O voto nulo no segundo turno abriu a entrevista de Rui Costa Pimenta a Leandro Fortes, na terça-feira (13), no Canal do Galo Preto. O jornalista, que declarou seu voto em Lula, perguntou por que o Partido da Causa Operária (PCO) recusou apoiar o petista contra Flávio Bolsonaro. Pimenta respondeu que a 39ª Conferência Nacional do Partido examinou a campanha e o resultado do primeiro turno antes de tomar a decisão. Para o PCO, a eleição mostra uma relação de forças que não será alterada apenas pela escolha de um presidente.
“Nós não achamos que a eleição é uma coisa de vida ou morte, que o País vai mudar porque ganha o candidato A, B ou C. Nós achamos que a eleição é um processo que permite identificar, até certo ponto, a relação de forças existente dentro da sociedade, a relação de forças real. Não é a eleição que estabelece quem tem mais força, quem tem menos força. A força existe ou não.”
O dirigente recusou o critério de escolher o candidato “menos ruim”. Recordou que o PCO votou em Lula em 1989, 1994 e 1998, quando via no PT uma força em oposição à burguesia. A partir de 2002, com a chegada do partido ao governo, passou a lançar candidatura própria. A exceção foi 2022: depois do golpe contra Dilma Rousseff e da perseguição judicial a Lula, o PCO considerou que a candidatura petista expressava a luta contra a ofensiva organizada pela burguesia.
Quatro anos depois, afirmou Pimenta, Lula disputa a reeleição como chefe de um governo que aplicou uma política econômica contrária aos interesses dos trabalhadores. Sua campanha reúne Geraldo Alckmin, Simone Tebet, antigos integrantes do PSDB e outros representantes da frente ampla. O anúncio de Alckmin para o Ministério da Fazenda, caso Lula vença, mostrou a direção escolhida pelo PT após o primeiro turno.
“Nós entendemos que apoiar o Lula nessa eleição não é apoiar um movimento da classe trabalhadora contra a burguesia. O PT, inclusive, foi muito longe na sua integração com a burguesia. Se a gente observar bem a campanha eleitoral do PT, eu acho que a campanha confirma esse diagnóstico que a gente tem: você vai ver que ela é uma campanha muito mais estilo PSDB do que PT.”
Fortes insistiu: diante das propostas de Flávio Bolsonaro para as relações de trabalho e os serviços públicos, votar em Lula não seria uma forma de reduzir danos? Rui contestou a premissa. Segundo ele, apresentar o PT como proteção contra a direita cria uma falsa confiança entre os trabalhadores, enquanto a direção petista se adapta às exigências do grande capital e mantém paralisadas as organizações que dirige, entre elas a Central Única dos Trabalhadores (CUT).
“Se nós, PCO, chamamos os trabalhadores a votar no Lula nesse momento, diante da política que seria levada adiante pelo Flávio Bolsonaro, seria um voto que na realidade serviria mais para desarmar os trabalhadores do que para reduzir danos. Porque a hora que a direita, com o apoio da burguesia, for colocar em prática essa política, o PT vai capitular. Nós sabemos disso porque eu já vi isso acontecer várias vezes.”
Voto nulo não é apoio ao bolsonarismo
A decisão do PCO provocou acusações de que o Partido teria declarado apoio velado a Flávio Bolsonaro. Rui negou a afirmação. Disse que a campanha começou em veículos da direita, interessados em explorar o voto nulo contra Lula, e foi repetida por setores da esquerda. O PCO não apoiará o candidato bolsonarista nem fará campanha para retirar votos do petista, afirmou.
“Nós não estamos fazendo campanha contra o PT. Nós não estamos tentando fazer com que o eleitor do Lula vote nulo. Nós não temos interesse nisso. A única coisa que nós estamos fazendo é explicar a nossa posição: por que nós não estamos votando no PT. […] Nós nos sentimos aqui na obrigação de marcar uma posição absolutamente clara. Primeiro, que a eleição não vai resolver nada e, segundo, que nós achamos que a política do PT não é o caminho.”
Uma espectadora escreveu ao programa que tinha vontade de anular o voto, mas votaria em Lula. Rui respondeu que ela deveria seguir sua própria avaliação. Fortes manteve a defesa do voto petista e pediu ao público que discutisse a divergência sem insultar o convidado.
O presidente do PCO rejeitou também a acusação de que o voto nulo resultaria de ressentimento contra o PT. A correnta Causa Operária foi expulsa do partido e perdeu militantes, recordou, mas defendeu José Dirceu no caso do mensalão, combateu o golpe de 2016 e participou da luta pela liberdade de Lula. Criticar os governos petistas nunca o levou, disse, a apoiar uma ofensiva da direita contra o PT.
