral permite contornar.

Perguntado sobre o futuro do PT, Pimenta afirmou que o partido atravessará uma transformação qualquer que seja o desfecho da disputa. Uma derrota tornaria mais aguda a questão da sucessão de Lula, cuja força política, segundo ele, supera amplamente a da organização que dirige: “O PT vai atravessar uma crise e vai ter que passar por uma transformação, e vai perder muito, porque o Lula é uma figura muito grande, muito maior do que o próprio partido”.

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