Perguntado se apoiaria um governo Flávio Bolsonaro, foi direto: “logicamente que nós não vamos apoiar o governo Bolsonaro”. Pimenta afirmou que uma política de ataque aos trabalhadores deverá ser enfrentada nas ruas. Criticou, porém, a experiência da esquerda durante o governo de Jair Bolsonaro: em sua avaliação, as direções partidárias deixaram de organizar a população e passaram a esperar que Alexandre de Moraes contivesse a direita por meio do Judiciário.
A população quer emprego e futuro
Fortes perguntou se a hostilidade de setores petistas aos evangélicos e aos trabalhadores conservadores contribuiu para a derrota do primeiro turno. Rui respondeu que essa atitude agravou o resultado, mas apontou uma causa mais profunda: a política social do PT oferece algum alívio à pobreza sem recuperar a indústria nacional, os empregos e os salários.
“O PT chegou ao governo naquele cenário de destruição profunda da economia nacional feita pelo FHC. […] Aí o que ele fez? Adotou uma política paliativa. Fez o Bolsa Família e outros programas sociais. Essa política está esgotada, porque o PT ficou no governo e não mudou nada. Não conseguiu reindustrializar o País, recuperar a economia nacional.”
Receber R$600 é melhor do que passar fome, observou, mas o benefício não substitui uma perspectiva de trabalho e melhoria de vida. Muitos brasileiros tentam sobreviver por conta própria. A direita promete prosperidade a essa população; o PT, segundo Pimenta, não apresenta uma resposta para a destruição econômica que a empurrou a essa situação.
O dirigente criticou a expressão “pobre de direita”, usada para desprezar quem vota no bolsonarismo. Lembrou que vários operários das greves do ABC tinham opiniões conservadoras e nem por isso deixaram de participar de uma luta coletiva. Um partido operário precisa disputar politicamente esses trabalhadores, em vez de tratá-los como inimigos por causa do voto.
“Não pode ficar hostilizando o pessoal assim, falar que o pessoal é gado. O Bolsonaro teve 50 milhões de votos. Como gado? É o povo brasileiro. Tem muita gente pobre que vota no Bolsonaro. Você tem que conversar com o pessoal, tem que tentar convencer.”
Na avaliação de Pimenta, o antipetismo teve grande peso no primeiro turno. Parte dos eleitores de Flávio Bolsonaro procura uma alternativa ao governo, sem ter compromisso firme com o bolsonarismo. O PT, disse, entrega essas pessoas à direita quando combina a falta de uma saída econômica com o desprezo pelos trabalhadores que não acompanham sua preferência eleitoral.
A censura volta contra o PT
As decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones, levaram a conversa à censura eleitoral. Rui condenou as medidas contra a campanha petista. Apontou, ao mesmo tempo, a responsabilidade da esquerda que apoiou durante anos a repressão judicial a opiniões bolsonaristas e agora se vê atingida pelo mesmo poder concedido aos juízes.
“Eleição é cada um falar o que quer, essa é a minha opinião. Não tem que ter TSE patrulhando a opinião do pessoal na eleição. Aí o cara fala: ‘Mas fulano vai usar uma máquina para difundir notícias falsas’. Tudo bem, o PT também lançou várias notícias falsas. Rebate, pô.”
Rui citou a exploração eleitoral da polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida. Considerou vergonhosa a tentativa de apresentar Flávio Bolsonaro como inimigo da santa e o PT como seu defensor. Para ele, cabe a cada campanha responder às acusações da outra; o TSE não deveria decidir quais argumentos podem circular.
Fortes também perguntou se as manifestações convocadas no segundo turno poderiam pressionar Lula a formar um governo mais à esquerda. Pimenta disse não ver essa orientação na campanha, que acaba de oferecer a Fazenda a Alckmin. Para avaliar os atos, afirmou, é preciso observar sua composição e a existência de uma organização capaz de manter os trabalhadores mobilizados depois da votação. O PT passou quatro anos sem desenvolvê-la e agora convoca as ruas para tentar virar o resultado eleitoral.
O presidente do PCO apontou a perseguição sofrida pelo Partido por sua defesa da Palestina como outra experiência dos limites de esperar proteção do governo. Citou processos contra militantes e a prisão de Lucas Passos. Segundo Rui, a solidariedade veio das pessoas dispostas a defender as liberdades políticas, enquanto setores da esquerda permaneceram calados.
“Os trabalhadores só podem contar com as suas próprias forças. Governo não vai resolver a parada, não vai resolver. Se está o Lula no governo, você pode, sei lá, conversar com um parlamentar, mas é pouca coisa.”





